Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais desta quarta-feira:
Os
caros leitores que me perdoem, mas assim não dá. Ninguém quer saber se o
voto eletrônico com impressão simultânea é bom ou não: o bolsonarista
diz que é bom, o antibolsonarista diz que é ruim. Ou, como diz
Bolsonaro, a direita toma cloroquina, a esquerda toma tubaína. Eu
prefiro tomar vacina. Mas, de qualquer forma, deste jeito não dá para
achar uma saída.
Voltemos
ao tempo dos bons políticos: a solução é conversar. Bolsonaro é
autoritário? É. E, se souber que, perdendo o poder, vão tentar botá-lo
na cadeia, junto com os filhos, a tentação do autoritarismo será muito
mais forte. E não se pode esquecer que uma boa parcela da população o
apoia – talvez não o suficiente para reelegê-lo, mas o bastante para
provocar confusão. É preciso conversar, buscar os aliados dos principais
candidatos, montar um pacto que não envolva vinganças. Nos Estados
Unidos, Nixon renunciou, e a primeira medida de seu substituto Gerald
Ford foi conceder-lhe perdão por irregularidades cometidas durante seu
Governo. No Brasil, o preço a pagar pela transição pacífica da ditadura à
democracia foi a Lei da Anistia.
As
inimizades se mantiveram, o ex-presidente Figueiredo manifestou seu
desgosto saindo pela porta dos fundos do palácio, e a vida continuou.
Punir crimes é importante; mas isso deve ser feito depois, pela Justiça,
sem que a vingança recaia sobre quem perder. A linguagem de campanha,
de que o adversário é comunista ou fascista, não faz parte do dia a dia
normal do país.
O caso Lula
O
ex-presidente Lula, de novo candidato, e forte, pode ser um exemplo.
Seu caso levou anos sendo examinado e julgado; e, não fosse a militância
vingativa que atuou nos julgamentos, as condenações poderiam afastá-lo
da disputa. A evidência de que houve parcialidade levou a questão de
novo ao ponto de partida. Ou seja, não funcionou a longo prazo. No caso
Bolsonaro, a questão se repete: ele terá extrema dificuldade em tolerar
uma derrota, mas se souber que além da derrota terá de enfrentar um
julgamento internacional em Haia, depois de ter afrontado, infantil e
inutilmente, tantos outros países, o tornará mais agressivo e
potencialmente mais perigoso.
Boa
parte dos mais fiéis bolsonaristas está disposta a acreditar em
qualquer coisa que ele diga, e a aceitar qualquer conclamação que ele
faça. É preciso, num país que já foi amplamente castigado pela Covid,
que se evite o risco de correr mais sangue.
Em tempo
Este
colunista jamais votou ou votará em Lula ou Bolsonaro. Preferiria um
candidato de centro, que liderasse o que o Brasil tem de melhor, a
maioria silenciosa. Mas, de qualquer jeito, é conversando que as gentes
se entendem.
Dúvida
A
função do vice-presidente da República é substituir o presidente quando
necessário. Mas, se não conversa com o presidente, se não é admitido
nas reuniões do Ministério, como pode assumir em caso de urgência, sem
ter ideia do que está acontecendo? Além disso, vice desocupado é um
perigo.
Sinta o cheirinho
A
história é esquisitíssima: documentos oficiais do Itamaraty, aos quais o
jornal O Estado de S. Paulo conseguiu acesso, informam que a Covaxin, a
vacina indiana contra a Covid, custava em fevereiro US$ 1,34 a dose. O
Ministério das Relações Exteriores dizia, em dezembro: a Covaxin
custaria “menos que uma garrafa dágua”. Em fevereiro, o Brasil topou
pagar US$ 15 por dose, mil por cento a mais. Das seis vacinas que
compramos, foi de longe a mais cara (a segunda colocada no ranking é a
da Pfizer, a US$ 10 a dose). E tem mais: todas as vacinas, menos a
indiana, foram compradas diretamente dos laboratórios. A Covaxin foi
comprada de uma empresa brasileira, que se apresenta como representante
dos indianos (e nega ter recebido comissão pela venda). Trabalhará pro
bono, pelo prazer de atender à população?
Detalhe: a vacina ainda não foi aprovada pela Anvisa.
Algum palpite?
Cada
laboratório cobra quanto quiser por seus produtos. Mas não deixa de ser
curioso que o produtor indiano, menos conhecido do que AstraZeneca ou
Pfizer, cobre mais do que eles. Nem que o preço tenha subido de maneira
tão rápida. Nem que seja o único caso de venda por representante, não
pelo produtor. Nem que esse representante não tenha comissão e,
portanto, esteja trabalhando de graça. Bem, há coisas que parecem óbvias
e não são, não é?
Opção pelo bem
Neste
ano, é tudo virtual. A Parada Gay foi lembrada, mas não realizada; e um
de seus principais eventos, a doação de alimentos a pessoas carentes,
com ou sem Aids, não pôde ser presencial. Mas ainda há uma chance: vá ao
link até sexta-feira, 25, e faça sua doação (em dinheiro, que fica mais
fácil). Qualquer problema, envie a doação a Roseli Tardelli,
tradicional militante contra a Aids, que faz um trabalho bonito e
correto, sempre muito elogiado, em www.agenciaaids.com.br
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário