Juristas que valorizam a justiça e a verdade jamais compactuariam com um ataque grosseiro à liberdade de debate característica do ambiente acadêmico, nem com esta agressão à liberdade de expressão que consiste na pressão para calar Moro. Editorial da Gazeta do Povo:
A
“vingança dos corruptos”, de que tão acertadamente falou Luís Roberto
Barroso durante o julgamento que manteve a suspeição do ex-juiz Sergio
Moro no caso do tríplex do Guarujá, não ocorre apenas dentro dos três
poderes. Ela só é possível porque também existe toda uma série de linhas
auxiliares, formadas por pessoas que não participam de ato ilícito
algum, mas que criam um arcabouço intelectual para a narrativa que
transforma os bandidos em vítimas. Tais linhas auxiliares estão
presentes especialmente na imprensa e na academia, e uma demonstração de
seu modus operandi acaba de ser vista neste fim de semana, envolvendo o
convite e o posterior cancelamento da participação de Moro no III
Encontro Virtual do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em
Direito do Brasil (Conpedi).
No
sábado, dia 19, o Conpedi anunciou a programação do evento e informou
que Moro coordenaria, na próxima sexta-feira, um painel com o tema “O
papel do setor privado em políticas anticorrupção e de integridade”. A
claque contrária a Moro e à Operação Lava Jato reagiu instantaneamente
nas mídias sociais e o Conpedi respondeu no dia seguinte. Em nota,
anunciou, de forma um tanto contraditória, que, embora nunca renuncie
“aos princípios democráticos e da pluralidade de ideias que permeia o
ambiente acadêmico”, estava exatamente renunciando aos princípios
democráticos e à pluralidade de ideias, pois deixara a turba se impor
pela intimidação, cancelando o painel e a participação de Moro – que,
recorde-se, também tem carreira no mundo acadêmico, tendo sido professor
da Universidade Federal do Paraná.
Os
canceladores não se deram por satisfeitos e, mesmo após a decisão de
não se realizar mais o painel, seguiram repudiando publicamente o fato
de o Conpedi ter convidado Moro para seu evento. O comunicado, com 125
assinaturas, é muito mais obra de militantes partidários ideologizados
que algo saído da pena de “juristas, professores e professoras de
programas de pós-graduação em direito do Brasil”, até porque não esboça
argumento técnico ou jurídico algum, limitando-se a repetir alguns dos
mais batidos – e falsos – clichês inventados pelo petismo para atacar a
Lava Jato, como o de que a operação “gerou incontáveis prejuízos
materiais, financeiros e simbólicos ao país”, como se fosse o combate à
corrupção, e não a corrupção em si, que causasse prejuízos ao Brasil e
arranhasse a imagem da nação.
Não
faltaram, obviamente, as menções à decisão do STF que considerou Moro
suspeito – não “nos processos que dirigiu”, como diz o texto militante,
mas em um único processo envolvendo o ex-presidente Lula – como
argumento para que ele não participasse do evento. Mas juristas dignos
deste nome jamais teriam ignorado que se tratou de decisão teratológica
do Supremo, repleta de circunstâncias que são motivo de vergonha para a
suprema corte, e não para Moro, que sempre se conduziu com lisura nos
processos que julgou. Não há, no texto dos ditos “juristas”, uma única
palavra sobre a manutenção de um habeas corpus impetrado dentro de um
processo considerado nulo; nem sobre a inexplicável mudança de voto de
Cármen Lúcia na Segunda Turma; nem sobre o fato de atos que se deram
estritamente dentro dos limites da Constituição e dos códigos legais
terem sido arbitrariamente transformados em abusos ou ilegalidades pelos
ministros do STF.
Os
autênticos juristas que valorizam a justiça e a verdade, por fim,
jamais compactuariam com um ataque grosseiro à liberdade de debate que é
característica do ambiente acadêmico, nem com esta agressão à liberdade
de expressão que consiste na pressão para calar Moro – e é sintomático
que, entre os 125 signatários, haja vítimas até mesmo recentes de
tentativas de cerceamento, como um professor da Universidade de São
Paulo, alvo de investida da parte de Augusto Aras por causa de tweets e
textos críticos ao procurador-geral da República. Que tudo isso venha de
responsáveis por conduzir e avaliar programas de pós-graduação em
Direito ainda manda um sinal extremamente preocupante sobre a saúde (ou
falta dela) do ensino jurídico no país.
Em
sua “vingança”, os corruptos e suas linhas auxiliares não se contentam
em simplesmente reverter as decisões da Lava Jato, garantir a impunidade
e impedir que outras operações do tipo possam ocorrer no futuro. É
preciso inviabilizar completamente a vida daqueles que, ao longo de
anos, se dedicaram heroicamente a desbaratar os megaesquemas de
corrupção: enxovalhá-los, persegui-los aonde forem, impedirem-nos de se
manifestar. E, se for preciso atropelar os direitos individuais dos
protagonistas da Lava Jato, que assim seja. Em nome da “democracia”,
essas pessoas se portam como inimigos da democracia. Em nome do
“antifascismo”, se portam como fascistas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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