Penny Mordaunt está na frente nas pesquisas para chefiar o governo britânico, embora a cúpula do Partido Conservador prefira candidato tradicional. Vilma Gryzinski:
Os
jogos são vorazes e políticos tradicionais estão dançando a cada
rodada. Hoje tem mais uma. O preferido dos parlamentares para chefiar o
Partido Conservador e, portanto, o governo, segundo o regime
parlamentarista, é Rishi Sunak, um perfeito “homem do sistema”, desde o
emprego na Goldman Sachs que o tornou milionário até a experiência como
ministro da Economia nos tempos loucos da pandemia e da crise dos
combustíveis.
Mas
as bases querem uma mulher, de preferência uma reencarnação de Margaret
Thatcher. Três delas estão no páreo e à frente das pesquisas junto aos
membros de carteirinha do Partido Conservador. Todas venceriam Rishi
Sunak numa hipotética disputa final, quando os dois candidatos que
sobrarem de pé forem levados ao escrutínio das bases.
Penny
Mordaunt é a mais destacada, mas Liz Truss (agora inteiramente vestida
de azul Thatcher) e Kemi Badenoch também estão fazendo bonito.
Instintivamente, os membros do partido – entre 100 e 150 mil pessoas –
detectam que elas destruiriam a principal narrativa da oposição de
esquerda, a de que os tories, a denominação tradicional, são o partido
dos ricos e privilegiados.
Mordaunt
assumiu os cuidados com a família aos 15 anos, quando a mãe morreu de
câncer de mama, e trabalhou como assistente de mágico para pagar os
estudos.
Embora
diplomada em Oxford pelo curso que é um celeiro de primeiros-ministros
– PPE, sigla em inglês para filosofia, política e economia -, Liz Truss
foi intensamente menosprezada pelas elites quando se tornou ministra
das Relações Exteriores. Em notas plantadas anonimamente na imprensa, os
bem pensantes ridicularizaram a ministra por imitar atitudes de
Thatcher e chegaram a torcer para que Serguei Lavrov, o assustador
chanceler russo, a humilhasse.
Kemi
Badenoch, nascida Olukemi Olufunto Adegoke, numa família nigeriana, já
foi chamada de “o pior pesadelo do Partido Trabalhista”: uma mulher
negra formidavelmente eloquente que trabalhou no McDonald’s “chapando
hambúrguer e limpando banheiros”, está na ala da direita dos
conservadores (sim, a direita também tem uma esquerda) e tritura a
teoria crítica racial – qualquer escola que ensine como se fosse um fato
elementos dessa ideologia que “vê a minha negritude como vitimização e a
branquitude deles como opressão” está descumprindo a lei, disse num
discurso famoso. Sobre a política de carbono zero, deu uma definição
fatal: “Desarmamento econômico unilateral”.
Ela
também seduz as bases quando diz que micropolíticas como “dar 50 libras
aqui e um desconto ali” são ineficientes- uma flechada em Rishi que,
entre outros incentivos, promoveu um desconto de 10 libras em todas as
contas de restaurantes, para incentivar um ramo de negócios que estava
saindo derrubado da paralisação de atividades durante a pandemia.
A
dinheirama despejada por Rishi emergencialmente na economia para pagar
todo mundo que estava parado e, depois, o aumento das contribuições
sociais de empregados e patrões, mais um imposto sobre o lucro das
empresas, desiludiram os conservadores de raiz de um partido cujo mantra
pode ser resumido em menos governo e menos taxações.
Rishi
diz, claro, que vai seguir todos os mandamentos do thatcherismo se for
eleito, mas prega uma “conversa de adultos” sobre as exigências sem
precedentes criadas pela pandemia e a guerra na Ucrânia.
Uma
boa parte dos parlamentares conservadores concorda: na primeira rodada
da eleição, ele teve 88 votos (Penny Mordaunt ficou em segundo, com 67).
Mas é difícil vencer as resistências criadas pela heterodoxia econômica
e também pelas constrangedoras revelações de que sua mulher, Akshata,
filha de um bilionário indiano, mantinha domicílio fiscal na Índia. O
próprio Rishi só devolveu seu green card americano bem depois de um bom
tempo no comando da economia britânica.
“Você
acha que membros de seu partido já estão preparados para escolher um
homem marrom, Rishi?”, provocou, abjetamente, um advogado de esquerda,
Jolyom Maugham. “Marrom”, sem o gracioso contexto do apelido da cantora
Alcione, é a forma nada elegante de chamar indianos e outros povos
asiáticos que não são brancos.
A
preferência das bases por Penny Mordaunt ou alguma das outras leoas
conservadoras pode, evidentemente, influenciar a votação dos
parlamentares. A essa altura, é praticamente impossível que alguma delas
não esteja entre os dois finalistas.
Penny
tem algo do apelo populista de Boris Johnson, um sedutor serial que as
bases finalmente abandonaram devido a seus conhecidos problemas de
caráter. Ela participou de um reality show de mergulhos comandado pelo
campeão olímpico Tom Daley. Mostrou que é uma mulher bonita, hoje com 49
anos, com um corpo com o qual outras mulheres que não são modelos,
atrizes ou influencers, podem se identificar.
Aparecer
de maiô vermelho num programa de televisão e ser qualificada de “a
parlamentar mais sexy” do reino não constituem exatamente argumentos que
encantem as elites. Penny tem alguma substância a mais no currículo.
Foi ministra da Defesa, durante apenas três meses, no governo da
ex-primeira-ministra Theresa May, e rebaixada para secretária da Ajuda
Externa no governo Boris.
Os
inimiguinhos estão tentando intrigá-la com as bases, chamando-a de
“Theresa May com cabelão” e desencavando posições como o apoio à
autoidentificação das mulheres trans. O irmão gêmeo dela é gay, o que a
ajuda a se solidarizar com a causa.
“Acho
que deveríamos estar falando do custo de vida, do sistema de saúde”,
desconversou ela, antes de fazer um jogo de palavras sobre uma mulher
como ela não ter um, digamos, penduricalho.
Sem
grandes arroubos retóricos, como os que fizeram a fama de Boris
Johnson, ela já comparou a sua carreira política aos mergulhos que
aprendeu a lapidar no reality show.
“É
preciso ser corajoso na política. Para conseguir fazer coisas, você tem
que pôr a cabeça a prêmio. É como mergulhar. Tudo o que se faz implica
em riscos. O importante é administrar isso e manter a dignidade”.
Dignidade é uma palavra importante depois das vaciladas com que Boris Johnson cavou a própria cova.
O
sistema de escolha dos dois candidatos finais é como um reality show da
política – “Com pessoas feias”, sibilou uma comentarista.
A
beleza de Penny Mordaunt certamente não atrapalha, mas pode ajudar a
consolidar a imagem de que ela é um peso leve, sem densidade para
chefiar um governo num momento extremamente perigoso para qualquer
político, em qualquer país do mundo. É essa a batalha que ele tem que
vencer até segunda-feira para estar na final.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário