terça-feira, 1 de dezembro de 2020


 

Pfizer e BioNTech pedem uso emergencial de vacina na Europa

 


Pedido para a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) vem depois de as empresas reivindicarem aprovação nos EUA em 20 de novembro

Agência Brasil
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Foto: Reprodução/ Pfizer do Brasil
Foto: Reprodução/ Pfizer do Brasil

 

A Pfizer e a BioNTech pediram ao regulador de medicamentos da Europa autorização condicional para sua vacina contra a covid-19, após submeterem solicitações semelhantes nos Estados Unidos e no Reino Unido, informaram as empresas nesta terça-feira (1º), em Frankfurt.

O pedido para a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) vem depois de as empresas reivindicarem aprovação nos EUA em 20 de novembro, deixando-as um passo mais perto de lançarem sua vacina.

Na busca por lançar o imunizante na Europa, potencialmente ainda neste ano, as empresas estão passo a passo com a rival Moderna, que anunciou na segunda-feira (30) que pediria ao regulador da União Europeia para recomendar a aprovação condicional para sua vacina.

Resultado final de testes

A norte-americana Pfizer e a alemã BioNTech anunciaram o resultado final dos testes com sua vacina em 18 de novembro, mostrando que sua candidata é 95% eficaz na prevenção da covid-19, sem preocupações de segurança relevantes, levantando a perspectiva de uma aprovação nos EUA e na União Europeia em dezembro.

O pedido feito na Europa conclui a chamada análise contínua, que foi iniciada junto à EMA em 6 de outubro.

O governo britânico informou na semana passada que a parceria entre a norte-americana e a alemã relatou dados de seus testes clínicos para a Agência Regulatória de Medicamento e Saúde do Reino Unido (MHRA).

Brasil tem primeira redução de casos notificados de HIV em dez anos

 


Em 2019 foram notificados 41.919 novos casos de infecção, ante os 45.078 registrados em 2018; 920 mil brasileiros vivem com o vírus

Redação
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Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

 

Dados apresentados pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira (1º) indicam que, pela primeira vez em uma década, caiu o número de casos de HIV notificados no Brasil. No ano passado, foram notificados 41.919 novos casos de infecção, ante os 45.078 registrados em 2018.

A redução é de 7%, numa sequência de crescimento anual desde 2009. Atualmente, o país possui 920 mil brasileiros com o vírus.

Apesar do volume de pessoas, o ministério estima que 100 mil pessoas ainda não sabem que têm HIV. Diante disso, a pasta lança também a campanha de prevenção contra HIV/Aids, com tema “previna-se, faça o teste; se der positivo, comece o tratamento”.

De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o índice de mortalidade também segue tendência decrescente, atingindo os menores níveis para a década. Em 2009, o índice de mortalidade era 5,8 por 100 mil habitantes. No ano passado, o índice foi 4,1.

“Essa redução se deu muito claramente pela testagem precoce e pela disponibilidade e a oferta contínua [de medicamentos] para todos os pacientes diagnosticados”, avaliou Arnaldo Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde.

A concentração de casos de Aids está entre jovens de 25 a 39 anos, sendo em números absolutos 492,8 mil pessoas infectadas nessa faixa etária. Desse total, 52,4% são do sexo masculino e 48,4%, do sexo feminino.

Governo federal contrata empresa para mapear influenciadores como detratores, neutros e favoráveis

 


Estão no levantamento jornalistas, pesquisadores e professores

Redação
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Foto: Reprodução/Twitter
Foto: Reprodução/Twitter

 

O governo federal contratou uma empresa de comunicação para realizar um mapeamento e orientar como o órgão deveria lidar com um grupo de 81 jornalistas e “outros formadores de opinião” considerados influenciadores nas redes sociais, segundo o colunista Rubens Valente, em publicação no Uol.

O relatório foi produzido no Excel e separou os “influenciadores” em três grupos: os “detratores”, os “neutros informativos” e os “favoráveis”.

Entre os supostos “detratores” estão jornalistas com milhares de seguidores, como Vera Magalhães, Guga Chacra, Xico Sá, Hildegard Angel, Cynara Menezes, Carol Pires, Claudio Dantas, Luis Nassif, Brunno Melo, Igor Natusch, George Marques, Palmério Dória, Flávio V. M. Costa, Rubens Valente, Márcia Denser, Rachel Sheherazade, Luís Augusto Simon, além dos professores universitários Silvio Almeida, Laura Carvalho, Jessé Souza, Claudio Ferraz, Sabrina Fernandes, Marco Antonio Villa, Conrado Hubner, Rodrigo Zeidan, entre outros.

No campo dos neutros estariam Alex Silva, Malu Gaspar, Altair Alves, Cristiana Lôbo, Monica Bergamo, Marcelo Lins, Ricardo Barboza e Octavio Guedes. Já os favoráveis são Roger Rocha Moreira, Milton Neves, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Winston Ling, Camila Abdo, Tomé Abduch, entre outros.

O correspondente da TV Globo, em Nova York, comentou o caso, após ver o seu nome na lista dos “detratores” do governo.

“Sou citado com destaque nesta lista de ‘jornalistas detratores’ elaborada pelo governo Bolsonaro. Lembra listas elaboradas por regimes da Alemanha Oriental, China e Arábia Saudita. Inacreditável que isso exista no Brasil em 2021”, publicou nas redes sociais.

A apresentadora do “Roda Viva”, da TV Cultura, e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, chamou o levantamento de “servicinho tosco”.

“Pra empresa-araponga, criticar fraude no cadastro do auxílio emergencial é ser detrator do ministro. Que servicinho tosco!”, escreveu.

Pesquisadores pedem recuo da flexibilização no Rio de Janeiro devido ao avanço do coronavírus

 


Grupo da UFRJ sugere medidas urgentes para conter número de casos

Agência Brasil
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Foto: Ascom Sesab
Foto: Ascom Sesab

 

O avanço da pandemia de coronavírus no Rio de Janeiro levou pesquisadores do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para o Enfrentamento da Covid-19, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a recomendarem medidas urgentes para conter o número de de casos, óbitos e internações verificado em novembro.

A ampliação do número de leitos e da testagem, o fechamento das praias, a suspensão de eventos e a limitação do horário de funcionamento dos estabelecimentos, com fiscalização rigorosa estão entre as orientações.

“No Brasil, assistimos ao aumento acelerado de casos, sem ter ocorrido o término da primeira onda. Os dados sugerem uma nova onda sobrepondo-se à primeira. Isso torna o problema mais grave e complexo. A população está há mais de oito meses com restrições de mobilidade. No entanto, muitos, especialmente os mais jovens, têm se aglomerado em festas, bares, praias e outros eventos sociais. O processo eleitoral, fundamental à democracia, também gerou aglomerações. Atualmente, a mobilidade no estado do Rio de Janeiro tende a se aproximar daquela de antes da decretação do isolamento social”, avalia nota técnica assinada pelo grupo.

Os especialistas ressaltam que declarações de autoridades afirmando que não haverá recuo na flexibilização agravam o problema.

Lockdown
As recomendações incluem a avaliação de um decreto de lockdown [confinamento rigoroso] caso o cenário epidemiológico da doença se mantenha ou se agrave. Os cientistas consideram que a situação do município do Rio é muito preocupante, já que há um aumento sustentado de casos desde 10 de outubro. O documento acrescenta que o número de testes positivos de covid-19 no Centro de Triagem e Diagnóstico (CTD) da UFRJ também cresceu de forma sustentada desde outubro.

“Como reflexo disso, existe grande sobrecarga nas emergências dos hospitais e das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). O risco de ocorrerem óbitos sem que o paciente seja internado é elevadíssimo. São dados extremamente preocupantes. Estamos evoluindo em curto período para o colapso da rede de assistência aos pacientes, especialmente os mais graves”, alerta o documento.

As recomendações relacionadas ao serviço de saúde são a abertura imediata de leitos hospitalares, a contratação de profissionais e a aquisição de equipamentos e insumos para esses leitos, a realização de testagem por RT-PCR de todos os casos suspeitos e o rastreio e isolamento de quem teve contato com os casos confirmados.

Os pesquisadores recomendam ainda o reforço das campanhas sobre as medidas preventivas e a ampliação da oferta de transporte público, que a nota técnica considera provável foco de disseminação do vírus.

Em relação às medidas de flexibilização, os especialistas consideram que é preciso fiscalizar rigorosamente estabelecimentos abertos e limitar seu horário de funcionamento, o fechamento das praias e a suspensão imediatas de eventos sociais, esportivos e culturais.

Procurada pela Agência Brasil, a Secretaria de Estado de Saúde respondeu que não há novas decisões tomadas a respeito do isolamento social. Já a Secretaria Municipal de Saúde respondeu que a prefeitura do Rio “permanece em atenção máxima, com monitoramento constante da evolução dos casos e do comportamento da doença na cidade e no mundo, para tomar as decisões”.

Está marcada para amanhã nova reunião do conselho científico da prefeitura, e novas medidas em relação à flexibilidade poderão ser tomadas, segundo a secretaria. Além disso, prefeitura e governo do estado tem negociado a ampliação de leitos nas unidades municipais.

“A Prefeitura do Rio foi o ente que mais abriu leitos para o combate à Covid-19 na rede SUS da capital e a única que mantém um hospital de campanha em funcionamento [no Riocentro] e uma unidade de referência [Hospital Ronaldo Gazzola]. Somente nas duas últimas semanas, foram abertos na rede municipal 37 novos leitos de UIT para Covid-19. Os hospitais da prefeitura têm hoje 918 leitos para tratar a doença, sendo 288 leitos de UTI”, diz a nota.

Sobre as estruturas para o diagnóstico da doença, a prefeitura afirmou que criou 11 centros de imagem com tomógrafos, que realizaram mais de 13 mil exames. “Além disso, mais de 230 mil exames – entre PCR e teste rápido – já foram feitos”.

Espera por leitos de UTI
A taxa de ocupação dos leitos de UTI de Covid-19 no Rio de Janeiro se mantém acima dos 90% apesar da abertura de novos leitos no fim de semana. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, 93% das vagas para pacientes graves estão ocupadas, com 548 pessoas internadas.

Na manhã de hoje, 259 pessoas esperavam para ser transferidos para leitos de Covid-19 na capital e na Baixada Fluminense. Entre elas, 164 precisavam de leitos de UTI. Segundo a secretaria, as pessoas que aguardam vagas de terapia intensiva estão sendo assistidas em leitos de unidades pré-hospitalares, com monitores e respiradores.

No estado do Rio de Janeiro, 341 suspeitos ou confirmados de coronavírus aguardam transferência para leitos de internação, sendo 119 para enfermaria e 222 para UTI, segundo a Secretaria de Estado de Saúde.

Na rede estadual de saúde, a taxa de ocupação das vagas para Covid-19 está em 70% em leitos de enfermaria e 81% em leitos de UTI.

Caio Zanardo é o novo diretor-presidente da Veracel

 


Atualmente diretor florestal na Suzano, executivo assumirá em 1º de fevereiro de 2021, em substituição a Andreas Birmoser

Redação
BAHIA.BA 
Foto: twitter  do executivo
Foto: twitter do executivo

Atualmente diretor florestal na Suzano, Caio Zanardo será o novo diretor-presidente da Veracel Celulose, sucedendo Andreas Birmoser. Zanardo assumirá o posto em 1º de fevereiro de 2021. Caio Zanardo trabalha entrou como trainee, 16 anos atrás. Já ocupou cargos na Votorantim, Fibria e agora na Suzano.

O novo diretor-presidente é graduado em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, em 2003, possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O processo de busca pelo novo diretor-presidente foi conduzido pelos representantes dos dois acionistas, a brasileira Suzano e a sueco-finlandesa Stora Enso. Cada sócia tem 50% das ações da empresa, fundada em 1991.

Empresários fazem greve de fome em protesto contra medidas restritivas em Portugal

 


Donos de bares e restaurantes estão se reúnem há cinco dias em frente ao Parlamento de Portugal, vivendo apenas de água, chá e café doados por apoiadores

Redação
BAHIA.BA 
Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)
Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)

 

Um grupo de nove proprietários de restaurantes, bares e casas noturnas estão em greve de fome em protesto contra as restrições impostas devido à Covid-19. Os empresários se reúnem há cinco dias em frente ao Parlamento de Portugal, vivendo apenas de água, chá e café doados por apoiadores.

De acordo com informações da Reuters e de O Globo, os manifestantes afirmaram que não vão comer até que sejam recebidos pelo primeiro-ministro e pelo ministro da Economia. Uma petição online do movimento por trás da greve tem ganhado força, com quase 45 mil assinaturas.

Devido à pandemia, bares e casas noturnas de Portugal estão fechados desde março. Os restaurantes foram autorizados a reabrir em maio, mas desde 8 de novembro grande parte do país está sob toque de recolher e isolamento nos finais de semana. Em compensação, o governo ofereceu aos restaurantes 20% de sua receita média entre janeiro e outubro. Os proprietários afirmam que o valor não é suficiente.

“Como podemos sustentar uma empresa que não está ganhando dinheiro, mas tem que pagar impostos, pagar luz, água?”, questionou o porta-voz do movimento José Gouveia.

De acordo com a Reuters e O Globo, o número de registros de desemprego aumentou 34,5% em outubro, em comparação a 2019.

Sistema de Saúde está duplamente pressionado e casos de covid avançam

 


A flexibilização das medidas de proteção contra o Coronavírus, aliada as ações em prol das eleições como carreatas e passeatas aceleraram os casos

Tribuna da Bahia, Salvador
01/12/2020 06:30 | Atualizado há 13 horas e 54 minutos

   
Foto: Romildo de Jesus / Tribuna da Bahia

Por: Cleusa Duarte


Desde 17 novembro mais de 1300 casos de covid 19 foram registrados na Bahia. Isso constata uma media alta com números, que remontam ao inicio da pandemia. A flexibilização das medidas de proteção contra o Coronavírus, aliada as ações em prol das eleições como carreatas e passeatas aceleraram os casos. A situação é de alerta geral e os órgãos públicos já estão remobilizando as Utis especialmente para a doença. De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (SESAB) o sistema esta duplamente pressionado.

Segundo o secretário de saúde da Bahia, Fábio Villas Boas, “ a situação já estava sendo visualizada há duas semanas. Está fora de controle em todo país. Carreatas e festas além de comemorações pré e pós eleitorais alavancaram o crescimento da doença . Temos aumentos sucessivos dos números de casos ativos, notificados, e de testagem realizadas pelo laboratório central do Estado o que significa, que pode ocorrer também elevação da taxa de mortalidade já nas próximas semanas. Para matar o vírus pode levar até um mês de internamento.”

Para Villas Boas, essa constatação “reforça o compromisso e responsabilidade dos gestores reeleitos e eleitos, em plena pandemia. Não acabou existe a retomada e elevação do número de casos em todas as regiões de forma mais grave que no começo da doença. Hoje estamos realizando em todo o Brasil cirurgias tradicionais, os acidentes com carros aumentaram, porque voltaram a rodar. O sistema hospitalar está duplamente pressionado. A volta a normalidade deixou o sistema mais pressionado, que no inicio do ano, quando os hospitais na capital e interior estavam preparados para atender maciçamente as UTIs Covid .”

A Assessoria de comunicação da SESAB pediu para que a imprensa reforce a importância de manter o distanciamento social, higiene frequente das mãos e uso de máscara.

As medidas que estão sendo tomadas para essa nova onda da doença pela Sesab são : a reabertura de leitos e qualificação da entrada dos pacientes em UTI. O sistema de testagens será reforçado e os testes com cotonetes, que o resultado sai na hora também vai ser solicitado ao governo federal. Aos chefes de Utis está sendo solicitado mais velocidade nas altas .

De acordo com a Sesab até o fechamento desta matéria, a taxa de crescimento no número de casos foi de +0,7% e de recuperados +0,5% (1.952). O boletim epidemiológico ainda contabiliza 20 óbitos que ocorreram em datas diferentes. O número total de mortes desde o início da pandemia é 8.247, o que representa uma letalidade de 2,05%.

Todas as cidades do estado registram casos da doença. A maior proporção ocorre em Salvador (24,66%). Os municípios com os maiores coeficientes de incidência por 100.000 habitantes foram Ibirataia (9.319,49), Itabuna (6.900,29), Aiquara (6.882,59), Madre de Deus (6.826,91), Almadina (6.789,90).

Dos 1855 leitos disponíveis do Sistema Único de Saúde (SUS), exclusivos para atender pacientes com o novo coronavírus na Bahia, 1031 estão com pacientes internados, o que representa uma taxa de ocupação de 56%. Dos 831 leitos de UTI (adulto) disponíveis no estado, 540 estão ocupados, o que corresponde a 65%.

Em Salvador, de acordo com a Sesab, dos 777 leitos ativos, 505 estão ocupados, o que corresponde a uma taxa de ocupação geral de 65%. Os leitos de UTI adulto estão com 61% de ocupação. Já o de UTI pediátrica, 67% de ocupação. Com relação aos leitos de enfermaria, a capital baiana tem taxa de ocupação de 70% (adulto) e 59% (pediátrico).

Para o especialista André Labreiro, “O salto está ocorrendo, porque, as pessoas vão a festas, encontros, jantares sem os devidos cuidados: usando máscaras e ficando a distância segura umas das outras. Caso o aumento se espalhe pela população menos favorecida, hospitais públicos podem enfrentar problemas mais sérios do que no auge da pandemia.”

Outro alerta do especialista é que “as medidas de prevenção são eficazes se associadas e realizadas por todos, portanto, tem que ser visto como um problema da comunidade. Uma pessoa no seu ambiente que não realize todas as medidas pode comprometer a segurança de todas as outras. As infecções continuam acontecendo, pois ainda existem muitas pessoas suscetíveis, somado ao fato que a imunidade pode ser transitória após a doença e ainda há a possibilidade de mutação viral.”

A prefeitura de Salvador está remobilizando leitos exclusivos para covid-19 e enviando para a Câmara um projeto de lei que permita a reativação dos leitos para que a taxa de ocupação máxima permaneça em 60%. A atual taxa é de 65%. As testagens para covid-19 voltaram a ser feitas nos bairros de Salvador, como estratégia de prevenção e controle da covid-19.

É preciso matar o homem branco?

 



Sob a capa de ativista antirracista, Mamadou Ba mais não é do que um agente político. A luta antirracista mais não é do que nova semântica, essencial para reforçar a “luta pela transformação social”. Rodrigo Adão da Fonseca para o Observador:


Nos últimos dias, o espaço mediático foi conquistado pela controversa discussão à volta das recentes afirmações de Mamadou Ba, autointitulado ativista antirracista, que numa conferência digital sobre o “racismo e avanço do discurso de ódio no mundo” transmitida no canal “Pensar Africanamente”, no YouTube, terá afirmado, de forma tida como bombástica, ser necessário, por uma questão de sobrevivência, e cita-se, “matar o homem branco”. Defendeu Mamadou Ba que para se “evitar a morte social do sujeito político negro” é necessário “matar”, não um homem branco qualquer, mas o “homem branco, assassino, colonial e racista”.

Rapidamente as redes sociais foram tomadas pelas habituais formas de luta fratricida, na sua formulação digital, tendo a batalha mais épica sido travada no Twitter entre os que questionaram o conteúdo eminentemente racista das afirmações, e os que vieram contextualizar o pensamento de Mamadou Ba como sendo meramente metafórico. Dentre as várias afirmações proferidas ganharam visibilidade as de André Azevedo Alves, questionando se [a]pelar publicamente à “morte do homem branco” conta como racismo e apelo ao genocídio”, e as inúmeras respostas que recebeu de toda uma psitacista esquerda unida, em Dolby Surround, justificando as intervenções de Mamadou Ba como tendo sido proferidas no contexto do pensamento de Frantz Fanon. Destaco, neste particular, as de Francisco Seixas da Costa que, com a habitual acutilância e assertividade que marcam o seu alter ego virtual, sentenciou: “Há limites para a estupidez e para a desonestidade: quem não leu Frantz Fanon e não sabe interpretá-lo, às tantas também deve achar que o conceito freudiano de “matar o pai” deve ser levado à letra. Estudassem!”, e as do Secretário de Estado da Energia, João Galamba, que numa manifestação visivelmente freudiana, carregada de quilowatts, desabafou: “Este senhor dá aulas a pessoas. Diz que é professor.

Ora, tendo-me eu interessado bastante ao longo dos anos pelo tema das relações entre racismo, desigualdade e democracia, e lido com atenção e sentido crítico a obra de Fanon e várias das suas expressões e adaptações, decidi trazer para esta coluna reflexões que não são viáveis nas limitações de carateres de uma rede social. Será a referência pública à “morte do homem branco”, no sentido que lhe dá Fanon, uma manifestação de racismo e um apelo ao genocídio, ou simplesmente a expressão deve ser lida no sentido “metafórico”? Qual o sentido e o alcance, em Fanon, da referência em questão? Será esta linha de pensamento a mais adequada para combater o racismo, ou será esta “luta” meramente instrumental, subordinada a uma ação política mais vasta? Será Fanon um pensador a quem valha a pena, hoje, creditar méritos, seja no plano das ideias, seja como expressão de pacifismo e símbolo antirracista?

A obra de Fanon flui entre o sociopolítico e o psicológico, sendo uma das expressões mais conhecidas da chamada “psicopolítica”. Nascido em 1925, é nos anos 50 que Fanon constrói uma narrativa de fusão entre as correntes dominantes da psicanálise de Freud, o existencialismo de Sartre, e o marxismo. Fanon escolhe para si uma politização explícita do psicológico, trazendo uma série de preocupações e conceitos ostensivamente psicológicos para dentro do registo do político. Fá-lo, aliás, de uma forma bastante criativa e até poética, tendo inspirado obras cinematográficas de inegável valia, como, entre outras, “La noire de“, do senegalês Ousmane Sembène (1966), por muitos considerado o pai do cinema francês, ou produções mais recentes, como o galardoado “Chameleon Street”, de Wendell B. Harris (1989), ou o interessantíssimo “Frantz Fanon: Black Skin, White Masks”, de Isaac Julien (1995). O pensamento de Fanon está intimamente ligado também à realidade lusófona, tendo inspirado o importante filme, “Sambizanga”, de Sarah Maldoror, mulher de Mário Pinto de Andrade (primeiro presidente do MPLA, afastado por Agostinho Neto), produzido em 1972, adaptação duma novela de José Luandino Vieira, A vida verdadeira de Domingos Xavier, que conta a história de Maria, uma mulher que de cadeia em cadeia procura o seu marido preso; ou a curta-metragem do brasileiro Aloysio Raulino, “O Tigre e a Gazela”, de 1976, disponível online no portal oficial do PortaCurtas.

Nas suas duas obras emblemáticas, Fanon procura perceber até que ponto a psicologia humana está intimamente ligada a forças sociopolíticas e históricas, construindo uma narrativa psicopolítica onde emprega conceitos e explicações psicológicas e psicanalíticas para descrever e ilustrar o funcionamento do poder, em particular, o colonial. Pode-se, assim, a meu ver, concluir sem dificuldade que no plano argumentativo não se apreendeu suficientemente a proposta de Fanon se não dermos espaço para perceber – e no meu caso, rebater – o político dentro do psicológico e o psicológico dentro do político.

Por partes: é a meu ver inegável a importância da obra “Peau noire, masques blancs”, (1952), como ensaio e proposta, sobretudo, como abordagem teórica para tentar identificar os problemas da identidade negra em contextos racistas e coloniais, bem como os vários complexos psicoexistenciais e os seus efeitos prejudiciais, não apenas nos sonhos dos negros, mas também na sua vida real. Não sendo a psiquiatria a minha área de estudo, consigo, ainda assim, perceber o interesse do apelo e da proposta feitas e aceitar sem dificuldade o impacto que a escravatura e a colonização poderão ter tido na construção do imaginário das pessoas de raça negra, e as implicações nos seus comportamentos. Fanon diz ter rastreado as implicações dessa resposta – do negro que deseja ser branco – nos domínios da linguagem, sexualidade, sonhos e comportamento, encontrando em cada instância a persistência desse desejo – a apropriação da língua e da cultura do branco, o desejo de um cônjuge ou parceiro sexual branco, o sonho de ficar branco. É esse conflito entre o desejo fundamental e a patologia que resulta da impossibilidade de o realizar, que forma o ponto focal da análise de Fanon, tão bem sintetizado no título “Pele Negra, Máscaras Brancas”. O sonho de ficar branco, como condição neurótica é, porém, apresentado já de uma forma mais figurada na obra “Os miseráveis da terra”, onde com mais detalhe e sentido político se discorre sobre a “condição nervosa” do status do nativo, os seus distúrbios de personalidade, e o conflito que se gera entre um impulso ou desejo poderosos e a necessidade de o reprimir. A “neurose da negritude” que Fanon nos apresenta é exatamente o “sonho de ficar branco”, isto é, o desejo de atingir o nível de humanidade concedido aos brancos em contextos racistas e coloniais, o qual, porém, acaba reprimido pela impossibilidade de alguém concretizar esse sonho, dentro de um corpo negro.

Sendo a construção apelativa, sobretudo no contexto dos anos 50 e 60, a primeira grande crítica que se pode fazer é que, ao contrário daquilo que é o domínio da medicina, que enquadra os traumas e as neuroses dentro dos limites da psicologia individual, a proposta de Fanon extrapola tais ideias para fazer delas fenómenos psicológicos explicitamente sociais, enraizados nos contextos históricos e políticos específicos da colonização, onde as desigualdades sociais e políticas estão na base do que poderia ser visto como um problema exclusivamente intrapsíquico. Fanon defende, aliás, a existência de uma neurose cultural, que visa manipular a dimensão inconsciente, assente numa constelação de postulados e proposições que lentamente e com a ajuda de livros, jornais, escolas e seus textos, anúncios, filmes, rádio, fazem o seu caminho dentro da mente, empurrando o símbolo do Mal para tudo o que é negro. Particularmente na Europa, “onde o negro [seria] o símbolo do mal”, onde “concreta ou simbolicamente, o homem negro [representaria] o lado mau do personagem”. O conceito de inconsciência coletiva seria assim a melhor forma de explicar como o racismo pode funcionar de forma herdada, compartilhada por todos os europeus ou brancos, consolidando-se num sistema político de representações que projetam os arquétipos dos valores mais baixos para serem representados pelo negro, assumindo a negritude a fórmula do mal.

Acresce que, como referi inicialmente, Fanon nunca quis limitar a sua análise a uma dimensão psicológica, sendo antes, esta, instrumental da sua proposta política. Fanon procura na psicanálise de Freud e nos seus pressupostos científicos a justificação e o caldo necessários para desenhar um negro oprimido, a expressão africana do proletário, que ajudaria a calibrar o historicismo marxista para o tornar pertinente na libertação colonial. Ora, é na fusão da análise psicológica com as grelhas do marxismo e do existencialismo, na politização explícita do psicológico, que radica o seu carácter violento. Violência esta que se procura legitimar na ideia de opressão cultural e racial. Como muito bem analisou o Rui Ramos aqui no Observador, o pensamento e a obra de Fanon “[justificaram] (…) as violências dos colonizados sobre os colonizadores”, nas guerras coloniais, mas também, digo eu, as ações criminosas de grupos como o Partido das Panteras Negras, nos EUA, não sendo por isso factualmente possível olhar para o seu legado ignorando o rastro de sangue e dor que objetivamente inspirou.

A recuperação da linguagem marxista assente no trauma e no conflito que Fanon corporiza, responsável pela morte de muitos brancos e negros, tem, porém, vindo a fazer o seu caminho nos últimos anos, sobretudo numa certa Academia e em partidos políticos de franja. O pensamento de Fanon faz, por exemplo, parte do cimento ideológico que suporta o Black Lives Matter e os mais recentes movimentos de resistência que trouxeram o caos às ruas do EUA, estando, assim, intimamente ligado a uma forma violenta, de rutura, de combate ao racismo. Mamadou Ba faz desde longa data parte dessa corrente. Sob a capa de ativista antirracista, Mamadou Ba mais não é do que um agente político. Como o próprio abertamente afirmou, a luta antirracista mais não é do que uma nova semântica, um novo sentido para o conceito de “classe”, essencial para reforçar a “luta pela transformação social (…)”. Mamadou Ba entende que é necessário convocar para o “combate (…) categorias como a raça, a orientação sexual e outras que tais” para assim se marcar a agenda política da esquerda. Estas categorias devem ser vistas como ferramentas operativas na luta pela “hegemonia cultural”, ocupando o espaço das “direitas e da social-democracia”. Importa apelar a estas “subjetividades para fazer política”, na linha dos “ensinamentos do Trotsky nos seus escritos (…), olhando para a forma como é ensinada a História e construída a cultura para poder convocar contracultura”, usando a “produção cultural como espaço de disputa pela hegemonia e [expressão] da forma como queremos construir a sociedade”.

É inegável que a raça é ainda um dos fatores de desigualdade. Estamos longe de ter construído em Portugal, mas também nas sociedades mais evoluídas, comunidades onde todos temos, à partida, condições para realizar os nossos sonhos de vida, sem arquétipos de cor. Mas é importante assinalar que o discurso de rutura que Mamadou Ba – e as extremas-esquerdas – querem recuperar, até hoje, apenas se interessa pela questão racial como forma de executar um programa de transformação social totalitário, que quer ser hegemónico, e que não nega, se necessário, o uso da força. A raça é para estas correntes políticas uma mera categoria subjetiva instrumental, uma projeção de um homem novo, inexistente, cuja ideia de base há muito devia estar – metaforicamente – enterrada.

Em sentido simétrico, infelizmente não falta à direita quem procure por estes dias recuperar a questão racial, étnica ou religiosa como forma de criação de estigmas e arquétipos de desvalorização coletiva, com fins meramente instrumentais e políticos, e que apenas ajudam a criar uma lógica dialética de extremos, com claro prejuízo para a afirmação de valores e direitos individuais.

A humanidade está a evoluir a passos largos para uma integração global, onde rapidamente as categorias raciais deixarão de fazer sentido. O homem branco, o homem negro, e todas as categorias que hoje conhecemos, irão morrer de morte natural, sem que tenhamos de os assassinar, física ou culturalmente. Um elevado grau de miscigenação é o corolário lógico de uma sociedade global, integrada e livre, onde todos temos os mesmos direitos e deveres. Ora, a única fórmula política universalmente testada que promove a mobilidade social e fomenta a liberdade chama-se acesso à educação, num ambiente de pluralismo e defesa dos valores individuais; sem tribalismos ou construções artificiais que reduzam a pessoa a uma categoria religiosa, racial, sexual, ou de género, enclausurando-as em narrativas vitimistas, capturáveis politicamente. Por isso, muitos dos que queremos combater o racismo, apenas exigimos mais e melhor Escola. Os únicos homens que temos de matar – e apenas na nossa psique – é esse Homem Novo, sonhado por tantos, e que apesar de permanentemente adiado, tanta dor continua a causar na projeção do seu desejo. E esse Homem Velho, rezingão e desconfiado, que ainda acha que há espaço no futuro para o estigma e a segregação.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Portugal: um país cada vez mais pobre e cada vez mais na cauda da Europa.

 


Post de João Cortez para o blog blog português O Insurgente:


As políticas socialistas têm-se revelado um grande sucesso, com Portugal a ficar cada vez mais na cauda da Europa (ler aqui e aqui). A OCDE publicou hoje as suas projecções de crescimento económico para os anos de 2020, 2021 e 2022, e sem surpresa, no conjunto dos 46 países analisados, Portugal é o país com o pior crescimento económico previsto para o conjunto dos três anos. É obra – muitos parabéns à geringonça e em particular ao António Costa.

De acordo com estas previsões, em 2022, o PIB de Portugal será 5,1% inferior ao PIB registado em 2019.



Insanidade é aplicar as mesmas políticas e esperar resultados diferentes. Não obstante, os portugueses parecem sofrer do Síndrome de Estocolomo – cada povo tem os governantes que merece.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Itabuna: 14.772 casos (+24) e 356 óbitos (+2) (dados Sesab) Ilhéus: 7.743 casos (+33) e 256 óbitos (+1) (Sesab)

 


Brasil: 6.386.787 casos (+50.909) e 173.817 óbitos (+697) (MS)

 


Jussarí e mais cinco municípios têm contas rejeitadas

 


Os conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios rejeitaram as contas do prefeito de Brejões, Alessandro Brandão Correia, relativas ao exercício de 2019. O prefeito, além de extrapolar o limite para gastos com pessoal, não aplicou o percentual mínimo exigido na manutenção e desenvolvimento do ensino municipal, nem pagou multas da sua responsabilidade. A decisão foi proferida na sessão desta terça-feira (01/12), realizada por meio eletrônico, quando outras cinco prefeituras também tiveram suas contas de 2019 rejeitadas. O conselheiro Fernando Vita, relator do parecer de Brejões, imputou ao prefeito multa no valor de R$64.800,00 – que corresponde a 30% dos seus subsídios anuais – pela não recondução dessas despesas ao limite previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. Foi aplicada ainda uma segunda multa, no valor de R$12 mil, pelas demais irregularidades apuradas pela equipe técnica. Os conselheiros aprovaram também a formulação de representação ao Ministério Público Estadual, para apuração de ato que pode configurar crime de improbidade administrativa. Para a maioria dos conselheiros presente à sessão, que aplicam a Instrução nº 03 no cálculo da despesa total com pessoal, os gastos da prefeitura alcançaram o montante de R$21.231.559,04, que correspondeu a 58,42% da receita corrente líquida do município, extrapolando, assim, o percentual de 54% previsto na LRF. Já os conselheiros Fernando Vita e Paolo Marconi – que não aplicam a instrução nos seus votos – entenderam que esse percentual foi ainda maior, 61,59%. Em relação as obrigações constitucionais, o prefeito aplicou apenas 21,64% dos recursos provenientes de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino, quando o mínimo exigido é 25%. Foram cumpridos, no entanto, os percentuais para investimentos nas ações e serviços públicos de saúde com 15,51%, quando o mínimo é 15% e no pagamento da remuneração dos profissionais do magistério, vez que foram utilizados 60,98%, superando o índice de 60%. Ainda sobre Educação, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB alcançado com relação aos anos iniciais do ensino fundamental (5° ano) foi de 5,20, superando a meta projetada de 4,70. Esse índice também foi superior ao IDEB do Estado da Bahia, que foi de 4,90, mas inferior ao do Brasil, que foi 5,70. Com relação aos anos finais do ensino fundamental (9° ano), o IDEB observado foi de 4,00, não atingindo a meta projetada de 4,90. Esse índice superou o IDEB do Estado da Bahia, que foi de 3,80, mas continuou inferior ao nacional, registrado em 4,60. O município apresentou no exercício uma receita arrecadada no montante de R$37.538.233,27 e promoveu despesas no valor total de R$39.463.853,30, o que revelou um déficit orçamentário de R$1.925.620,03, configurando o desequilíbrio das contas públicas. OUTRAS REJEIÇÕES - Na mesma sessão, as prefeituras de Canarana, da responsabilidade do prefeito Ezenivaldo Alves Dourado; de Gongogi, Edvaldo dos Santos; de São Felipe, Rozalio Souza da Hora (01/01 a 13/08) e Antônio Jorge Macedo da Silva (14/08 a 31/12); de Jussari, Antônio Carlos Bandeira Valete (foto); e de São Domingos, Izaque Rios da Costa Júnior tiveram suas contas de 2019 rejeitadas pelo TCM. Todos os gestores foram penalizados com multas proporcionais à gravidade das irregularidades praticadas. O prefeito de Canarana, Ezenivaldo Alves Dourado, também sofreu a determinação de representação ao Ministério Público Estadual, em razão do descumprimento dos percentuais mínimos de investimento nas áreas de Educação e na aplicação de recursos do Fundeb na remuneração dos profissionais do magistério. Cabe recurso das decisões.

As eleições municipais apontam o fim do ciclo paulista no Brasil

 



Os “do contra” sinalizam uma ruptura incondicional com essa ordem paulista do Brasil, vigente até 2018. Não necessariamente são bolsonaristas, mas são necessariamente antipetistas e desprezam os tucanos. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:


A redemocratização do Brasil trouxe a ascendência de São Paulo no cenário nacional. Sarney (MDB-MA) e Collor (PRN-AL) funcionaram como uma espécie de mandato tampão das oligarquias nordestinas. Um emedebista de Minas Gerais, surpreendentemente, causou o fim da hiperinflação ao colocar um sociólogo marxista na pasta da Economia, e o resto é história: de 1994 a 2014, as eleições presidenciais foram disputadas entre PT e PSDB, dois partidos nascidos no seio do departamento de sociologia da USP.

Nesse período, os atores mais constantes na vida nacional foram estes dois partidos, mais a dupla egressa do bipartidarismo da era militar: MDB (ou PMDB), antigo partido democrático de oposição, e DEM (ex-PFL, surgido da ARENA), antigo partido de situação. Esse bipartidarismo imposto de cima fez com que não fosse possível falar em partido paulista ou partido mineiro, como na República Velha. Ao cabo, DEM e MDB (usemos seus nomes atuais) acabaram por se identificar com cacicados locais. São partidos regionalistas, que costuram uma colcha de retalhos para entregar à Câmara e ao Senado. Em Brasília, os partidos paulistas tinham de se haver com essas bancadas entregues pelos cacicados locais.

Em 2018, a primazia paulista na eleição presidencial se esfacelou: o PSDB não só não foi ao segundo turno, como ficou em quarto lugar, com míseros 4% dos votos válidos. Logo à sua frente, estava uma liderança nordestina, Ciro Gomes (PDT-CE); e atrás, com 2,5% dos votos, o neófito Amoedo (NOVO). Em primeiro lugar ficou Jair Bolsonaro, político periférico do Rio de Janeiro, que concorreu com uma legenda de aluguel.

Em 2020, esse processo de despaulistização avança. Pela primeira vez na história desta democracia, nenhuma capital elegeu o PT. E o PSDB levou quatro, sendo apenas uma de um grande colégio eleitoral: São Paulo, sua casa. O PSDB perdeu Belo Horizonte para um outsider reeleito. Sobraram-lhe uma no Nordeste (Natal) e duas na Amazônia (Porto Velho e Palmas).

Principais partidos com identidade pelo país

Existem aqueles partidos amorfos ao qual se chama popularmente de Centrão. PP, Avante, Republicanos, Patriotas, PSL etc. Não os coloco na análise porque a filiação a esses partidos não é muito informativa; muitas vezes funcionam como legenda de aluguel para quem queria sair avulso como candidato. O MDB, embora seja um saco de gatos, tem história, e é reconhecível por sua organização regional.

Até aqui, listei quatro partidos importantes (DEM, MDB, PSDB, PT), e agora acrescento mais três partidos: PSB, PDT e PSOL. PSB e PDT são, hoje, partidos de oligarquias nordestinas: a do falecido Eduardo Campos, candidato à presidência em 2014 (substituído por Marina Silva), e a de Ciro Gomes. São o poder do Recife e de Sobral no mapa regional, e ganharam, somados, 4 capitais, todas no Nordeste. (Como o partido herdeiro do varguismo gaúcho se tornou o partido da oligarquia de Sobral é assunto para verdadeiros cientistas políticos.)

E o último é o PSOL, uma espécie de seção do PT voltada para o funcionalismo público — não é de admirar, portanto, que tenha despontado no começo entre cariocas e gaúchos, cidadãos assombrados pelo fantasma de Brizola. Este ano o PSOL ficou melhor do que o PT, porque levou uma capital (Belém), e levou Boulos ao segundo em São Paulo. Isso pode dar a impressão de que o PSOL está substituindo o PT, mas acho mais apropriado falar em uma fusão. Afinal, o PT deixou de lançar candidaturas próprias em algumas cidades para apoiar o PSOL. Este foi o caso de Belém, Manaus e Florianópolis.

As esquerdas no Brasil

Não existe nenhuma capital do Brasil em que o PT e o PSOL tenham disputado relamente votos. Há briga verdadeira entre PSB e PT (vide os primos no Recife), mas não entre PT e PSOL. Assim, prefiro dizer que em alguns estados o PSOL absorveu PT na capital. À exceção do Pará — onde, aliás, o PSOL ganhou —, isso só aconteceu do Sudeste para baixo: Minas, São Paulo e Santa Catarina. É de se presumir que o psolista Edmilson, ex-petista e político tradicional do Pará, não tenha adotado um discurso tão ideológico quanto o dos seus correligionários ao sul. O voto deve ter sido mais pessoal e menos partidário.

Deixando teoria política de lado, e adotando o vocabulário eleitoral brasileiro da década passada, podemos dizer que esquerda significa adesão ao lulismo. PT e PSOL são, no frigir dos ovos, a mesma coisa. Já os nordestinos só aderem depois de descobrir que não podem ganhar para o PT. Campos e Ciro são satélites por falta de opção; querem que o PT seja o seu satélite. Daí, brigam.

Há estados em que um dos dois partidos nordestinos foi a principal força política de esquerda da capital, desbancando os lulistas leais. São eles: Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Acre, Rio de Janeiro e Paraná. Só obtiveram vitória no Nordeste. (Repito: considero aqui os 7 partidos analisados. Houve lugares em que o Cidadania, ex-PPS, teve mais destaque, mas o Cidadania não é relevante, e não adere sempre a Lula.)

E há estados cujas capitais tiveram o PT como principal força política de esquerda, sem chance para oligarcas nordestinos esquerdistas: Amazonas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em todas, perdeu.

Por fim, há dois estados onde todas as forças de esquerda são pífias: Roraima (que tem a crise da Venezuela no nariz), Rondônia e Mato Grosso.

É digno de nota que no Rio de Janeiro, na Bahia e em Goiás os candidatos mais votados desses partidos de esquerda tinham o nome de urna com uma patente, ou seja, candidatavam-se como Delegada Fulana ou Major Sicrana. Isso é um marco daquilo que podemos caracterizar como candidaturas do contra. As lideranças locais sentiram o declínio do petismo, e mimetizaram os do contra.

Onde estão os do contra

Digo “do contra” apenas para sinalizar uma ruptura incondicional com essa ordem paulista do Brasil, vigente até 2018. Não necessariamente são bolsonaristas, mas são necessariamente antipetistas e desprezam os tucanos.

O único estado onde um do contra levou a capital foi o Espírito Santo. Lá se elegeu o Delegado Pazolini, de 38 anos de idade, que ingressou na vida pública em 2018, ano que foi marco da ruptura.

Por pouco, dois do contra não levam as capitais do Pará e do Ceará, estado sede do clã Ferreira Gomes. Em Belém, um completo neófito em legenda de aluguel, com zero experiência de vida pública, desbancou políticos tradicionais e quase ganha a prefeitura, que terminou elegendo um psolista. Terá sido a rejeição ao PT a causa de sair um candidato filiado ao PSOL? Sikêra Júnior, fenômeno de audiência sediado no estado vizinho, viajou para Belém na antevéspera da eleição, e estava em cruzada contra o partido da “lacração”. (Que a audiência de programa popular já conheça o termo, é coisa digna de nota). É sensato apontar um grande sentimento de ruptura no Pará, uma vez que por pouco não trocam um político conhecido por outro totalmente desconhecido, e que lá o PT nem saiu candidato.

Em Fortaleza, quase ganha do candidato de Ciro Gomes um do contra em legenda de aluguel. O Capitão Wagner ingressou na política em 2011 como policial amotinado (uma espécie de Cabo Daciolo sóbrio), mas nunca alçou voos altos. Desde 2018, cresceu na vida pública, e pela primeira vez ousou tentar a prefeitura.

No Recife, o sucesso da esquerda pode ser atribuído a Bolsonaro. Tradicionalmente, o ex-ministro da educação, Mendonça Filho (DEM), disputa com a prole de Arraes. Mas Bolsonaro fez campanha por uma delegada desconhecida que terminou em quarto lugar, com 14% dos votos válidos. Mendonça ficou com 25, apenas 2 atrás de Marília Arraes, e não pôde ir ao segundo turno. Que Bolsonaro tenha tanta força no Recife, é digno de nota.

O país

É verdade que os eleitores votam pensando em ônibus e IPTU, mas isso não significa que o desempenho dos partidos seja irrelevante para ver o cenário nacional. Afinal, as elites políticas conversam entre si, e escolhem ou criam partidos. Por que se filiar ao PT e não ao PSOL? Ao DEM e não ao MDB? As capitais são importantes para enxergarmos as escolhas partidárias feitas pelas elites.

No Nordeste, há três elites políticas tradicionais com notoriedade nacional: Ciro Gomes do Ceará, Arraes/Campos de Pernambuco e ACM da Bahia. Todos filhos e netos de políticos. O Nordeste não mudou. E o grosso da região (especialmente a Bahia) está sempre pronto para apoiar qualquer governante que se sedimente em Brasília. Essa foi a única região onde os estados todos votaram todos pela manutenção do status quo na eleição de 2018.

Na Amazônia, há uma confusão tremenda: legendas de aluguel vão parar no segundo turno. Há políticos tradicionais, mas nem sempre eles estão em legendas tradicionais. Os partidos do segundo turno nas capitais dos dois maiores estados da região foram PSOL, Patriotas, Avante e Podemos. Em 2018, os únicos estados que votaram pela manutenção do status quo foram o Pará e Tocantins. A capital de um elegeu a muito custo o PT disfarçado de PSOL, e a do outro foi uma das 4 capitais do PSDB.

No Centro-Oeste, o PSD (uma espécie de alternativa ao MDB criada por Kassab) levou Campo Grande e foi para o segundo turno em Goiânia. O MDB levou Goiânia e Cuiabá.

No Sul, sem grandes mudanças. A capital da Lava Jato elege fácil um político antipetista tradicional, os catarinenses nem têm a chance de votar oficialmente num petista (só no PSOL), e os gaúchos põem a lulista pra correr no segundo turno. O Sul parece continuar mais ou menos o mesmo.

No Sudeste, o Rio continua o mesmo, e São Paulo é um capítulo à parte. Olhemos para Minas Gerais: esse importante estado, que por tanto tempo aderiu à polarização paulista (vide Aécio e Pimentel), pôs já em 2016 na sua capital um outsider; em 2018, pôs no governo do estado uma zebra completa, e agora reafirma sua posição. O prefeito Kalil e o governador Zema têm em comum o fato de serem empresários populares, de serem outsiders, e de tentarem ter luz própria, em vez de se venderem como bolsonaristas. Será uma tendência a ser repetida nacionalmente?

Kalil ganhou pelo PHS em 2016, concorreu agora pelo PSD e ganhou no primeiro turno. Em segundo lugar ficou um bolsonarista com quase 10%. Os belo-horizontinos tiveram a chance de votar no primeiro ministro de Direitos Humanos indicado por Lula, responsável por uma Cartilha do Politicamente Correto. Ele ficou com 1,88%. O PSOL foi bem maior, e teve 8,33%.

Meu chute

Teríamos sido espertos se prestássemos atenção à capital de Minas Gerais em 2016: ela prenunciava ruptura. Minas é aquele estado que sempre vota no presidente eleito. É urbano e rural, é populoso e diverso.

Se Minas sinalizar o futuro do Brasil, então teremos uma eleição mais digital, mais pragmática, menos ideológica e mais pessoal. Com o WhatsApp se criou um novo estilo de campanha menos impessoal, mais formiguinha. De minha parte, acho um bom Brasil. Quem reagirá a ele? Toda aquela elite empresarial-amiga inflada por São Paulo — vide a herdeira da Andrade Gutiérrez financiando Boulos). Toda a imprensa tradicional que não consegue sobreviver na internet. O funcionalismo, classe inflada pelo PT.

A ver no que vai dar. De tédio, não morreremos.
 
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Toda mulher deve sentir aversão por homens que se declaram feministas

 



É mais honesto recorrer à velha canção do bandido do que à nova cantada do feminismo. A crônica de João Pereira Coutinho para a FSP:


Odiar os homens não tem nada de especial. Conhecendo a espécie, diria que é quase um milagre o fato de as mulheres se interessarem por nós. Mas Pauline Harmange vai mais longe: ela odeia os homens e declara isso no livro Moi les Hommes, Je les Déteste. Informa a Folha de S.Paulo que haverá edição brasileira no próximo ano, pela Record. Aplaudo.

Já escrevi sobre o fenômeno Harmange nesta coluna. Mas só recentemente li o livro, em edição inglesa, porque não consegui a edição francesa na altura da polêmica. Relembro: um assessor do governo de Emmanuel Macron ameaçou processar o selo Monstrograph por “apologia da misandria”. A editora, temerosa, não liberou reimpressões. O assessor em causa era um homem. Isso mostra como Pauline Harmange tem alguma razão para odiar quem odeia, embora eu talvez abrisse uma exceção para o cavalheiro em causa: graças à inteligência fulgurante do personagem, o manifesto virou best-seller internacional.

Mas Harmange tem razão noutras coisas. A primeira delas é a aversão que qualquer mulher deve sentir por homens que se declaram “feministas”. Ri alto quando li esse trecho. Conheço casos. Machos que usam o feminismo para sinalizarem a sua virtude – e, em certos casos, para poderem dormir com as mulheres. Nas palavras da autora, só canalhas como os homens seriam capazes de se apropriar de um termo que expressa a luta secular das mulheres por um mundo de igualdade e direitos. Da próxima vez que você, leitor, sentir a tentação de se declarar feminista, cale a boca. É mais honesto recorrer à velha canção do bandido do que à nova cantada do feminismo.

Por outro lado, são interessantes as reflexões de Harmange sobre a suposta equivalência entre “misoginia” (ódio às mulheres) e “misandria” (ódio aos homens). Serão a mesma coisa? Teoricamente, talvez. Mas Harmange argumenta que as consequências são distintas. A misandria não provoca vítimas. A misoginia tem um longo histórico de violência e morte. Concordo. E, sobre isso, acrescento: serei o único a sentir repulsa por “homens” que se sentem vulneráveis ou até vítimas do empoderamento feminino?

Nem todos somos como o patético assessor francês, no fim das contas. E é aqui que o manifesto de Harmange perde o seu fulgor: na ideia abstrusa de que a misoginia é um exclusivo dos homens. Ou, então, na afirmação pueril de que existe uma irmandade entre as mulheres. A história desmente essas fantasias: para cada feiticeira queimada, houve uma denunciante de feiticeiras. Para cada sufragista, uma antissufragista.

Anos atrás, lembro-me de ler uma história cultural da misoginia (Misogyny, do saudoso Jack Holland) na qual o autor lembrava os massacres de Ruanda. Para nos dizer que uma outra Pauline, no caso a ministra hutu Pauline Nyiramasuhuko, teve um papel crucial no genocídio das mulheres tutsis. Inversamente, como negar que existiram homens – do Iluminismo à emancipação política, sem esquecer a invenção da pílula – que estiveram do lado das mulheres? O corte radical com metade da espécie, mais do que ignorância, me parece erro estratégico para as etapas que faltam.

Por último, é estranho que uma feminista perspicaz como Harmange não repare no elefante que está no meio da sala: a misoginia, longe de ser uma afirmação de superioridade masculina, é o seu oposto – um produto do medo e da ansiedade dos homens face às mulheres. Nunca encontrei uma explicação satisfatória para esse medo e para essa ansiedade. Complexo de castração? Freud é um grande escritor, admito, mas mantenho o que disse Nabokov sobre ele: “É a aplicação de mitos gregos às partes íntimas”.

Prefiro os mitos gregos propriamente ditos. Como lembrava Jack Holland na referida história sobre a misoginia, o mito de Pandora é matricial nesse temor; as aventuras de Adão e Eva também. A mensagem é comum: cuidado com as mulheres, elas serão a perdição da humanidade! E por quê? Arrisco uma hipótese: porque, em ambos os casos, são as mulheres que exibem uma vontade de conhecimento e de liberdade que sempre assustou as almas medíocres. Mesmo que essa vontade seja o princípio, e não o fim, de toda a esperança.

“Eu detesto os homens”? O título é bom, madame Harmange, mas ficaria melhor com um ligeiro acerto: “Eu detesto os homens e algumas mulheres – mas é dos homens que sinto pena”.
 
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Os últimos, tristes e simbólicos momentos da vida de Maradona.

 



Mas a profusão de suspeitas de negligência em torno de sua morte acrescenta uma dimensão a mais na melancólica história de decadência. Vilma Gryzinski:


Nenhum ídolo morre de causas naturais na Argentina.

Aliás, em outros lugares do mundo, mortes repentinas de celebridades sempre são acompanhas de teorias conspiratórias.

Mas em nenhum outro país é tão poderosa a confluência de ídolos ceifados prematuramente, comoção nacional, funerais dramáticos, culto aos mortos e suspeitas que nunca se desfazem.

De Eva Perón, levada pelo câncer aos 33 anos e, depois de morta, transformada em objeto de tétricas disputas, a Alberto Nisman, o promotor que se suicidou ou foi suicidado, os mortos continuam a falar por muito tempo.

Com esse pano de fundo, Diego Maradona ainda terá muito a dizer.

O que já foi constatado sobre seus momentos finais é uma tristeza. O arco de patifarias vai desde as fotos que funcionários terceirizados da funerária tiraram ao lado do corpo até o descontrole que aconteceu durante o velório na Casa Rosada, com troca de acusações políticas entre o governo federal e a prefeitura de Buenos Aires, de oposição.

Sob sigilo, fontes do governo de Alberto Fernández queixaram-se que a culpa pelo tumulto foi da primeira mulher de Maradona, Claudia Villafañe, ao insistir que o corpo deveria ser enterrado na tarde seguinte à morte, sem tempo para que todos da multidão o vissem.

Culpar a viúva consegue inaugurar um capítulo novo na história das vilanias.

Piores são as dúvida que se acumulam sobre o tratamento médico, formando um quadro de suspeitas de negligência por ação ou omissão.

Maradona recebeu alta prematura do hospital onde fez cirurgia para um hematoma subdural? Não teve as intervenções médicas necessárias? Teve o atendimento devido da equipe de enfermagem domiciliar? Levou um tombo e bateu a cabeça do lado oposto ao da operação? Foi negligenciado em suas últimas horas de vida?

O jogador com certeza resistia aos tratamentos e controles obrigatórios depois da cirurgia

“Diego odiava os médicos, mas comigo era autêntico”, disse seu médico pessoal, Leopoldo Luque, que circulava na esfera dos amigos e dos “amigos” que cercavam o jogador, instigando-o a ceder aos muitos vícios que destruíram sua vida ou sem capacidade de se opor a eles.

“Ele tinha autonomia e decidia o tempo todo”, garantiu o médico, agora sob investigação por suspeita de homicídio culposo.

“Era muito difícil, me expulsou um monte de vezes de sua casa. Expulsava e depois chamava de volta.”

Como obrigar um paciente rebelde a receber tratamento? Luque diz que não tem as respostas.

“Eu pedia que se levantasse para receber as filhas, mas ele não queria receber as filhas”.

Outro amigo antigo disse que o entorno de Maradona, antes da operação, o estimulava a beber justamente para impedir os contatos – e a possível intervenção – das filhas mais velhas. Quando chegavam para visitar o pai, ele já estava desabado no quarto, com o celular desligado.

“Não restam dúvidas para elas de que o responsável pelos cuidados médicos era Leopoldo Luque”, contrapôs uma fonte ligada às filhas sobre o depoimento delas aos promotores que investigam o caso. Um detalhe que chamou a atenção: elas notaram que o pai estava muito inchado, “principalmente na barriga e nas pálpebras”.

As filhas assinaram a alta do pai, contrariando a recomendação da Clínica Olivos, onde ele fez a cirurgia neurológica. O hospital propunha internação em local especializado em tratamento para dependentes de álcool.

A relação com Dalma e Giannina, filhas do primeiro casamento, era tumultuada. Maradona chegou a gravar um vídeo anunciando que deserdaria as duas.

“Maradona não estava em condições de decidir. Estava há três dias trancado no quarto ”, garante Rodolfo Baqué, advogado da auxiliar de enfermagem Dahiana Madrid.

A auxiliar conseguiu apenas uma vez fazer controles mínimos como tirar a pressão e contar os batimentos cardíacos. Ou pelo menos é o que diz.

Segundo Dahiana, o cuidador do turno da noite chegou a registrar que Maradona estava com 115 batimentos por minuto.

“Todos sabemos que pacientes cardíacos não podem passar de 80”, disse o advogado dela. “O corpo de Maradona estava avisando que havia problemas com a frequência cardíaca e não foi ajudado nem sequer com os remédios que os pacientes cardíacos tomam para manter a frequência em 80”.

Dahiana já mudou seu depoimento, dizendo que ter registrado que havia tirado os parâmetros médicos habituais no dia da morte de Maradona, sem que na realidade tivesse conseguido acesso para fazê-lo, por sugestão de seu chefe no serviço de atendimento domiciliar.

Uma fonte ligada aos promotores do caso já antecipou: “Depois dos primeiros cinco dias de investigação, pelo que vimos a condução era absolutamente negligente. Era uma internação domiciliar totalmente deficiente. Um descontrole total e absoluto”.

É comum dizer sobre alguém que morre depois de uma trajetória de excessos que viveu a vida que quis, do jeito que quis.

Na verdade, os dependentes vivem a vida como as substâncias de seu vício querem. É uma trajetória destrutiva e cruel. Michael Jackson, Prince, Amy Winehouse, Whitney Houston, entre os mais famosos, são uma triste comprovação disso.

Ainda no hospital onde fez a cirurgia neurológica, o jogador perguntou o que fariam se fossem Maradona, segundo contou ao Infobae um integrante de seu círculo íntimo.

Um deles respondeu: “Não gostaria de ser Maradona nem por um minuto”.

“Viram só?”, respondeu ele. “Isso acontece comigo todos os dias”.

“Estou cansado, gostaria de tirar umas férias de ser Maradona”.
 
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O golpe de Alcolumbre

 



Não tem vírgula para controvérsia de reeleição de presidentes da Câmara e do Senado. Não pode. Carlos Andreazza para o jornal O Globo:


Está marcado para a próxima sexta, dia 4 de dezembro, o início do julgamento — no plenário virtual do Supremo — de uma ação por meio da qual o PTB questiona a constitucionalidade da reeleição (qualquer uma, mesmo aquela prevista na Constituição) de presidentes da Câmara e do Senado.

Não é banal que a coisa se dê no plenário virtual, em que os ministros somente depositam os votos. Sem enfrentamento de mérito. Sem debate. É o paraíso — a arena dos sonhos — para que se consolide o golpe, golpe contra a Constituição Federal, urdido, sem muita cerimônia, por Davi Alcolumbre.

Golpe que o sujeito costura desde meados de 2019, agora finalmente à custa de um Parlamento paralisado; que — sequestrado por disputas de poder antecipadas para muito além de qualquer padrão de irresponsabilidade da política brasileira — nem sequer consegue cuidar do Orçamento de 2021.

Para que fique claro: o Brasil não está parado, com uma pandemia a corroê-lo, em decorrência das eleições municipais. Isso é desculpa. E é mentira. O país está travado porque tem um governo incompetente, incapaz de propor agendas e formular políticas públicas; e porque o Congresso, até anteontem a engrenagem que fazia algo andar, foi contaminado pela endemia sucessória, agravada pelo vírus da incerteza. Terá ou não sucesso o golpe de Alcolumbre, de resto a mexer num xadrez de expectativas de poder ainda a ecoar longamente no Parlamento?

Obra do golpe de Alcolumbre. Golpe pelo direito de se reeleger à presidência do Senado numa mesma legislatura; contra o quê, sem margem para interpretação rebolativa, é expressa a Carta que se tenta violar. Está lá, no parágrafo 4º do artigo 57. Não pode. Não tem vírgula para controvérsia. Golpe.

Daí por que seja tão importante — para o êxito golpista — escapar da discussão de mérito. Porque isso equivaleria a escapar do que versa a Constituição. Porque bastaria que um ministro a abrisse, passando-lhe os olhos, para que tivéssemos um destaque e o caso, deixando a imobilidade muda do plenário virtual, fosse para a deliberação do colegiado. Ou seja: para que a tara de Alcolumbre fosse contida.

Mas não. O STF integra o jogo político; e isso significa atalhar a Lei Maior. Nesse caso, para fugir da apreciação do mérito. Não poderia ser diferente num tribunal cheio de agentes políticos. Que fazem cálculos típicos de um operador político. Logo, se os togados avaliam que o arranjo com Alcolumbre e Maia (que surfaria a onda para ser também beneficiado) serve bem ao equilíbrio da República, ambos se concertando — segundo consideram os supremos — para frear os ímpetos autocráticos de Jair Bolsonaro, por que não encontrar uma solução casuística, por que não erguer um puxadinho oportunista e fulanizado, que lhes permita continuar à frente das casas legislativas?

Contra o temor de um hipotético grande golpe bolsonarista, um golpe de verdade, um golpinho virtuoso, impingido via Senado e chancelado pela corte constitucional. Que tal? E como não projetar que o STF, deixando-se penetrar pelo que supõe jeitinho pontual e por boa causa, estará forjando as condições para o arrombamento de reeleições infinitas no Parlamento?

A estratégia golpista é engenhosa; e terá como fundamento — tudo assim indica — o Supremo liberando ao Congresso, como se matéria interna corporis, o condão de decidir sobre as eleições de suas mesas diretoras.

O STF lava as mãos, pautado pelos interesses da política. Adotará — ministros já vazaram a tática — a postura cínica, covarde, de alegar que a ação do PTB consistiria numa espécie de consulta prévia; a respeito, pois, de algo ainda não ocorrido, um caso hipotético, sendo impossível, por falta de concretude, tratar do mérito. Balela! Mas também puro adiamento; sendo questão de tempo até que se tenha de deparar com uma chuva de reclamações, quando o golpe já estiver aplicado, e o tribunal for obrigado a se lembrar da Constituição.

O STF lavará as mãos. Se entender — já entendeu, todos entendidos — que o assunto é de alçada do Parlamento, dirá que o desejo de Alcolumbre poderá prosperar driblando a única maneira republicana de postular o direito à reeleição numa mesma legislatura: uma emenda constitucional — para a qual seriam necessários três quintos do Congresso. Se decidir, portanto, que Alcolumbre pode chegar lá sem uma PEC, por meio de um golpe mesmo, dirá que lhe bastaria providenciar uma revisão do regimento interno do Senado; para o que precisaria de maioria simples entre os pares.

Ah, os pares... Alcolumbre os trata como bocós. Os senadores, contudo, não protestam. Talvez até gostem do balé desse golpe sui generis; dado que endossam a agenda personalista de um presidente do Senado que, para conseguir a prerrogativa de se reeleger, sumiu do Congresso, tirando o pé de qualquer bola dividida e abandonando a Casa ao apagão. Um presidente do Senado que, para não desagradar ao Supremo de que tanto depende, escondeu-se de ser presidente do Senado. Um presidente do Senado que abandonou a presidência que formalmente exerce para lutar, ao custo do Parlamento de hoje, por uma presidência futura.

Já ganhou.
 
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Origem laboratorial do Coronavírus ainda é uma hipótese a ser levada a sério

 



Se o atual coronavírus causador da pandemia escapou de um laboratório da China, não seria a primeira vez. Em 1977, um vírus H1N1 escapuliu de um laboratório chinês e causou uma pandemia global em menor escala. Artigo do biólogo geneticista Eli Vieira para a Gazeta do Povo:


Desde o começo da pandemia da COVID-19, a ditadura chinesa vem mentindo sobre a origem do vírus em peças de propaganda disfarçadas de jornalismo. Alegou que a origem foi a Itália, depois Índia, militares americanos e “vários continentes”. Censurou profissionais de saúde e jornalistas pioneiros em perceber o perigo do vírus. Também fez propaganda de seus esforços de contenção do vírus e gastou dinheiro em jornais ao redor do globo para tentar melhorar sua imagem. Segundo a Associated Press, o governo chinês desperdiçou oportunidades de conter a pandemia que assola o planeta.

O Partido Comunista Chinês, não eleito e herdeiro da mão genocida de Mao Tsé-tung é, portanto, no mínimo culpado de negligência. Oficiais chineses que promovem a pseudocientífica “medicina” tradicional chinesa chegaram a recomendar bile de urso como tratamento para a nova doença. Quase um milhão e meio de mortes até o momento são o resultado disso, além de outros erros locais ao redor do planeta.

A origem do vírus ainda é uma questão em aberto. Por isso, atrai não apenas as respostas propagandísticas do governo Xi Jinping, mas também aqueles que têm pressa de provar que os governantes chineses são culpados por muito mais do que o já mencionado: teriam criado o vírus propositalmente. Isso gera uma espiral de hipérbole, com pessoas também descartando essa hipótese com pressa, alegando se tratar de uma “teoria da conspiração”.

O fato de que há pessoas com paranoias não é prova de que conspirações não existem: a folha de pagamento secreta da Odebrecht e o escândalo Watergate ilustram perfeitamente que o mundo contém conspirações reais. Elas só são difíceis de provar.

Mas podemos reduzir nossas pretensões: em vez de perguntar se o vírus veio de uma conspiração, podemos fazer duas perguntas mais claras e diretas: (1) seria possível que o vírus estava sendo estudado em laboratório, e escapou por acidente? E, em separado: (2) seria possível que ele tenha sido modificado por cientistas de tal forma que, propositalmente ou não, facilitou seu parasitismo sobre células humanas? Saímos, assim, do campo da paranoia, e adentramos o campo das plausibilidades.

Um “consenso” científico apressado

A maioria dos cientistas não parece acreditar, no momento, que possamos responder afirmativamente a alguma das duas perguntas. Kristian G. Andersen, do Instituto de Pesquisa Scripps, Califórnia, publicou com colaboradores em março uma carta no respeitado periódico científico Nature Medicine na qual afirma categoricamente que suas análises “mostram claramente que [o coronavírus] não é um produto de laboratório ou um vírus manipulado de propósito”. O artigo já tem quase 2 mil citações por outras publicações acadêmicas no indexador do Google. Isso é suficiente para dizer não à pergunta 1 e à pergunta 2?

Ao menos dois cientistas pensam que não: Rossana Segreto, da Universidade de Innsbruck, na Áustria, e seu colaborador Yuri Deigin, da Youthereum Genetics Inc., no Canadá. Segreto e Deigin publicaram em 17 de novembro um artigo que responde a Andersen e outros. O novo artigo argumenta que a hipótese de o vírus ter surgido no mercado de frutos do mar de Huanan já está descartada, pois nenhum material genético intermediário entre o vírus da COVID-19, altamente adaptado às células humanas, e seus parentes mais próximos na natureza foi achado por lá.

Mudanças genéticas importantes aconteceram na evolução do coronavírus da pandemia, quando comparado aos vírus mais aparentados encontrados no pangolim e em morcegos. Segreto e Deigin citam as duas principais:

* Um local de corte (geneticistas dizem “sítio de clivagem”) de proteínas utilizado pela enzima humana furina. Muitas proteínas precisam ser cortadas pela furina neste local para se tornarem ativas no nosso organismo. Esse sítio de clivagem não ocorre nos parentes mais próximos do coronavírus.

* Um pedaço (geneticistas dizem “domínio”) da proteína spike da superfície do vírus que se liga a proteínas de superfície de células humanas. O processo de fusão da membrana de um vírus à membrana das células humanas, essencial para o sucesso do vírus, é mediado por proteínas que fazem um tipo de “aperto de mão” molecular. Esse domínio da proteína do coronavírus, chamado RBD, tem um aperto de mão especialmente convidativo.

Seria coincidência demais, argumentam os dois cientistas, que essas duas características importantes tenham surgido simultaneamente no coronavírus, sem intervenção humana, e sem deixar vírus intermediários pelo caminho.

Virologistas chineses se contradizem

As coincidências não param aí. O genoma parente mais próximo do vírus em morcegos é conhecido como RaTG13, coletado de uma caverna na província de Yunnan. Foi depositado em bancos de sequências de DNA e RNA em 2013, mas incompletamente, pelo mesmo grupo de cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan (cidade onde começou a pandemia na China), entre eles Peng Zhou, que publicou a sequência do vírus da COVID-19. Porém, havia uma outra sequência viral no banco de dados, que só mais tarde foi identificada como RaTG13.

A justificativa dos cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan é que terminaram de sequenciar após os surtos da pandemia. Porém, um deles, logo depois, mudou a versão e alegou que a sequência completa estava pronta desde 2018. Por que os virologistas chineses estão se contradizendo? A data de coleta da sequência incompleta, 2013, coincide com três mortes de mineiros que estavam limpando guano da caverna no ano anterior. Três sobreviveram. Tinham sintomas de infecção respiratória, e em seu sangue foram achados anticorpos contra SARS – porém, isso foi mais uma década após a SARS (conhecida como “gripe asiática” na época), e não foi na mesma região da China.

Reiterando: os cientistas de uma instituição de estudo de vírus sediada na cidade onde começou a COVID-19 estão se contradizendo sobre informações a respeito da coleta dos vírus mais aparentados ao da doença numa caverna em que trabalhadores morreram com sintomas similares aos da doença.

Vinte anos de quimeras coronavirais

A quimera é uma fera da mitologia que tem partes de diferentes animais em seu corpo. A genética tomou o mito emprestado para identificar quimerismos: casos de materiais genéticos que parecem quimeras. Há duas formas de quimeras genéticas surgirem: através de vírus que cortam, emendam e remendam pedaços de DNA e RNA, e através de experimentos em laboratório. O grupo dos coronavírus já era usado em experimentos de quimerismos nos últimos anos.

Havia já alertas dos riscos de uma dessas quimeras virais escapar de um laboratório e causar uma pandemia. Uma ONG chamada EcoHealth Alliance investia em experimentos desse tipo com o grupo dos coronavírus. Entre os beneficiários desta ONG está o Instituto de Virologia de Wuhan.

O quimerismo é feito com outros coronavírus há décadas. Em 1999, por exemplo, um grupo da Universidade de Utrecht criou uma quimera do coronavírus que infecta gatos com o coronavírus que infecta camundongos.

Em 2007, um grupo do Instituto de Virologia de Wuhan também fez uma quimera: seu “tronco” era de coronavírus de morcego, e a proteína spike era uma mistura de CoV de morcego com o vírus da SARS. O grupo conseguiu identificar exatamente qual parte da proteína spike poderia ser mudada para possibilitar a ligação do vírus à proteína de superfície de células humanas.

No ano seguinte, um grupo de cientistas da Universidade da Carolina do Norte fez algo similar. Em 2015, esses americanos e chineses uniram forças e publicaram o mais famoso artigo sobre como fazer vírus quiméricos: mais uma vez, utilizando vírus de animais selvagens e vírus da SARS.

Reiterando: 20 anos de pesquisas com quimerismo em coronavírus antecederam a pandemia de COVID-19, cujo vírus se parece bastante com um vírus originado em experimentos de quimerismo.

O diabo está nos detalhes moleculares

A citadíssima carta de Andersen e seus colaboradores especula que o vírus da COVID-19 não teria muita afinidade à proteína de superfície humana. Segreto e Deigin afirmam que o vírus tem mais afinidade à proteína humana que à de pangolins e morcegos.

Seria possível que o novo coronavírus da pandemia fosse uma quimera natural surgida de infecção simultânea nos pangolins, em que o RBD fosse adquirido de uma infecção de CoV de pangolim e o resto viesse de algo parecido com o RaTG13. Mas um desses vírus (RaTG13) não parece capaz de infectar pangolins. Além disso, a infecção de pangolins com outros coronavírus é baixa na natureza, e os pangolins são escassos, o que torna a infecção simultânea de uma célula deles extremamente improvável.

Quanto ao sítio de clivagem típico da furina: a presença dessa estrutura nas proteínas do vírus da COVID-19 é um dos elementos que permitem que ele penetre em órgãos atípicos para outros coronavírus, causando os sintomas sistêmicos dessa doença. Sem esse detalhe molecular, a pandemia não estaria acontecendo ou seria menos letal. O sítio da furina é essencial para a capacidade do vírus de infectar pulmões humanos.

Vamos para uma escala menor ainda: dois aminoácidos do tipo arginina desse sítio são suspeitosamente codificados de uma forma em que somente 5% das outras argininas do coronavírus pandêmico são codificadas no material genético do vírus. Essa pequeníssima região do genoma do vírus contém um conhecido alvo de corte de enzima de restrição. As enzimas de restrição eram as principais formas de fazer engenharia genética antes do surgimento recente da técnica CRISPR. Há seis desses alvos de corte no genoma do vírus da pandemia, e quatro em seu parente mais próximo conhecido, RaTG13 (dos morcegos), e somente dois no vírus do pangolim. Outra coincidência?

Para os interessados em mais desses detalhes moleculares, Segreto e Deigin oferecem refutações ponto a ponto dos argumentos de Andersen para afirmar categoricamente que o vírus da COVID-19 tem origem natural. Interessantemente, os virologistas de Wuhan alegam que sua amostra de RaTG13 foi esgotada, o que impede que seja investigada por examinadores externos. Além disso, em maio, suspeitíssimas mudanças foram feitas nos bancos de dados do instituto, por exemplo substituindo “morcegos e roedores” por “animais selvagens”. Mais estranhamente (ou não) 60 Megabytes do banco de dados do Instituto de Virologia de Wuhan sumiram de seu website.

Se o atual coronavírus causador da pandemia escapou de um laboratório da China, não seria a primeira vez. Em 1977, um vírus H1N1 escapuliu de um laboratório chinês e causou uma pandemia global em menor escala. Em novembro de 2019, mais de 100 estudantes e funcionários de dois centros de pesquisa de Lanzhou, no mesmo país, foram infectados com brucelose, também por causa de uma escapada do patógeno, que no caso é uma bactéria.

Conclusões

Rossana Segreto e Yuri Deigin trouxeram indícios bastante sugestivos de que a hipótese de origem artificial do coronavírus da COVID-19 e a hipótese de que tenha escapado de laboratório devem ser levadas a sério, não descartadas como ideias malucas que só ocorreriam a pessoas paranoicas ou a inimigos políticos da ditadura chinesa em busca de difamá-la.

A iniciativa dos dois cientistas deve ser louvada não só pela perícia com que foi feita, mas também pela coragem que é necessária em meio a uma profissão que estudos mostram que é dominada por mentes que simpatizam com a esquerda, que por sua vez simpatiza com a ditadura chinesa.

É um passo na direção de discutir a origem do vírus envolvendo todas as hipóteses plausíveis, não só as politicamente convenientes. Se um dia chegarmos a saber da origem do vírus, isso não devolverá a vida das vítimas da pandemia, nem provavelmente consolará suas famílias.

Algumas pessoas, no entanto, encontram algum tipo de conforto altivo no conhecimento. Um exemplo é Kim Goodsell, que sofre de uma doença genética incurável. Ela mesma descobriu qual mutação carrega, motivada por esse senso de querer saber mesmo quando não há uma promessa prática nisso. “Eu queria saber. Mesmo tendo um terrível prognóstico, o ato de saber aplaca a ansiedade. Há um senso de empoderamento.” Como Goodsell, ousemos saber.

*Eli Vieira é biólogo geneticista com pós-graduação pela UFRGS e pela Universidade de Cambridge, Reino Unido.