O município
já perdeu mais de 18% dos seus moradores, que foram embora para outras
cidades. Enquanto isso, a economia sofre um baque de 30%. Mais de 20
lojas já fecharam as portas.
Evasão,
comércio à beira da falência e uma população acuada. Esta é a atual
realidade de Buerarema, pequeno município a 20 quilômetros de Itabuna,
palco de violentos conflitos e protestos, fomentados pela "queda de
braço" entre fazendeiros e indígenas. Uma disputa, cujos bastidores
estão cheios de controvérsias, violência e dúvidas.
A crise começou
há aproximadamente oito anos e, desde então, a cidade parece estar
definhando dia após dia. Para se ter ideia desse colapso, vamos começar
pelo número de habitantes, que reduziu de 22 mil para 18 mil, uma evasão
de mais de 18%. E Brusque, em Santa Catarina, é o destino da maioria
deles. É lá que vivem cerca de 3 mil cidadãos de Buerarema.
Esses dados
foram passados por Alfredo Falcão, presidente da CDL (Câmara de
Dirigentes Lojistas) e vice-presidente da Associação de Produtores, em
entrevista concedida ao Diário Bahia, por telefone, na manhã de
quinta-feira, 20. "Se você pudesse vir aqui todos os sábados, veria o
tanto de famílias que saem daqui. Vão embora em busca de começar uma
nova vida", ressaltou.
Deixar a cidade
natal, que um dia (quem diria!) já foi pacata e muito conhecida por
fabricar a famosa "Farinha de Buerarema" nem sempre é uma tarefa fácil,
mas foi a "luz no fim do túnel", encontrada por muita gente. Afinal, o
comércio, antes pujante, está "caído", expressão usada por Alfredo, para
definir a dramática situação do setor.
Muitos
comerciantes não resistiram à crise e fecharam as portas. Os que ficaram
lutam para vencer o paradeiro, iminente quando se chega ao local.
Falcão não soube precisar o número, porém, acredita que mais de 20
estabelecimentos faliram. Entre os segmentos mais afetados, o de
confecções.
O baque na
economia foi comprovado numa recente pesquisa, feita há três meses, que
acusou, segundo Alfredo Falcão, uma queda de 30% na renda do município.
"Essa arrecadação vem de alguns convênios, outros recursos, mas não do
comércio", lamentou Falcão.
Quanto à
produção agrícola, responsável pelo abastecimento de alguns setores do
comércio, esta também caminha, a passos largos, para o esgotamento.
Sofreu uma redução, igualmente, de 30%.
E por falar em
produção, a farinha, outrora produto de exportação, agora mal dá para
abastecer o município, de acordo com Alfredo. Expulsos de suas fazendas,
muitos produtores estão comprando a matéria-prima, no caso a mandioca,
em outras cidades, como Senhor do Bonfim e Eunápolis. "São caminhões e
mais caminhões que descarregam aqui", reforçou.
"Sentindo na pele"
O produtor e
comerciante, José Pinheiro de Oliveira Júnior, sente na pele a
"convulsão" do comércio de Buerarema. Ele é dono de uma farmácia no
centro da cidade. Como fazendeiro, é testemunha e vítima dos estragos
provocados pelo "furacão" chamado "invasão de terras".
Ao Diário
Bahia, Pinheiro, como é mais conhecido, atesta o assustador índice de
desemprego na zona rural, que afetou, consequentemente, a cidade.
"Imagine 80 fazendas deixando de escoar as suas produções, como farinha,
cacau, verduras, frutas, etc., e, numa média, três funcionários direto
cada uma, representando um salário mínimo cada. Só aí já são 240
funcionários diretos, sem contar os contratados para a colheita do
cacau. Vamos fazer uma base de 400 a 500 ao todo. Multiplique por R$
724,00 e vai ter uma noção desse capital sem circular no município. Me
refiro só à mão-de-obra, sem contar com a produção que gera mais
empregos na cidade. Aí você faz uma multiplicação por aproximadamente
oito anos. Não há economia que sobreviva", calculou o comerciante.
Ele se queixa
que o setor farmacêutico é um dos que mais sofrem. Perguntamos o por
quê. E descobrimos, ou melhor, fomos lembrados: O município está sem
hospital desde 2010. "A farmácia depende muito de um hospital na ativa",
justificou. Com o fechamento do único hospital e as invasões, Pinheiro
computa uma queda de 40% em seu faturamento. "Isso me gerou dívidas,
títulos protestados, ações trabalhistas, salários atrasados, aluguel
atrasado", queixou-se.
Mesmo diante de
tudo isso, o comerciante-produtor não pensa em acompanhar os
conterrâneos na emigração. "Esse não é o meu plano. Eu não sabia que
podia operar milagres. Na minha formação profissional, fui capacitado
por uma multinacional em que tive a honra de trabalhar, para enfrentar
crises e recuperar empresas falidas. Portanto, passo por dificuldades,
mas o segredo é encará-las de frente, aceitar que está endividado e
negociar as dívidas em pequenas parcelas que possam ser encaixadas no
seu faturamento. Ou você é flexível ou baixa as portas", elaborou.
"Grito de socorro"

Depois de um
violento protesto, que resultou em depredações, interdição da BR-101 e
confronto entre manifestantes e policiais (com registro de feridos), até
o fechamento dessa matéria, o clima de Buerarema era, aparentemente,
tranquilo. Infelizmente, não se sabe por quanto tempo.
É que, segundo o
vice-presidente da Associação dos Produtores, a população está
revoltada com uma declaração feita pelo governador Jaques Wagner, esta
semana. Ele afirmou que a situação nas áreas de conflito – Buerarema,
Ilhéus e Una – só será resolvida quando houver a demarcação definitiva
das terras. E para isso tem que existir uma posição entre a Fundação
Nacional de Apoio ao Índio (Funai) e o governo federal.
"O governador
está colocando lenha na fogueira. Isso aqui (a cidade) está um barril de
pólvora. Esse grupo armado que tem atacado as fazendas não passa de 100
pessoas. E eles mandam um Exército com 600 homens. Ninguém é preso. Os
agricultores é que estão sendo vigiados, estão acuados", disparou
Alfredo Falcão.
Para ele, os
protestos que frequentemente se repetem são justos e a violência hoje
vista na disputa pelos 47 mil hectares de terras – parte reivindicada
pelos índios tupinambás – vem sendo anunciada há oito anos. "As
manifestações são um grito de socorro que estava engasgado e que
explodiu à custa de muito sofrimento, de mortes. Tem um produtor que
levou um tiro nas costas quando sua fazenda foi invadida e está
tetraplégico. Semana passada, Nilton Godoy, da Secretaria Geral da
Presidência da República, garantiu que todas as reintegrações seriam
cumpridas. Só foram realizadas oito e esta semana já suspenderam o
processo. Caminhamos um passo pra frente e outro pra trás", criticou.
O presidente da
CDL reforçou, ainda, que as três regiões afetadas pelo polêmico
processo de demarcação de terras são ocupadas por 22 mil pessoas. Nessas
áreas, existem 800 propriedades, das quais uma média de 100 foi tomada
pelos supostos índios. No entanto, para ele, Buerarema é a que mais
perde e sofre os reflexos desses conflitos. "Pois é aqui que muitos
deles moram. Temos sorte de Buerarema ter uma localização muito boa, à
beira da movimentada BR-101. É isso que ainda tem sustentado o
município", ressalvou.
Agora, só resta
esperar o desfecho dessa dramática "novela", cujos capítulos já têm
páginas manchadas de sangue e, num cenário marcado por destruições,
personagens reais que travam uma verdadeira batalha pela paz.
Fonte: Diario Bahia / VERDINHO DE ITABUNA
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