A economia deixou de permitir ilusões. Boris Johnson parecia o líder certo para fazer avançar o Brexit e responder à guerra na Ucrânia, mas já não para lidar com a inflação ou uma pandemia. João Diogo Barbosa para o Observador:
De
forma inteiramente congruente com o seu arco narrativo, a queda de
Boris Johnson foi simultaneamente súbita e prolongada, justificada ao
mesmo tempo por um escândalo secundário e um imperativo moral. Até a
forma de tudo se precipitar foi trágica, envolvendo um Primeiro-Ministro
agarrado a um governo que já só tinha os seus maiores amigos, numa
versão pouco impressionante do Rei Lear, mas que, anunciada a demissão,
também pareceu passageira, sem crises espirituais no Reino Unido e com o
regresso da política para o substituir.
É
verdade que todo o som e fúria em redor de Johnson produziram apenas um
total de três anos enquanto Primeiro-Ministro, num recorde semelhante
ao de Theresa May, o que perante a história britânica é pouco mais do
que uma interrupção no curso normal de eventos. Mas o curto período em
Downing Street é uma métrica errada para o sucesso de Boris Johnson
enquanto personagem política dos nossos tempos.
O
espectro de Boris, popular e aparentemente predestinado a substituir
alguém, dominou os cálculos da fase final do longo mandato de David
Cameron, com resultados desastrosos para o próprio Cameron e para o
país, e foi seguramente a sua existência – ainda que mais como símbolo
do que como político – a guiar toda a discussão pública no período entre
o referendo sobre a saída da União Europeia e a semana passada.
É
por isso natural que o legado de um Primeiro-Ministro que, contra a
opinião consensual, conseguiu extrair o país da União Europeia e liderar
um esforço de vacinação exemplar se arrisque a ser apenas uma vaga
memória desconfortável da década em que conseguiu expressar as vontades
latentes da maioria do eleitorado.
Em
2019, quando essa maioria se manifestou, o candidato Boris Johnson era
substancialmente diferente da direita em vigor. Não era evidente nessa
altura, mas o contexto pedia um candidato capaz de projetar a ideia de
dinamismo, mesmo que à custa do risco ou do caos, disponível para gastar
dinheiros públicos em grandes projetos, reequilibrar o país e restaurar
a perspetiva de prosperidade. Johnson acolheu questões relevantes para
os Conservadores como o euroceticismo ou a imigração, mas juntou-lhes um
talento natural para escolher as guerras culturais que elevavam o seu
perfil em vez de o deixar à mercê dos extremos, mas trouxe de novo uma
disponibilidade para abandonar a moral e as políticas que constituíam
uma espécie de estética do partido Conservador, com vantagens eleitorais
evidentes.
Tudo
o que explicou o sucesso em 2019 contribuiu para explicar o declínio em
2022. O contexto mudou. As grandes questões simbólicas foram resolvidas
apenas o suficiente para terem perdido intensidade como armas
culturais, mas não para se terem resolvido inteiramente como questões
políticas. A economia deixou de permitir ilusões sobre a possibilidade
de grandes incentivos ao progresso. Boris Johnson parecia o líder certo
para fazer avançar o Brexit e responder à guerra na Ucrânia, mas já não
para lidar com a inflação ou uma pandemia.
Nas
novas circunstâncias, a direita que Johnson fugazmente representou
desapareceu na semana passada. O país e o partido lançaram-se em busca
de um novo líder e nenhum dos candidatos parece interessado em recuperar
as propostas que produziram uma maioria inesperada e substancial há
apenas três anos.
Tal
como em 2019, o Reino Unido está adiantado em relação ao resto da
Europa. Os conservadores vão escolher entre si um Primeiro-Ministro numa
campanha que se disputa entre aqueles que querem baixar impostos ou
equilibrar o orçamento, para além de oferecer importantes contributos
para a definição de mulher.
A escolha desse pequeno eleitorado pode ajudar a perceber se o
zeitgeist europeu e ocidental se inclina para o regresso da austeridade
confiável e tecnocrática de alguém como Rishi Sunak ou a continuação de
uma nova direita à direita que abdique de um líder carismático e
imperfeito em troca de alguém que pode trazer mais estabilidade e menos
brilho – alguém como Liz Truss. Não é uma escolha menor para um partido
que governa há 12 anos e carrega dez pontos de atraso nas sondagens.
Vibe shift?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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