Com Ciro Nogueira na Casa Civil, somos obrigados a nos confrontar, mais uma vez, com a Realpolitik - a deusa das esperanças perdidas. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
O
famoso e infame senador Ciro Nogueira vai integrar o governo de Jair
Bolsonaro – aquele que se elegeu dizendo, entre outras coisas, que poria
fim à Velha Política. Eu sei. São os ossos da governabilidade. Mas não
deixa de ser desolador saber que, apesar de toda a retórica ousada &
corajosa da campanha de 2018, o Presidente da República continua refém
dessas forças do atraso que, neste caso, atendem pelo curioso nome de
Partido Progressista.
Dizem
(ah, o que seria dos cronistas sem o sujeito indeterminado?) que Jair
Bolsonaro mexeu assim as peças no tal do xadrez político porque é um
verdadeiro mestre na arte de fazer e acontecer, mesmo num ambiente de
franco antagonismo. Pode ser, mas tenho cá minhas dúvidas. Não quanto à
habilidade de Bolsonaro se manter no poder até 2022, que me parece
inegável. Minha dúvida tem a ver com a leitura que ele faz do próprio
papel no comando do país e na história.
Bolsonaro
se vê como um rei – menos pela forma de governar, uma vez que o
presidente tem os poderes limitados pelo Congresso e pelo STF, e mais
pela postura de enfrentamento da oposição. As motociatas, as lives, a
retórica direta e a própria forma de tratar os demais atores do jogo
político revelam um homem que se acredita com o poder de decisão.
Mas
a nomeação de Ciro Nogueira para o cargo de ministro-chefe da Casa
Civil (cargo já ocupado por José Dirceu e Gleisi Hoffman) talvez seja um
sinal de que Bolsonaro percebeu (tarde demais?) que, se pretende
continuar ocupando o Palácio do Planalto por no mínimo mais um ano e
meio, não poderá se contentar apenas em falar grosso com a imprensa, com
o TSE e com o Trio Parada Dura da CPI da Covid. Ele terá de se sujeitar
ao papel de peão nas mãos dos enxadristas do Centrão (ão, ão, ão).
"Peão de nove dedos"
Resta
saber como os apoiadores do presidente, tanto os que o idolatram quanto
os que o toleram e o veem como a única alternativa viável à volta do PT
(toc, toc, toc), encararão esses movimentos todos. A má vontade é
abundante e o benefício da dúvida, escasso. Não dá para esquecer, por
exemplo, que Jair Bolsonaro conta com o apoio significativo de uma
população que se vê como conservadora. A julgar pelos ventos que sopram
de Brasília, como esse eleitorado reagirá se Bolsonaro vier a se
candidatar à reeleição pelo Partido Progressista?
(É,
eu sei que de progressista o partido de Ciro Nogueira & Quadrilha
LTDA não tem nem um racialistazinho ou transinho para chamar de seu. Nas
mãos de um marqueteiro talentoso, contudo, o símbolo dessa associação
para lá de condenável é ouro. Ou melhor, voto).
A
nós, que ora somos espectadores desse jogo e ora somos o próprio
tabuleiro sobre o qual cavalos nos pisoteiam, resta a percepção algo
resignada de que os alicerces ideológicos do governo Bolsonaro são coisa
do passado. E pensar que há apenas dois anos falávamos em livrar o MEC
das garras dos pedagogos paulofreireanos, imaginávamos uma política
econômica verdadeiramente liberal, quando não ultraliberal, e sonhávamos
em extirpar das entranhas do Estado as ervas-daninhas comunistas.
Com
Ciro Nogueira na Casa Civil, somos obrigados a nos confrontar, mais uma
vez, com a Realpolitik - a deusa das esperanças perdidas. E a aceitar o
fato de que muitas vezes é necessário sacrificar uma torre, quando não
um bispo, a fim de não vermos o “peão de nove dedos” reentronado e
disposto a transformar o xadrez da vida num jogo modorrento, quando não
assassino, de peças todas vermelhas e tornadas iguais pela miséria.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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