Em termos sociais, o “estado de emergência” com a qual se justificam as bondades eleitoreiras é o de um país que voltou ao mapa da fome, enquanto se gaba de ser campeão mundial de produção de alimentos. William Waack:
A
armadilha política da aprovação da PEC Kamikaze fechou-se como se
previa: o conjunto das forças políticas suporta a compra de votos
disfarçada de medida de emergência. Esse agrado oportunista ao eleitor é
a essência da atividade de partidos de baixa representatividade, sem
lideranças de expressão genuína, voltados para a defesa de interesses
privados, regionais, corporativistas ou segmentados.
“Armadilha”,
pois votar contra em nome de princípios significava ficar mal com o
eleitor. Votar a favor era prestar ajuda a Bolsonaro, ainda que os
dividendos eleitorais da PEC sejam duvidosos. Entre princípios e
caridade, mesmo a oposição séria e genuína a Bolsonaro se agarrou a uma
frase: “É a miséria, estúpido”.
É
uma constatação indiscutível, e profundamente perturbadora. Durante a
vigência do auxílio emergencial o Brasil teve significativa mudança de
patamar de renda. De lá para cá a situação só piorou. “Eu discutia como
votaria no caso da PEC, mas aí parei num sinal de trânsito, dei R$ 20
para uma família ali acampada e ouvi deles como esses R$ 20 eram tão
decisivos para as crianças deles, aí votei a favor”, disse um senador da
velha-guarda política, e ferrenho opositor do governo.
Combate
à desigualdade é frase de uso político desvinculada de um consenso nas
elites dirigentes sobre a necessidade de se diminuir miséria, doença e
ignorância. Não se trata de uma “maldade” pensada pelas “classes
dominantes”, como pretende o submarxismo que domina boa parte do ensino
superior. Trata-se de uma “sociedade invertebrada” que não percebe
quanto é refém da miséria que se mostra incapaz de eliminar.
É
bastante óbvio que a “sensibilidade social” de dirigentes políticos se
torna mais aguda na época de pedir votos, o que não é uma peculiaridade
brasileira. No fundo, a aprovação da PEC traduz um cenário abrangente
muito mais preocupante do que a indisciplina fiscal, o desrespeito claro
à institucionalidade (muda-se a Constituição ao sabor do momento
político imediato) e a burla às normas eleitorais.
Em
termos sociais, o “estado de emergência” com a qual se justificam as
bondades eleitoreiras é o de um país que voltou ao mapa da fome,
enquanto se gaba de ser campeão mundial de produção de alimentos. Não
importa a denominação política do governante de plantão, discutem-se, no
fundo, as mesmas mazelas de sempre. Pode-se dizer que não há sistema
político que funcione quando, na base, o que persiste é doença, miséria e
ignorância.
Nesse sentido, “emergência” é nosso estado permanente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário