Protestos, saques e mais de 70 mortos, muitos pisoteados pelas multidões em fúria, cercam a prisão do notoriamente desonesto Jacob Zuma. Vilma Gryzinski:
Desde
que se livrou, pacificamente, da praga do racismo institucionalizado no
sistema que ficou conhecido como apartheid, a África do Sul oscila
entre dois extremos: ser um país bem sucedido, com instituições que
funcionam, economia próspera e a peculiaridade da convivência entre
negros e brancos, ou cair no pesadelo do tribalismo, da corrupção
desenfreada e da violência extrema que tantos males causam em outros
países do continente africano.
No
momento, a segunda opção está pesando mais. A atual explosão de
protestos e violência tem um tanto de conotação étnica e muito de
inconformismo com decisões judiciais.
No
centro de tudo está o ex-presidente Jacob Zuma, um veterano político de
79 anos – dos quais dez em cana com o venerado Nelson Mandela, medalha
de honra que usou durante muito tempo para justificar a transformação de
combatente contra o apartheid em aproveitador das benesses do poder.
Não
foi o único, mas poucos têm seu apelo popular e seu currículo de
populista escolado, capaz de prometer o paraíso para a população mais
pobre via expropriação das propriedades dos sul-africanos brancos que
continuam a fazer da África do Sul uma experiência única.
Zuma
tem a capacidade habitual dos populistas de se passar por defensor do
povo mesmo quando defende acima de tudo os próprios interesses. Até
quando foi julgado por estupro – e absolvido -, conseguiu despertar
manifestações de simpatia. Durante o julgamento, disse que teve sexo
consensual com sua acusadora, mas tomou um banho depois para se
“prevenir” da Aids – ele sabia que ela tinha o vírus.
Com
seis esposas no currículo, quase todas simultaneamente, ele usa também a
poligamia para aumentar a popularidade entre seu grupo étnico, os
zulus, o maior da África do Sul. A maioria dos protestos atuais é nas
regiões de maior concentração de zulus.
Conhecido
pelas iniciais JZ – como o marido de Beyoncé -, ele foi presidente de
2010 a 2018, quando seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano, o
forçou a renunciar por causa da enxurrada de casos de corrupção, muitos
ligados a negócios com a família Gupta, milionários de origem indiana
que acabaram deixando o país quando Zuma perdeu o poder.
Depois
da renúncia, o parlamento elegeu Cyril Ramaphosa, que não é exatamente
acima de qualquer suspeita, mas como um dos homens mais ricos da África
do Sul parece saber melhor como evitar armadilhas.
Sem
a força do voto popular, Ramaphosa também enfrenta o desgaste do
exercício do poder, de uma economia que gera mais de 30% de
desempregados e dos efeitos da pandemia.
Zuma
foi condenado a um ano e três meses de prisão por se recusar a
comparecer diante do tribunal onde corre um de seus casos de corrupção.
Está apelando ao Supremo Tribunal, mas as chances são consideradas
poucas.
Com
vinte filhos, no mínimo, Zuma tem um clã poderoso. Uma de suas filhas,
Duduzile, dispara tuítes contra Ramaphosa e conclama os seguidores do
pai a “tocar fogo”. A narrativa subjacente é formidavelmente cínica.
Zuma, segundo ela, é vítima dos brancos ricos e dos “traidores” negros
alojados no Congresso Nacional Africano.
Explosões
de revolta política que redundam em prejuízos da própria população que
protesta não são, obviamente, uma exclusividade da África do Sul.
O
caso de Zuma tende a ser episódico, embora grave a ponto de reservistas
do Exército terem sido convocados para controlar o quebra-quebra. Mas
expõe muitas fraturas sistêmicas que não vão ser curadas tão facilmente.
Ou talvez não venham a ser superadas e puxem para o abismo do caos
institucional um país que inspirou o mundo quando fez a transição do
apartheid para a democracia tão exemplarmente. Seria uma tristeza.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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