O tom do texto das Forças Armadas é desnecessário e imprudente. Não importa qual a nossa opinião acerca da figura de Aziz, ou mesmo acerca da procedência das acusações contra militares discutidas no âmbito da CPI. Lucas Berlanza para o Instituto Liberal:
Tenho
sustentado que a ênfase de muitos liberais na discussão econômica,
necessária em um país com um Estado tão intrusivo e com tantos óbices à
liberdade de mercado, não implica necessariamente, ao contrário do que
alguns críticos procuram fazer crer, a negação de outros aspectos do
liberalismo. Deve-se, na maioria das vezes, a uma questão de formação
pessoal.
É
natural esperar que economistas liberais formados na Universidade de
Chicago se refiram mais à pauta econômica que a uma discussão sobre a
dinâmica e os limites das instituições políticas. Isso não os torna
amantes da ditadura. Ademais, figuras como o professor Og Leme, um dos
fundadores do Instituto Liberal, representante das fileiras
“chicaguistas”, defendem abertamente a importância nuclear do Estado de
Direito para o pensamento liberal.
No
entanto, reconheço que existem mesmo algumas figuras para quem temas –
inquestionavelmente essenciais – como a reforma da previdência, a
reforma tributária ou as privatizações parecem significar tudo que há a
ser levado em consideração em uma abordagem liberal, rejeitando
quaisquer ponderações sobre outras questões mais ligadas ao âmbito das
instituições políticas. A existência desse discurso deve ser evidenciada
e ele deve ser criticado, a fim de que não se dê razão às
generalizações obtusas dos críticos.
Quando,
por exemplo, contestei a postura do ex-ministro Eduardo Pazuello,
general de divisão do Exército brasileiro, de comparecer a uma
manifestação claramente político-ideológica sem autorização superior,
postura que considero inadequada aos ditames que regem as Forças
Armadas, houve quem bradasse que o tópico era irrelevante. Deveríamos,
disseram eles, estar mais preocupados com outras questões.
Absolutamente.
Não é irrelevante. A História brasileira o prova. A República sobreveio
com um golpe militar, resultante das Questões Militares do final do
Império, em que os militares passaram a adentrar discussões em que não
deveriam estar inseridos, portando-se como autênticos militantes
políticos. Todas as peripécias das décadas subsequentes orbitaram o
problema de suas intromissões na política e da falta de clareza nas
fronteiras entre suas funções e a necessária busca pelo império da lei. O
golpe de 64, muitos se esquecem disso, teve por estopim a baderna de
militares amotinados, subversivos, alinhados à esquerda brizolista,
rompendo a hierarquia das Armas, o que materializou uma ação contrária.
Toda
questão que de alguma maneira suscite questionamentos quanto às
fronteiras entre o militarismo e a política deve ser tratada, em países
como o Brasil, como um tema sensível, especialmente aos liberais. Eis
porque recebo com desagrado a mais recente nota emitida pelas Forças
Armadas em conjunto como reação às declarações de um parlamentar durante
a turbulenta CPI da Covid-19.
O
senador Omar Aziz (PSD-AM) havia disparado que “os bons das Forças
Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje
estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil
não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com
falcatrua dentro do governo”. O motivo era o envolvimento de militares
nas denúncias discutidas na dita CPI, muito em consequência,
precisamente, do fato de que eles estão demasiado envolvidos nas
questões políticas na gestão Bolsonaro – o que, penso, teria sido mais
sábio evitar.
Em
nota conjunta, assinada pelo Ministério da Defesa e os comandantes das
três Forças, lê-se que as Forças “repudiam veementemente as declarações
(de Aziz) (…), desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas
de corrupção.” O texto conclui afirmando: “As Forças Armadas não
aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a
democracia e a liberdade do povo brasileiro”.
O
tom do texto das Forças Armadas é desnecessário e imprudente. Não
importa qual a nossa opinião acerca da figura de Aziz, ou mesmo acerca
da procedência das acusações contra militares discutidas no âmbito da
CPI; é lógico que não houve generalização alguma em suas palavras. O
próprio senador estabelece uma divisão entre “bons das Forças Armadas” e
“lado podre”; ora, isso é o exato oposto de uma generalização. Mesmo em
se tratando das Forças Armadas, que estão entre as instituições mais
respeitadas em nosso país, a crítica a figuras que presentemente as
ocupam não pode ser confundida com um aviltamento generalizado aos meios
militares, que mereça uma resposta institucional das Forças como um
todo.
Pensássemos
assim e todas as críticas que fazemos a ministros do Supremo Tribunal
Federal teriam que ser entendidas como ofensas à instituição STF como um
todo, como que a contestar sua procedência e existência, o que não é o
caso. O resultado de uma nota como essa assinada pelas Forças Armadas é,
no máximo, trazê-las inútil e perniciosamente para a arena do
enfrentamento político, que não lhes diz respeito. Expressões vagas como
“não aceitarão” conferem uma atmosfera de intimidação ao texto que
deveria ser dispensada, em respeito às turbulências de nosso passado não
tão distante. Não vale a pena, qualquer que seja a consideração que se
faça, que as Forças Armadas se permitam avançar em tal senda. Não vale a
pena e não é seguro – e esse é, sim, um tema que pertence às
preocupações prementes do liberalismo, qualquer que seja o governo em
vigência.
Da
mesma forma, por outro lado, entre os que, no cenário contemporâneo,
condenam os liberais “chicaguistas” ou austríacos por supostamente se
preocuparem apenas com economia, muitos há que acreditam que, dadas as
circunstâncias, é preciso colocar o lulopetismo novamente no poder. Para
piorar, fazem-no em nome do liberalismo (!), porque alegam que essa
opção seria menos danosa às instituições liberais-democráticas.
Ora,
a preocupação dessas pessoas com as instituições liberais é falsa.
Fossem sinceras, teriam atentado, sem precisar exercitar demais suas
curtas memórias, para a entrevista que o ex-presidente Lula, desejoso de
retomar o Planalto em 2022, concedeu à emissora chinesa Guancha nesta
quinta-feira (8). Lula disse que os americanos interferiram na justiça
brasileira para garantir a sua condenação. A motivação para isso seria o
fato de que o PT estava construindo um “protagonismo internacional”
para o Brasil. “Os americanos não aceitam em hipótese alguma que na
América do Sul algum país tenha protagonismo” e os EUA “têm medo de
perder a primazia de xerife do mundo”, ele acusou.
Gostaria
de ver os mesmos que acertadamente criticam declarações estouvadas e
inábeis em relação aos chineses repudiando essas insinuações e essa
falta de respeito estúpida com os nossos parceiros democráticos da
América do Norte – mas estou certo de que esperarei sentado. O pior,
porém, é que Lula ainda enalteceu o “poder” e o “Estado forte” sob
comando do Partido Comunista Chinês como algo a ser admirado. Para o
petista, a ditadura chinesa é mais interessante do que a democracia no
Brasil, onde foi possível instalar o “golpe” que depôs Dilma Rousseff.
Manifestações
populares, ritos processuais estabelecidos pela Constituição e a lei
contra governos danosos, possibilidade de contestação das autoridades –
são esses pilares que estão em jogo aqui. Fica comprovado que não há
verdadeiro compromisso de Lula com nenhum deles. O problema do
lulopetismo – o mesmo que apoiou todos os tipos de tiranias mundo afora,
“patrocinou” o bolivarianismo e defendeu regulação da mídia -,
igualmente, portanto, não se limita à questão econômica. Ao contrário,
esta chega a ser algo acessória diante de declarações como a que acabo
de reproduzir.
A
moral da história: é dever de quem pretenda enraizar uma corrente de
opinião liberal no Brasil o esforço pela coerência e por compreender o
liberalismo em sua completude. Nem o alheamento de temas importantes por
casuísmo governista ou economicismo insosso, nem a adoção de retóricas
hipócritas por vale-tudo oposicionista; apenas liberalismo. Eis tudo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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