BLOG ORLANDO TAMBOSI
O fato de ela não ter sido corrigida corretamente ao longo dos anos significa que o governo continuou a cobrar o imposto inflacionário sobre os ganhos de renda da população. Felippe Hermes para a Crusoé:
O governo agora barganha aumentos de impostos para corrigir um crime cometido: a não correção da tabela do imposto de renda.
Conta-se
que um general soviético em visita a Londres foi recebido por oficiais
do governo para conhecer o país e a economia local. Em alguma das tantas
visitas a fábricas e mercados, perguntou: quem é o general responsável
pela distribuição de pão em Londres?
Pode parecer uma piada, mas no Brasil dos anos 60 e 70, este era exatamente o caso, ou quase.
Eduardo
de Carvalho, o chefe da assessoria econômica do Ministério da Fazenda
na gestão Delfim Netto, relatou o funcionamento dos índices de preços no
Brasil da ditadura.
Segundo
Carvalho, Delfim era extremamente preocupado com os preços na
Guanabara, que possuíam maior peso no índice preparado pela Fundação
Getúlio Vargas (FGV). A preocupação chegava ao ponto de o ministério
negociar reposições de produtos na Ceasa do Rio, para controlar o
índice.
Funcionava
assim: uma geada em São Paulo reduzia a oferta de tomate. O ministério,
sabendo disso, ligava para as cooperativas, exigindo que mais caminhões
do produto fossem mandados para o Rio. A cooperativa fazia suas
exigências em troca, recebendo benefícios como andamento célere de
assentamentos, e magicamente mais tomates brotavam no Rio de Janeiro.
Quando os pesquisadores da FGV iam medir os preços, o resultado é que a oferta artificial os reduzia.
Edmar
Bacha certa vez chegou a calcular a diferença. Segundo Bacha, os preços
de alimentos chegaram a subir 26% no país em 1973, mas apenas 15% no
Rio de Janeiro, onde o governo garantia atenção especial.
Este
caso ilustra nossa relação com a inflação como poucos. Talvez perca
para a infame “inflação do chuchu”, quando o então ministro Mário
Henrique Simonsen atribuiu à alta do alimento o índice de inflação acima
do esperado.
O
motivo disso está na composição dos chamados “índices de inflação”. O
objetivo do índice é capturar a perda do poder de compra. Para tanto, o
instituto responsável cria uma cesta de consumo hipotética. No caso do
IPCA, o índice usado como padrão no Brasil hoje, a cesta é oriunda
Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) e busca replicar o consumo de uma
família brasileira média.
Isso
significa que cada item possui um peso. Alimentos, energia, vestuário,
habitação, transporte etc. Cada um possui um percentual que contribui
para o índice de inflação.
Graças
a isso, Delfim e seus assessores conseguiam promover reduções
esporádicas no índice. Se o preço do tomate estava artificialmente
menor, o percentual dos alimentos caía e, consequentemente, o índice
geral também era menor.
Mas
esse não é um caso isolado. Quando Dilma Rousseff e a Petrobras
congelaram o preço dos combustíveis, uma medida que resultou em R$ 120
bilhões em prejuízo, o resultado foi uma inflação menor.
O
motivo é simples: se o índice de inflação mede a alta de preços, então
se alguém pagar a alta antes de os preços subirem para o consumidor, não
há aumento no índice de inflação.
Foi
a mesma tática de Jair Bolsonaro em 2022, com uma redução nas alíquotas
de impostos de produtos que são sensíveis ao orçamento familiar.
Pode
parecer tudo muito bacana, afinal, os preços não sobem para o
consumidor, mas tudo isso esconde um problema significativo: o Brasil
até hoje não entende muito bem o que é a inflação.
Somos
o sétimo país mais desigual do mundo, em boa medida por sermos também o
único a conviver com inflação alta sem estar em guerra.
A
inflação elevada foi possivelmente a máquina de tortura mais mortal
criada pela ditadura brasileira. Graças aos índices de correção, que
carregavam a inflação de um ano para o outro (e em muitos casos
continuam fazendo isso no Brasil), além da prática da conta movimento,
que permitia ao governo se financiar imprimindo dinheiro, criamos um
monstro que torturava as famílias mais pobres.
O
mesmo Mário Henrique Simonsen, junto de Rubens Penha Cysne, calculou
que em 1993, o último ano antes do Plano Real, o chamado “imposto
inflacionário”, chegou a 6% do PIB. Metade disso para o governo e metade
para os bancos, que são aqueles que criam a moeda.
Considere
que os 50% mais pobres da população fica hoje com 10% da renda. Agora
considere o peso de 6% do PIB recaindo majoritariamente sobre essa
parcela da população e é possível entender o tamanho do problema.
Enquanto
a classe média e os mais ricos podiam acessar o overnight, os mais
pobres estavam inteiramente expostos à inflação, em um país que até bem
pouco tempo tinha metade da população adulta sem contas em bancos.
Segundo
os mesmos autores, o Imposto Inflacionário desabou para 0,3% do PIB
durante o Plano Real. Uma queda de 95%. Trata-se, portanto, do maior
programa social da história, corrigindo distorções avassaladoras.
Com
todo este avanço, porém, como os dois casos recentes apontam, os
políticos locais não parecem ter entendido o que é inflação.
Está na mesa a proposta de corrigir a tabela do Imposto de Renda.
Se
fosse totalmente corrigida, a tabela implicaria que a primeira faixa de
Imposto estaria em R$ 4 mil, contra os cerca de R$ 2 mil atuais.
O
fato de a tabela não ter sido corrigida corretamente ao longo dos anos
significa que o governo continuou a cobrar o imposto inflacionário sobre
os ganhos de renda da população.
Em
suma, os salários subiram não por um aumento de renda real, mas para
compensar a alta de preços. E o governo se viu no direito de tributar
este aumento.
Agora,
para corrigir esse crime, em que o dono da moeda cobra impostos sobre
os pobres que a utilizam, o governo espera encontrar “compensações”.
Nas
próximas semanas, você continuará a ver o governo tentando taxar outros
bens e serviços para compensar a perda que terá ao reduzir o tamanho do
roubo que praticou ao cobrar da população impostos sobre ganhos gerados
pela perda de valor da moeda do próprio governo.
É importante estar atentos, especialmente para entendermos a história brasileira.
Os
resultados de um período de inflação elevada foram trágicos para o
país. Levaram a uma explosão de pobreza, marginalidade e outras tantas
questões que passam longe de um ideal de país.
Estamos falando aqui de um ato intencionalmente perpetrado contra a população mais pobre, e cuja correção está sendo barganhada.
Essa
barganha, que mais se assemelha ao pedido de resgate de um sequestro no
qual os mais pobres seguem reféns da moeda estatal, ganha contornos
“sociais” por parte da mídia afeita a elogios ao governo (a depender de
qual governo).
Você
verá pessoas tentando convencê-lo que aumentar impostos é bom, pois
permitirá corrigir a tabela de imposto de renda. Nada mais falso.
A
não correção da tabela é uma destruição perpetrada contra quem ganha
menos e sua correção é uma obrigação moral da parte de qualquer
governante que não tenha intenção de se tornar cúmplice de um crime.

Nenhum comentário:
Postar um comentário