Coluna de Carlos Brickmann, publicada no domingo, dia 11 de julho:
A
história do navio HMS Bounty, da Marinha Britânica, é fantástica: no
final do século 18, o famoso capitão William Bligh foi escalado para
buscar frutas exóticas do outro lado do mundo. Escolheu seus
subcomandantes, montou a tripulação, definiu o mapa da viagem. Mas a
missão que tinha tudo para dar certo não levara em conta a barbárie do
capitão. A qualquer falha, a pena mínima era de vinte chibatadas. O
clima a bordo foi piorando e, um dia, Bligh foi preso pelos
subcomandantes que tinha escolhido; e abandonado, com alguns de seus
mais notórios assessores, a bordo de um pequeno barco em alto mar. A
tripulação e os novos comandantes decidiram estabelecer-se em ilhas de
bom clima, moradores obedientes e vida tranquila. Mas, ferozes demais,
os sucessores de Bligh foram assassinados pelo povo bonzinho.
Bligh
conseguiu voltar à Inglaterra, onde foi submetido a Corte Marcial e
inocentado. E os amotinados? Não se constrói uma força armada como a
Marinha britânica aceitando a indisciplina. O Almirantado enviou o
Pandora para caçar os indisciplinados. Catorze foram capturados, quatro
morreram na viagem; a Corte Marcial (que em potências militares é coisa
séria) absolveu quatro, perdoou três e enforcou três. O pequeno grupo
que tinha se instalado nas ilhas Pitcairn acabou localizado, mas só um
militar rebelado ainda vivia. Este foi perdoado, pela idade.
Livros, eles não leem. Nem filmes ensinam como as coisas acontecem?
Olhando a vida
Há
mais de 60 anos, uma grande marcha se realizava em São Paulo – a Marcha
da Família com Deus pela Liberdade. Discutia-se na redação quantas
pessoas havia na rua. Os palpites variavam de mais ou menos ninguém – só
haveria ali patrões milionários e seus empregados – a milhões, que
aliás não caberiam no espaço. A resposta era simples: não importava
quantas pessoas ali houvesse, mas havia muita gente. Era, pois, uma
manifestação de peso. E deu certo: o presidente João Goulart, com
ministros militares, partidos em massa, grupos de milicianos armados, um
chefe da Casa Militar, militares em tudo quanto era empresa estatal
(“os marechais do povo”, chamavam-se na época), medalhas e condecorações
para manter uma boa metalúrgica em plena atividade.
Caiu
todo o castelo de cartas quando o general Mourão pôs sua tropa em
marcha. Os melhores amigos do presidente, como os melhores amigos do
comandante Bligh, colaboraram para depô-lo.
Era só observar a situação com frieza: quem brincava de princesa não viu que era fantasia.
Pesquisas, pesquisas
Neste
fim de semana o que não falta é pesquisa, todas indicando que o governo
perdeu sustentação. Os principais institutos de pesquisas do país
indicam que o presidente superou mais uma vez os níveis de rejeição e é
hoje rejeitado por mais da metade do eleitorado. Pode estar errado?
Pode. Mas há uma convergência rara no mundo das pesquisas. E, por favor,
antes que comece o mimimi sobre Bolsonaro ter ganho quando se apostava
que nenhum adversário perderia para ele no segundo turno, Truman venceu
as eleições de 1948 nos EUA contra as previsões, e os empresários do
mundo inteiro continuam gastando dinheiro em pesquisas para orientar
suas vendas.
Em
2018 tinha-se como certo que Bolsonaro era honestíssimo e lutava contra
uma máquina corrupta. Hoje, 63% de quem tomou conhecimento das notícias
da CPI da Covid acredita que há corrupção na compra de vacinas,
enquanto 26% as consideram “provavelmente falsas”.
E por que tanta gente leva a sério as denúncias? Por que o presidente se esquiva de respondê-las?
Coisas estranhas
Quem
acompanha a política sabe que o Centrão não se vende: aluga seus votos
caso a caso. Pois já tem gente do Centrão pulando fora do Governo. O
presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, político de rara
habilidade, vem batendo no Governo há semanas. E um indicado seu, para o
Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, acaba de ser demitido
pelo Governo.
Tem
mais: a ex-mulher do general Pazuello se oferece para depor à CPI
contra ele, a ex-cunhada do próprio Jair Bolsonaro diz que ele era
chegado a uma rachadinha e que chegou a demitir o irmão de sua então
esposa porque devolvia menos que o combinado. Luiz Miranda, que
denunciou a estranha compra da vacina indiana contra a Covid, é deputado
bolsonarista de raiz. Quando soube das coisas estranhas não abriu a
boca: foi ao presidente. E só se moveu quando viu que o presidente não
fez nada. O general Pazuello, da ativa, participou de atividade
partidária (e o vice, general Mourão, achou estranho). Não sofreu
punição, OK. Mas por que colocar o caso em segredo por cem anos? Que
será tão difícil de explicar para precisar desse tempo?
A posição faz o ladrão
E,
bem agora que a CNBB condena as manobras antidemocráticas, que tal ver
de onde surgiu a palavra “ladrão”? Está na Oração do Bom Ladrão, do
padre Vieira. Muito instrutivo. Em https://go.shr.lc/3e2PpRD
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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