Francisco Carneiro Junior
“O
socialismo nunca defendeu o povo — defendeu o Estado contra o povo, e
destruiu, no caminho, a menor minoria que existe sobre a Terra: o
indivíduo”. Ayn Rand
Enquanto Brasília sonha com outubro, o Brasil sangra em silêncio.
O projeto
que hoje ocupa Brasília não é um projeto de governo. É um projeto
eleitoral disfarçado de governo. Não existe plano de nação ali dentro —
existe cronograma de campanha. E a diferença entre as duas coisas é
medida em vidas, em contas de luz, em presídios que viraram sede social
do crime, em fronteiras que ninguém fecha. O horizonte deles é outubro
de 2026. O horizonte do povo é o Brasil que sobra depois. Sacrifica-se o
presente do brasileiro para financiar o futuro do partido — e a fatura,
gigantesca, cairá sobre a mesa de cada família em 2027, quando o circo
já tiver ido embora e restar só a lona rasgada.Olhe ao redor. Segurança
pública, defesa nacional, infraestrutura, o interior esquecido, o
cotidiano exaurido — em cada uma dessas frentes a sensação é uma só,
monocórdica, obsessiva: abandono. Não é impressão. É método.
Comecemos
pelo bolso, que é onde a ideologia perde a poesia e vira aritmética.
Você paga luz, combustível, internet, plano de saúde, transporte, água —
e nunca votou em quem decide, de fato, quanto você vai pagar por cada
um desses itens. O Brasil mantém onze agências reguladoras federais com
poder de editar norma, autorizar, fiscalizar, multar, interferir. Um
poder imenso, quase invisível, que não passa pela urna e raramente passa
pela imprensa. O problema não é a regulação em si — regular é função
legítima do Estado moderno. O problema é quando a regulação deixa de
prestar contas a alguém e passa a prestar favor a algum setor. Isso tem
nome técnico: captura regulatória. E captura regulatória, meus caros, é
apenas uma forma elegante de dizer que o Estado trocou de dono sem
avisar o eleitor.
Agora olhe a
fronteira, porque é lá que a ficção do “Brasil que funciona” se desfaz
com mais violência. O país deixou de ser rota do narcotráfico
internacional para se tornar base dele. O Tren de Aragua fornece
armamento. O Comando Vermelho articula redes que atravessam continentes.
O PCC se expande como uma corporação transnacional — porque é
exatamente isso que ele é: uma corporação transnacional do crime, com
filial, com logística, com departamento financeiro. E enquanto isso
acontece, a cúpula da Polícia Federal chama de “equívoco técnico” a
decisão de potências estrangeiras de tratar essas facções como
organizações terroristas. Chamam de equívoco o que deveria ser chamado
de diagnóstico tardio. O governo, em vez de agradecer a cooperação,
veste a beca da soberania ferida — como se soberania fosse o direito de
deixar o crime crescer sem interferência alheia, e não o dever de
protegê-la com as próprias mãos, antes que outros precisem fazê-lo por
nós.
A solução,
aliás, nunca foi complicada — só foi, sistematicamente, evitada.
Fronteira protegida. Dinheiro bloqueado. Bens confiscados. Lideranças
isoladas em regime que impeça o comando de dentro da cela. Facções
tratadas como o que são: ameaça à soberania nacional, não como problema
de assistência social mal resolvido. Ou o Brasil enfrenta o narcoestado
que se instala célula por célula, ou aceita ser playground do crime
organizado — e nações não escolhem entre essas duas coisas por acaso;
escolhem por covardia ou por coragem, e a covardia, infelizmente, também
é política pública.
E é dentro
do próprio sistema prisional que se vê o retrato mais cru do abandono.
Quando o Estado perde o controle dos presídios, ele não perde um detalhe
administrativo — perde a soberania sobre o próprio território, célula
por célula, ala por ala. É nesse vácuo, morno e silencioso, que as
facções recrutam, se organizam, se profissionalizam. Cada preso não
ressocializado é um funcionário em potencial da maior multinacional do
crime que o Brasil já produziu.
E é nesse
cenário que ouvimos uma vereadora — Karen Santos, do PSOL — descrever
traficantes como “trabalhadores megaexplorados” e defender a legalização
das drogas como política de combate ao próprio tráfico. Segundo ela, a
droga seria “uma mercadoria como qualquer outra”. Vejam a inversão: quem
morre soterrado pela guerra das facções vira estatística; quem comanda o
tráfico vira proletário oprimido. É a compaixão apontada para o lado
errado da arma. E o pior: dita com a solenidade de quem acredita estar
do lado certo da história — o que nos leva a um fenômeno mais profundo
do que qualquer discurso isolado de plenário.
Porque
existe uma engrenagem, quase invisível, que rege a política digital
contemporânea, e que explica por que discursos como esse não desaparecem
— eles se multiplicam. A internet não premia necessariamente quem está
certo. Premia quem consegue fazer o adversário reagir. Há uma lei
informal da internet que descreve exatamente isso: a forma mais
eficiente de dominar uma conversa não é fazer a pergunta mais
inteligente — é lançar a provocação mais irritante, aquela que ninguém
consegue deixar sem resposta. O erro vira isca. A indignação vira
combustível. E jornalistas, adversários, influenciadores, militantes de
boa-fé começam, sem perceber, a trabalhar de graça espalhando exatamente
aquilo que gostariam de destruir. Some a isso outro princípio, batizado
em homenagem a um escritor italiano: a quantidade de energia necessária
para desmentir uma mentira é ordens de grandeza maior do que a energia
necessária para produzi-la. E some ainda a advertência de um linguista
americano: negar publicamente um enquadramento é, paradoxalmente,
reforçá-lo na mente de quem ouve — porque a palavra repetida grava a
moldura, mesmo quando pretende apagá-la. Três mecanismos, uma só
conclusão: nem toda provocação merece palco, porque na guerra de
narrativas quem “corrige” costuma sair convencido de que venceu o debate
— enquanto quem provocou, na verdade, venceu a pauta.
E a
hipocrisia, aqui, atinge sua forma mais pura. Em palanque na
universidade, antes de discurso do próprio presidente da República,
ouvimos a acusação de que as igrejas seriam “máfias”. Mas, chegada a
eleição, os mesmos lábios que insultaram os templos pedirão, mansamente,
o voto dos que neles rezam. Quando alguém chama a igreja de máfia, não
está atacando um prédio de tijolo e telha — está atacando milhões de
pessoas de fé que sustentam famílias, recuperam vidas destruídas pelo
vício, alimentam quem o Estado esqueceu. Quem conhece o trabalho das
igrejas nas periferias sabe que ali não há crime organizado: há oração,
acolhimento, prato de comida quente, esperança reconstruída tijolo por
tijolo. A fé do povo não pode ser transformada em inimigo ideológico por
quem, depois, precisará dela nas urnas. Respeitar as igrejas não é
favor — é reconhecer a liberdade religiosa e a dignidade elementar de
quem crê.
Mas para
entender por que tudo isso se encaixa como peças de um só quebra-cabeça,
é preciso voltar a 1985, quando um ex-agente da KGB desertou para o
Ocidente e revelou o método. Yuri Bezmenov não foi treinado para plantar
bombas — foi treinado para plantar percepções. O trabalho dele não era
espionagem no sentido clássico. Era reformular, lentamente, a maneira
como uma população inteira enxerga a realidade, até que essa população
perca a capacidade de distinguir o certo do errado. Ele batizou o
processo de subversão ideológica. Eu batizo de Brasil contemporâneo.
A subversão
não chega de tanque. Chega pela escola que ensina a obedecer em vez de
pensar. Chega pela mídia que decide, por você, o que merece sua
indignação hoje. Chega pela cultura que glorifica o Estado provedor e
culpa o empresário pela pobreza que o próprio Estado, com sua carga
tributária asfixiante, ajudou a produzir. Bezmenov descreveu quatro
etapas, e cada uma delas tem endereço no Brasil de 2026. Desmoralização:
corroer os valores que sustentam uma sociedade produtiva — família,
mérito, propriedade. Ele considerava essa etapa concluída no Ocidente já
em 1985; no Brasil, ela amadureceu tardiamente, mas amadureceu.
Desestabilização: atacar a economia real, as relações exteriores, a
capacidade de defesa — leis que encarecem produzir, impostos que sufocam
quem gera emprego. Crise: o colapso que chega, com pontualidade quase
matemática, quando a base produtiva de um país é sistematicamente
destruída. Normalização: o momento em que o povo deixa de se indignar e
passa a administrar o caos como se fosse clima — carga tributária alta?
“é assim mesmo”. Empresa fechando? “culpa do empresário ganancioso”. E
aqui mora a peça mais trágica do tabuleiro: os idiotas úteis. Não são
vilões conscientes — são, em sua maioria, pessoas de boa-fé que propagam
a narrativa da própria ruína por ingenuidade, por vaidade, por ganância
de aplauso, sem perceber que ajudam a afundar o mesmo barco em que
navegam.
E é preciso
dizer, com honestidade que a militância raramente pratica: a esquerda
moderna não é uma conspiração de cinismo. É pior — é um sistema de poder
que se autolegitima através da própria linguagem moral. A maioria de
seus operadores acredita genuinamente no que prega. E é exatamente por
isso que o sistema é tão resistente: um regime que depende de
conspiradores conscientes é frágil, porque conspiradores podem ser
expostos, comprados, desmascarados. Um regime que convence seus próprios
operadores de que estão praticando o bem é quase inexpugnável, porque
não há traidor a delatar — há apenas fiéis convictos. Roger Scruton deu
nome a esse impulso: oikofobia — o desprezo sistemático pelo que é seu,
familiar, herdado, local. É um movimento psicológico que precede o
político. Primeiro se aprende a sentir vergonha da própria origem;
depois se aprende a reparar essa vergonha através da militância; a
militância então se torna identidade; e a identidade se torna o bem
supremo, blindado contra qualquer crítica. O resultado é uma classe que
se sente moralmente superior precisamente por ter rompido com tudo que a
precedeu — a família, a tradição, a fé, a nação. Quanto mais se rejeita
o passado, mais virtuoso se é. Quanto mais se pertence a ele, mais
culpado se torna. É um sistema fechado, meus caros: não há como vencer
esse debate por dentro, porque o debate, ali, nunca foi sobre argumentos
— é sobre pertencimento moral, e pertencimento moral não se discute, se
professa.
Se o
brasileiro real, no seu dia a dia, em seus valores, em sua fé, é
majoritariamente conservador — e se os partidos que dizem falar em nome
do povo são sistematicamente progressistas — a pergunta que ninguém quer
responder se impõe sozinha: quem, afinal, representa quem? A resposta é
desconfortável, mas é precisa: a esquerda brasileira nunca representou o
povo. Representou a classe intelectual que se autoproclamou porta-voz
dele. E essa distinção não é detalhe acadêmico — é o núcleo exato do
problema. Quando Antonio Gramsci formulou o conceito de hegemonia
cultural, ele não estava ensinando como convencer a maioria a mudar de
opinião. Estava ensinando como tornar a opinião da maioria irrelevante,
controlando as instituições que decidem o que conta como realidade.
Escola. Universidade. Imprensa. Entretenimento. Quem domina essas quatro
estruturas não precisa vencer eleição nenhuma para governar — governa
antes mesmo de a urna ser aberta.
E o que é o
aparelhamento senão a hegemonia cultural com CNPJ, com organograma, com
folha de pagamento? Não é teoria. É prática administrativa. Educação,
saúde, previdência, o Bolsa Família — tudo instrumento; nada é fim em
si. Um pedaço das Forças Armadas, capturado pela lógica da acomodação.
Um pedaço da Polícia Federal, capturado pela lógica do “equívoco
técnico”. As autarquias, a ANEEL, a ANATEL, o alfabeto inteiro das
siglas que ninguém elegeu — tudo isso não administra o Brasil:
administra o desvio, a cooptação, a promoção contínua de um projeto
único, que é a utopia centralizadora de Brasília. E a essa utopia é
preciso, finalmente, dizer basta. Precisamos rever, reexaminar,
reconquistar aquilo que é nosso — porque a verdade incômoda é esta: nós
não defendemos coisa alguma que seja nossa.
Enquanto
isso, observe o mundo lá fora: as outras nações defendem, com unhas e
dentes, até aquilo que não lhes pertence. Recebem o que não é delas, e
ficam com o que recebem. O Brasil, ao contrário, entrega o que é seu — e
agradece pela oportunidade. Por que a exceção somos sempre nós? O
sistema, note bem, já nasceu arranjado para isso: os fundos estão
definidos, as autarquias estão desenhadas, os recursos escoam para onde a
lei manda escoar, obrigatoriamente, independentemente de mérito, de
resultado, de qualquer critério que não seja o critério político que
criou a norma. Não é desvio informal — é rolo institucionalizado, com
força de lei, blindado contra qualquer revisão.
E aqui está
o erro estratégico mais grave de décadas de resistência conservadora:
nós só sabemos nos levantar contra indivíduos. Contra o ministro, contra
o petista da vez, contra o rosto que a televisão nos mostra. Mas nunca
contra a instituição — a autarquia, o fundo, a estrutura burocrática
permanente — que segue ali, entronizada, cooptada, orientada contra o
próprio país, muito depois de o indivíduo ter caído em desgraça e sido
substituído por outro igual. Combater o sintoma e poupar a doença é a
receita exata da derrota eterna. É a instituição, e não apenas o nome
que a ocupa hoje, que precisa ser revista, disputada, reconquistada —
porque enquanto lutarmos apenas contra pessoas, o aparelho continuará de
pé, esperando, paciente, o próximo ocupante.
A esquerda
não chegou ao poder no Brasil por vitória eleitoral esmagadora nem por
sedução ideológica da maioria silenciosa. Chegou por infiltração
institucional — lenta, paciente, metódica, executada ao longo de
gerações por intelectuais e militantes que compreenderam exatamente
aquilo que os conservadores brasileiros insistiram, soberbamente, em
ignorar: que o poder duradouro não está em quem vence a eleição de
outubro, mas em quem forma os juízes, os professores, os jornalistas, os
funcionários públicos de carreira que permanecem no cargo enquanto os
governos passam. Os conservadores brasileiros falharam de maneira
monumental em construir as alternativas institucionais que poderiam ter
alterado esse equilíbrio décadas atrás. E aqui vai a advertência mais
dura deste texto, porque advertência sem dureza é apenas lamento vestido
de análise: criticar a hegemonia cultural da esquerda sem ter erguido
nada comparável não é diagnóstico — é queixa. É o general que denuncia o
exército inimigo sem jamais ter treinado o próprio batalhão.
E, no
entanto — e é aqui que este texto se recusa a terminar em resignação,
porque resignação é exatamente o produto final que a subversão
ideológica pretende entregar — reverter esse quadro é questão de
construção, não de lamentação. Escola por escola. Instituição por
instituição. Uma geração disposta a ocupar o espaço que a anterior cedeu
por comodismo.
O Brasil
não está condenado ao regime de exceção regulatória, ao narcoestado
tolerado, à normalização do caos como clima. Está, isso sim, diante da
última hora em que a construção ainda é possível sem que o colapso a
torne inevitável. Um Brasil que funciona não é utopia de gabinete nem
imaginação de discurso de posse — é projeto que se constrói com as mãos,
com instituição, com coragem de nomear o crime pelo nome certo e a fé
pelo respeito que ela merece. Existe, ainda, um caminho de volta. A
pergunta que resta — e que cada brasileiro terá que responder, sozinho,
diante da própria consciência, antes de outubro de 2026 — é se ainda
restará gente disposta a percorrê-lo antes que a conta, gigantesca e
avassaladora, vença de vez.
Francisco Carneiro Júnior
* Enviado ao site pelo autor, em 31/07/2026