A crônica semanal de Ruy Goiaba para a revista Crusoé:
Gosto
de incluir nos meus textos citações eruditas, porque sou um cara cultão
e faço questão de que o mundo saiba disso. Portanto, nada melhor do que
começar esta coluna com uma frase extraída dos grandes clássicos (no
caso, o desenho do Pica-Pau): “em todos esses anos nesta indústria
vital”, nunca testemunhei um nível de dadaísmo igual ao do noticiário
brasileiro nos últimos anos. Dadaísmo, infelizmente, não é o culto a
Dadá Maravilha — o maior frasista do futebol brasileiro —, mas o
movimento artístico daquela turminha cabeça que se reunia no Cabaret
Voltaire, em Zurique, durante a Primeira Guerra Mundial.
Você,
leitor cultão, certamente conhece a receita de Tristan Tzara, um dos
líderes do movimento, para fazer um poema: pegue um jornal, recorte
algumas palavras, jogue dentro de um saco, agite, tire um pedaço após o
outro e copie as palavras na exata ordem em que elas saírem do saco. “O
poema se parecerá com você./ E ei-lo um escritor infinitamente original e
de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.”
Muitas notícias no Brasil parecem ser fruto desse método dadaísta, com
um gerador de manchetes aleatórias no lugar do saco do Tristan Tzara.
Pior: não são os jornalistas que fazem isso — minha classe não costuma
ter nem imaginação para inventar essas coisas. É Alguém, talvez com A
maiúsculo, que está recortando a realidade e sacudindo com força.
O
resultado disso são notícias como “Lesão no púbis adia sonho olímpico
de Benito Mussolini”, o que só melhora se eu explicar a vocês que o xará
do Duce é um judoca piauiense (nem é tão novidade, admito: no fim dos
anos 90, o chefe da Polícia Civil goiana era o delegado Hitler
Mussoline, com “e” mesmo). Ou a melhor da semana passada: Sasha
Meneghel, a filha de Xuxa, perdeu 1,2 milhão de reais investindo em
criptomoedas com um sujeito chamado Francisley Valdevino, conhecido como
Sheik, ex-sócio de Silas Malafaia numa livraria gospel.
Não
é possível que não tenham jogado umas 200 palavras no saco e retirado
“Xuxa”, “criptomoedas”, “sheik” e “Silas Malafaia” de modo 100%
aleatório. A cereja do bolo é uma foto do glorioso Francisley Valdevino
fantasiado de sheik e com uma arma na mão (que parece de brinquedo, em
um cenário de festa —mas, como diria Jair Bolsonaro, não ponho a cara no
fogo por isso). Nessa notícia surreal, a única coisa reconhecível como
grande tradição brasileira é o 171.
(A
propósito, atenção: não confundam o Sheik das Criptomoedas com o Faraó
dos Bitcoins. Eles atuam no mesmo ramo, mas são profissionais
diferentes.)
Diante
disso, não há como não lembrar Ronaldinho Gaúcho. Todos conhecem os
rolês aleatórios do craque: uma hora, ele toca atabaque no encerramento
da Copa na Rússia; na outra, está preso no Paraguai por usar passaporte
falso num país em que brasileiros só precisam do RG para entrar; de
repente, surge do nada em um convento católico na Tunísia. Pois a vida
cotidiana no Bananão tem superado em muito a aleatoriedade dos rolês do
Bruxo do Dibre — e não sei se há como sairmos desse looping entre
dadaísmo e surrealismo. Minha derradeira esperança é Dadá Maravilha: se
ele conseguia parar no ar, como helicóptero e beija-flor, quem sabe
apareça com a solucionática para a nossa problemática.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Tucker
Carlson, apresentador da Fox News que já discutiu a sério a teoria de
que Joe Biden é um holograma, veio ao Brasil e entrevistou Jair
Bolsonaro. Na entrevista, afirmou que o presidente brasileiro enfrenta
uma coalizão de “bilionários, professores universitários e a CNN” — rede
que, no Brasil, tem 0,03 ponto de audiência. Não deve nem ter passado
perto da mente privilegiada do amigão de Glenn Greenwald jogar no Google
coisas como “PT”, “Lula” ou “TV Globo”. Seria mais realista dizer ao
público americano que Bolsonaro está enfrentando a temível aliança do
Curupira com a Loira do Banheiro e o ET Bilu.
Jair Bolsonaro com Tucker Carlson, o único índio com quem o presidente conversa
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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