Frederico Haikal/Hoje em Dia
Ana Paula Fernandes acredita que até o 2° semestre de 2015 testes já terão sido concluídos
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) caminham
para desenvolver uma vacina capaz de proteger o homem contra a
leishmaniose visceral. Em todo o país, a doença mata no mínimo dez vezes
mais do que a dengue. O estudo, da Faculdade de Farmácia e do Instituto
de Ciências Biológicas (ICB), tem como base uma vacina desenvolvida no
mesmo laboratório contra leishmaniose visceral em animais, disponível no
mercado há cinco anos.
Chamada Leish-tec, a fórmula teve a eficácia cientificamente comprovada
em cães e gatos e rendeu à equipe da UFMG o Prêmio Péter Murányi deste
ano.
A façanha despertou o interesse da GlaxoSmithKline. A multinacional do
setor farmacêutico está financiando os pesquisadores Ana Paula Fernandes
e Ricardo Tostes Gazzinelli no desenvolvimento de uma nova droga para
imunização, desta vez para humanos.
“O mundo inteiro tem investigado uma vacina aplicável ou adequada às
populações humanas. Os resultados da pesquisa (com a Leish-tec) são
altamente promissores, mostrando que a vacina induz à proteção. Além
disso, testes em macacos demonstraram a eliminação do parasita nos
órgãos dos animais testados. É possível que dentro de alguns anos
tenhamos uma vacina para humanos contra a leishmaniose”, afirma a
especialista.
De acordo com a especialista, professora do Departamento de Análises
Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia, as pesquisas
começaram em 2013, quando foi assinado um convênio entre a UFMG e a
GlaxoSmithKline. “A expectativa é a de que até meados do ano que vem
esses testes tenham sido concluídos, o que será um passo fundamental
rumo a testes clínicos em humanos”, diz.
Controle
De modo geral, a prevenção realizada pelos órgãos de saúde abarca o
controle de vetores, por meio do sacrifício de animais doentes. Porém, a
medida nem sempre se mostra eficaz. De 2009 a 2013, foram confirmados,
apenas na capital, 458 casos de leishmaniose em humanos; em 94 pessoas, a
doença evoluiu para a morte.
O índice é bastante superior quando comparado à dengue, que no mesmo
período levou a 23 óbitos dentre os 162.693 casos registrados.
Transmissor da doença, o mosquito-palha, como é conhecido, vive próximo
a casas, preferencialmente em locais úmidos, escuros e onde há acúmulo
de matéria orgânica, como quintais com galinheiro ou canil.
De acordo com a prefeitura, os métodos de controle da leishmaniose em
animais são eficazes, refletindo diretamente na redução do número de
casos. “As ações de combate à leishmaniose desenvolvidas na capital
seguem as normas do Ministério da Saúde”, informou a Secretaria
Municipal de Saúde. O Ministério da Saúde foi procurado, mas não se
pronunciou até o fechamento desta edição.
Tratamento e prevenção em cães dividem opiniões
Nos animais vetores da doença, tanto a aplicação da vacina quanto o
tratamento medicamentoso são assuntos controversos. Uma portaria de 2008
assinada pelos ministérios da Saúde e da Agricultura proíbe o
tratamento da leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano.
Mas, no Brasil, os únicos remédios aprovados e disponíveis no mercado
são para o homem.
“Os medicamentos disponíveis hoje são de fácil acesso para os
veterinários, mas a conduta preconizada no país ainda é a eutanásia”,
afirma o veterinário e doutor em epidemiologia Lucas Maciel Cunha. Ele
explica que a doença que acomete os animais não tem cura parasitológica,
apenas clínica: o animal tratado deixa de manifestar os sintomas, mas
se mantém como hospedeiro do parasita que transmite a doença.
Com relação às vacinas, apesar da forte divulgação no mercado, ainda
não há distribuição gratuita garantida pelo Ministério da Saúde. Segundo
o veterinário, a eficácia delas não é 100% comprovada.
Apesar disso, a aposentada Suzana Pimenta, de 53 anos, apostou no
método para proteger Nicole, de 5 anos, e Lili, de 6. As cadelas
receberam recentemente a última das três doses contra a leishmaniose
visceral.
“É a forma mais eficaz de protegê-las. Se não fosse pela vacina,
estariam vulneráveis à doença e poderiam ser sacrificadas”. Dois cães
contaminados de Suzana já tiveram que ser mortos.
Em BH, somente no ano passado, foram recolhidas 113.997 amostras de
cães com suspeita da doença. Do total, 4.862 foram positivas. A
Secretaria Municipal de Saúde não informou, porém, quantos animais foram
executados.
Letalidade duas vezes maior em BH
BH é uma das cidades brasileiras com maior taxa de letalidade por
leishmaniose visceral, segundo a infectologista Gláucia Fernandes Cota,
doutora pela Fundação Oswaldo Cruz.
“Enquanto no país a média é de 6% de mortes em função da infecção, na capital temos de 12% a 15%”, diz.
Estudos apontam relação entre o diagnóstico 60 dias após o contágio e
uma maior taxa de mortalidade. Segundo a infectologista, entretanto, não
há parâmetros para definir em quanto tempo a infecção evolui para
óbito.

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