Ou você concorda comigo, ou você é um grande ignorante preconceituoso. Theodore Dalrymple para a revista Oeste:
Sempre
dizem que não devemos julgar pelas aparências, mas com muita frequência
não temos muitas outras opções. Um homem que nunca julgou pela
aparência não sobreviveria muito tempo neste mundo perverso: ele ficaria
tão vulnerável quanto um caranguejo-eremita sem sua concha.
Por
outro lado, as aparências em geral enganam. Por isso, devemos sempre
ter em mente duas coisas que não são estritamente contraditórias, mas
muitas pessoas têm dificuldade de levar consigo ao mesmo tempo:
precisamos julgar pelas aparências, mas estar preparados para mudar de
ideia se isso se mostrar um erro.
Por
exemplo, se eu lhe mostrasse fotos do finado Herbert Marcuse, você
poderia pensar, pela expressão de contentamento dele ao baforar seu
charuto, por seu modo de se vestir, e assim por diante, que se tratava
de um próspero dono de embarcação de Hamburgo nas férias de verão. Nada
disso: ele era um professor de filosofia marxista com um toque de
freudianismo, cujas ideias inflamaram uma geração de estudantes
norte-americanos e europeus totalmente mimados que confundiam suas
frustrações pessoais com injustiças sociais.
As
ideias de Marcuse eram tão bobas que teriam sido engraçadas se ninguém
as tivesse levado a sério. Apesar de ele estar quase esquecido hoje em
dia, uma de suas ideias mais tolas e perniciosas, a da tolerância
repressiva, está voltando, se não na teoria, na prática. De acordo com
esse conceito, a repressão praticada pelos conservadores é intolerável,
mas a repressão praticada pela esquerda é na verdade uma forma de
libertação, e não representa repressão nenhuma. (É incrível a frequência
com que a palavra liberação é usada por teóricos radicais sem
especificar exatamente do que as pessoas são liberadas. Aliás, a
expressão liberação total não é nada incomum.
Enquanto
escrevo este texto no terraço do meu jardim na França, desejo
ardentemente ser liberado das moscas, que estão bastante numerosas e
irritantes este ano. Também quero ser liberado do Imposto sobre Valor
Agregado e da necessidade de consertar meu carro. Na verdade, até
amarrar os cadarços de manhã é uma obrigação; o literato anglo-americano
Logan Pearsall Smith afirmou ter conhecido um homem que cometeu
suicídio porque não suportava ter de amarrar seus cadarços milhares de
vezes mais antes de morrer. Supondo que essa tarefa leve trinta
segundos, e que o homem teria vivido mais quarenta anos se não tivesse
se matado, ele teria gastado 120 horas, cinco dias inteiros sem dormir,
sem fazer nada além de amarrar cadarços, ou dez dias com tempo para
dormir, tomar banho, comer etc. A futilidade de uma existência em que
amarrar cadarços de sapato requer tanto tempo o oprimiu; naqueles
tempos, não havia sapatos sem cadarço que pudessem ser uma alternativa
viável ao suicídio.)
Mas
vamos voltar a Marcuse e à sua tolerância repressiva. Nunca pareceu a
esse professor, que deu aula nas melhores universidades dos Estados
Unidos, que quase todo mundo tolera aquilo com que ele concorda, exceto
os ditadores mais loucos, para quem até mesmo a concordância parece uma
espécie de lèse-majesté, implicando, como tal, a possibilidade de que se
pense por conta própria. Tampouco a tolerância significa a aprovação
daquilo que é tolerado; ou seja, na verdade, ela é a aceitação e a
manutenção dos limites de comportamento da discordância ou da antipatia
em relação às opiniões e aos gostos de outros. O tolerante não é aquele
que não tem nenhuma desaprovação, mas aquele que se controla diante
daquilo de que não gosta. Isso é tão perfeitamente óbvio e banal que são
necessários muitos anos de formação e ensino superior para não
perceber.
Nos
Estados Unidos e cada vez mais na Europa, que acompanha os Estados
Unidos nessas questões como um cachorro bem adestrado, está cada vez
mais na moda negar-se a ouvir aqueles de quem se discorda, exatamente em
nome da verdadeira tolerância. Ou você concorda comigo, ou você é um
grande ignorante preconceituoso, e não quero que a ignorância
preconceituosa seja ouvida porque isso espalha a intolerância. (Claro,
os verdadeiros preconceituosos são as pessoas que discordam de mim.)
Marcuse teria ficado encantado com esse desdobramento, se tivesse vivido
para vê-lo.
Não
faz muito tempo, fui convidado para participar de um debate na Oxford
Union Society. A moção a ser debatida era que os conservadores não
podiam representar as questões dos trabalhadores. Não me pareceu uma
moção muito bem estruturada, porque ela suscitava muitas questões. Quem,
por exemplo, pode decidir quais são de fato os interesses da classe
trabalhadora, mesmo supondo que a classe pudesse ser claramente
demarcada e tivesse interesses totalmente uniformes, sem nenhum conflito
seccional? A propósito da história eleitoral, os conservadores muitas
vezes representaram a classe trabalhadora, de modo que qualquer um que
afirme que os conservadores não poderiam representar os interesses da
classe trabalhadora também teria de afirmar que a classe trabalhadora
não sabe ou não entende quais são seus interesses. É um argumento
possível, mas corria o risco de transformar o debate em uma disputa
sobre definições.
No entanto, concordei em participar. Acredito que seja obrigação de pessoas mais velhas atender os estudantes o máximo possível.
Algumas
semanas depois, porém, recebi uma carta da pessoa que havia me
convidado, para me dizer que o convite havia sido desfeito. Em uma carta
escrita em um inglês tão abominável que teria envergonhado um estudante
evadido setenta anos atrás (sinto muito pelos meus tradutores e peço
desculpas de antemão, uma vez que é muito mais difícil traduzir prosa
ruim do que boa), ela escreveu:
Precisamos
garantir que haja bom equilíbrio de opiniões e experiências na
escalação para garantir o tipo de debate robusto e provocador pelo qual
somos conhecidos.
Em outras palavras, não queremos que ninguém ouça o tipo de coisa que você provavelmente vai dizer.
Não
sou um extremista e costumo ser educado. Sou apaziguador, e não
agressivo, em pessoa, se não sempre por escrito. Mas ficou claro que, ao
contrário de muitas pessoas que conheço, sou repressivamente tolerante
demais para ser tolerável. Como Marcuse afirmou, a tolerância na verdade
é intolerância; como disse Orwell (em 1984), a liberdade é escravidão, e
ignorância é força. Mas Marcuse estava falando sério.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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