Estamos numa situação que diria patológica: os filhos do presidente
atacando ou, mesmo, mandando em generais! Os descontentes que se retirem
voluntariamente ou serão obrigados a sair. Artigo do professor Denis
Rosenfield para o Estadão:
O presidente Bolsonaro, ao assumir, manteve uma política de confronto
incessante com seus adversários, como se todo aquele que a ele se
opusesse fosse um inimigo a ser abatido. Progressivamente, à maneira de
Tânatos, o deus da morte na mitologia grega (editorial do Estado de 25/4),
ou a pulsão de morte segundo Freud, fez a destruição reger as relações
políticas. Amigos e inimigos passaram a caracterizar suas posições,
ambos constituindo uma definição volúvel segundo as circunstâncias.
De inimigos objetivos da campanha (Lula e o PT) passou o mandatário
para os políticos em geral, para o “sistema”, para os velhos amigos
tornados inimigos, como generais do mais alto prestígio, e, enfim, as
próprias instituições democráticas, como o Supremo Tribunal e o
Legislativo. O resultado foi o isolamento presidencial, recluso em sua
própria família, recorrendo, em manifestação recente, a um suposto apoio
das Forças Armadas ao seu governo.
Ora, as Forças Armadas devem obediência exclusivamente à Constituição
e à defesa nacional. Constituem uma instituição de Estado, não estão a
serviço de nenhum governo. Note-se que desde a redemocratização do País,
também por elas liderada, juntamente com os adversários de então, como o
MDB, e aliados, como o novo PFL, foram o sustentáculo deste mais longo
período de democracia no Brasil.
Se observarmos mais atentamente a composição militar do governo,
constataremos que as Forças Armadas não constituem um bloco único, há
oriundos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sendo esta última a
mais afastada do governo, enquanto o primeiro é o mais próximo, com a
segunda ocupando posição intermediária. Mais particularmente, generais
do Palácio do Planalto são militares que fizeram parte de sua “turma”.
Isso significa também que a sua “turma” não é necessariamente a de
outras turmas do Exército, muito menos da Marinha e da Aeronáutica.
Note-se que, aos olhos da sociedade, os militares são responsáveis
pelo atual governo e seus fiadores, ela não faz a distinção entre
militares da ativa e da reserva, com destaque para o Exército. Isso
significa, politicamente, que sua responsabilidade é ainda maior. Seria
tentado a dizer que, para além dos fanáticos militantes das redes
sociais, eles constituem sua única base de sustentação. Se houvesse uma
mudança de posição, o presidente Bolsonaro não teria condições de
permanecer no poder.
As redes sociais são influenciadas e tuteladas pelo dito gabinete do
ódio, extensão do clã familiar, em cujas mãos parece estar o destino do
País. São da estrita confiança presidencial, participam das decisões. A
anomalia é gritante! Estamos aqui totalmente afastados do exercício
republicano do poder.
Pior ainda, o clã presidencial tem dado mostras de que manda no
governo e no Palácio do Planalto. Não apenas indica ministros, como os
controla, decide até quando devem ou não ficar. Generais que o
confrontaram foram banidos do governo, após indignos ataques nas redes
sociais. Estamos numa situação que diria patológica: os filhos do
presidente atacando ou, mesmo, mandando em generais! Os descontentes que
se retirem voluntariamente ou serão obrigados a sair.
Atualmente, o País enfrenta uma crise epidêmica, uma crise econômica e
uma crise política. A primeira, potencializada pela conduta
presidencial, dando exemplo do que não deveria ser feito, em desprezo
pelo bom senso e pela ciência. Governadores atuam responsavelmente no
sem-rumo da liderança presidencial. A situação da economia já não era
boa antes da epidemia, com as reformas avançando muito lentamente, pela
ausência de diálogo com o Legislativo. E, agora, a crise política,
conduzida “exemplarmente” pelo presidente e seu clã! Em apenas duas
semanas dois ministros foram “renunciados”, Mandetta, por fazer um
trabalho muito bom no combate ao coronavírus, seguindo diretrizes
científicas e da OMS; e Moro, por não concordar com as ingerências
presidenciais na Polícia Federal. Muita luz ofusca o presidente.
Ainda mais isolado, o presidente redobra a aposta no ataque: o
Supremo torna-se o novo inimigo, após as contundentes acusações do
ex-ministro da Justiça, símbolo da Lava Jato e da luta contra a
corrupção. Ele recorre a alguns políticos do Centrão, os mesmos que
ontem atacava como representantes do “toma lá dá cá”, na tentativa de
evitar o impeachment. Destrói, assim, a sua própria narrativa!
A situação é crítica. Uma alternativa seria o presidente
“converter-se”, isto é, afastar o seu clã dos assuntos governamentais,
destituir ministros ideológicos, combater o coronavírus ao lado da
ciência, usar o diálogo e a moderação. Outra, os militares mais
diretamente engajados retirarem o seu apoio, com as Forças Armadas
deixando claro que não pactuam com a polarização atual. Exerceriam a
responsabilidade que lhes cabe, dada a sua participação. Ou o
impeachment como solução última.
A pior saída seria nada acontecer: um governo incapaz de seguir com o
seu programa de reformas e o presidente, um “pato manco”, no meio da
algazarra de seus filhos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário