Enquanto as Forças Armadas estiverem
do lado do povo certo, o da Constituição, os apelos dominicais de
Bolsonaro não passarão de bravatas.Diogo Schelp, via Gazeta do Povo:
Já se tornou rotina nessa pandemia. Fim de semana é dedicado a
manifestações a favor do presidente Jair Bolsonaro, contra o fechamento
do comércio e outras medidas de distanciamento social adotadas por
governadores e prefeitos, contra o Congresso Nacional, contra o Supremo
Tribunal Federal e, até, a favor de intervenção militar para acabar com
tudo isso que está aí atravancando o caminho do líder. Quando não está
passeando de jet ski ou marcando e desmarcando churrascos, Bolsonaro usa
esses momentos para mostrar que não está só. "O povo está ao meu lado e
as Forças Armadas ao lado do povo", disse ele ao comparecer à
manifestação do dia 5, em Brasília.
Quem é brasileiro e não está do lado de Bolsonaro fica se
perguntando: então eu não faço parte do povo e as Forças Armadas não
estão do meu lado?
Depende de qual povo estamos falando. O de Bolsonaro é o povo dos
populistas. O das Forças Armadas é — ou ao menos esperamos que seja — o
povo da Constituição da República Federativa do Brasil.
Pois é. O povo de Bolsonaro não é o mesmo povo da Constituição.
"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição", diz a carta
magna brasileira. Uma democracia é isso, o governo do povo, pelo povo e
para o povo. Quem é esse povo? No preâmbulo da Constituição, os
representantes do povo (os constituintes) afirmam que a promulgam com o
objetivo de assegurar "os valores supremos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos".
Fraterna, pluralista e sem preconceitos. Em uma democracia,
entende-se que o povo é formado por indivíduos e que há profundas
diferenças entre eles. O sistema é moldado de modo que todos, mesmo
aqueles que compartilham de opiniões ou ideias minoritárias, possam se
ver representados no poder.
O povo da Constituição é plural. O povo dos populistas, não.
O povo dos populistas é um bloco monolítico e indivisível que só pode
ser representado por um partido ou líder. Trata-se de uma noção de povo
que pressupõe uniformidade de pensamento — o que, obviamente, é
impossível.
O povo dos populistas, portanto, é uma invenção retórica que existe
apenas em oposição a outra invenção retórica: os "inimigos do povo", ou
seja, todos aqueles que, segundo o líder, não estão do seu lado (no caso
de Bolsonaro, a imprensa, o STF, o Congresso, os "comunistas", o
"judas" Sergio Moro, etc.).
Essas são as três principais diferenças entre o povo de Bolsonaro e o
povo da Constituição, portanto: o primeiro é unitário e o segundo,
plural; o primeiro é excludente, o segundo é includente; o primeiro só
existe em oposição "às elites" ou outro bode expiatório evocado pelo
líder populista, o segundo existe por si mesmo.
Os perfis bolsonaristas nas redes sociais gostam de usar hashtags
como #TodoPoderEmanaDoPovo, como se a expressão contida na Constituição
significasse uma licença para que o presidente faça o que quiser com o
poder que lhe foi confiado pelo povo. Quando se compreende quem é o povo
da Constituição, entende-se que essa licença não existe.
Há limites para o poder presidencial. Limites para impedir que algum
líder caia na tentação de governar para o povo fictício das narrativas
populistas.
Enquanto as Forças Armadas estiverem do lado do povo certo, o da
Constituição, os apelos dominicais de Bolsonaro não passarão de
bravatas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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