Como muitos sabem, sou médico residente de último ano de Cirurgia Plástica,
mas faço plantões extras como cirurgião do trauma. Segue um breve relato do
cotidiano de um médico plantonista.
Baixada fluminense, garota de 16 anos,
lesão craniana por arma de fogo, com perda de massa encefálica. Atendimento em
sala de trauma, via aérea assegurada por intubação orotraqueal, reanimação
volêmica. Parada cardiorespiratório por 3x revertida c massagem cardíaca e
drogas vasopressoras. Paciente estabiliza hemodinamicamente. Verifico pupilas
dilatadas não reagentes ao estímulo, assim como os demais reflexos tronco
encefálicos ausentes. Hospital onde estou não há exames complementares para
falência encefálica, não suporta procedimento de retirada de orgãos. Ligo para
central de transplantes do estado do Rio de Janeiro. Todos os números possíveis,
sem sucesso. Sequer uma gravação. Família em desespero n entendendo a situação,
porém demonstrando desejo de doação de orgãos. Sigo tentando contato para
iniciar protocolo de captação dos orgãos.
4h depois do primeiro contato, sim
Quatro horas, sou atendido por uma reguladora, felizmente muito solicita. A
mesma pede que eu entre em contato com o hospital referência para captação e
solicite vaga, pois através da central não teriamos sucesso. Então 3h após o
primeiro contato com o tal hospital, após mandar fax e praticamente implorar,
tenho vaga negada.
Pcte evolui com instabilidade hemodinâmica mesmo em bomba
de infusão de vasopressores. Nova parada cardíaca. Reanimamos pela 4ª vez,
mantemos o coração batendo, estabilidade hemodinâmica. Após 5h consigo leito
para transferência, animação da equipe, seria a primeira vez que a equipe do
hospital veria um processo de sucesso de captação de orgãos, vencemos o sistema
... acende uma centelha de esperança na equipe.
Porém, não há no município em questão ambulância equipada para transporte
avançado. O tempo corre. Perdemos a vaga. Paciente pára pela 5ª vez.
Procedimento de reanimação desta vez sem sucesso.
Frustração generalizada da
equipe.
Converso com familiares, todos inconsoláveis. A falta de tudo. O
sistema, a desorganização generalizada da saúde pública, o descaso dos gestores
privaram nos do sucesso. Privaram a família de perpetuar a memória da menina,
disseminando vida a outros doentes em fila de espera. Uma ambulância. Uma vaga.
Um sistema que não te ajuda. Dramático, não?
Realidade cotidiana.
Sistema público de saúde colapsado. Estado colapsado. Me bastava uma
ambulância igual as da Arena Pantanal, ou do Estádio Itaquerão. Me bastava a
vontade de fazer dos hospitais algo tão funcional quanto um estádio da Copa. Uma
refinaria no valor de 48 milhoes comprada pela Petrobras, estatal, por 1bi. Um
bilhão menos quarenta e oito milhões. A diferença igual ao valor roubado dos
contribuintes brasileiros. O lucro dos envolvidos igual ao rombo nos cofres
públicos. Falta tudo ao povo da baixada fluminense, do agreste, da vila Areia em
Porto Alegre. Falta ambulância, falta vaga em hospital. Falta discernimento para
compreender o que representa o caso Passadena na vida deles. Sobra discernimento
aos políticos em como ludibriar o povo. Vide o pequeno "engano" do Instituto de
Pesquisa Econômica Avançada, eclodiram passeatas feministas (com razão) contra o
estupro. Pena que a pesquisa estava errada, pena que aparecem fatos como este
para abafar os escandalos da Petrobras. Pena que eu vejo esses descasos aos meus
pacientes sozinho. Pena que boa parte do eleitorado brasileiro não entende tudo
isso.
Neymar, desculpa, mas vou torcer pro Messi. Ronaldo desculpa, mas eu
quero hospitais. Dilma, desculpa, mas vou lutar dia a dia para tirar votos do
seu governo, no metro, no hospital, no elevador, no facebook.
Chato é não
tentar.
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