Democracia é quando o Supremo manda nos idiotas (nós)
Os partidos estão estrangulados; o Legislativo, desrespeitado de todas as maneiras possíveis. A discussão política está criminalizada. Mas ainda bem que temos democracia, porque o Supremo manda em nós e democracia agora é isso. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
O
leitor não sabe o que é democracia? Democracia é quando o Supremo
(Tribunal Federal) manda e os idiotas obedecem. Há algum tempo atrás,
achava-se que nós, os idiotas, tínhamos direito a nos associar em
partidos políticos e a votar em representantes. Mas vocês sabem como é: o
povo não desconstruiu os preconceitos, vota em populistas de extrema
direita, pratica discurso de ódio. Se o leitor não acredita, eu provo
agora. Você, homem, gosta de mulher? Então você se sente no direito de
dizer que não gosta de ter contato sexual com pênis alheio, não é? Pois
bem: tem que desconstruir essa transfobia. O Supremo decidiu que
transfobia é crime. Mulheres com pênis também são mulheres; negar isso é
transfobia. Assim, é bom se emendar logo, se desconstruir, senão o
Supremo te pega numa esquina da internet, em flagrante perpétuo. Macho
que é macho gosta de mulher, tenha ela um pênis ou não. E gay que é gay
tem que gostar de vagina, sim, se for a vagina de um homem trans.
Há
muito o que desconstruir. Segundo uma lenda datada, o Brasil tem três
poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Os dois primeiros
são eleitos; o último é que não. Por isso mesmo, o último não carrega a
mácula de ter sido escolhido pelos idiotas e pode se portar como sua
(nossa) palmatória. Só ontem, o Judiciário deu dois tapas na cara do
Legislativo: em Curitiba, descassou
o mandato do vereador Renato Freitas. Em Brasília, os ministros
convidados deixaram o Senado a ver navios após serem convidados a
responder sobre o ativismo judicial. O convite havia sido feito pelo
senador Girão, do Ceará. Após o bolo, o senador tuitou: “ ‘SUPREMACIA’
SEM APREÇO AO PAÍS: Ministros Barroso e Moraes faltam a debate público,
ignorando juristas na audiência histórica sobre ativismo do STF.
Preferem palestras no exterior a dialogar no Senado brasileiro. Irei no
caminho oposto: escalada democrática! Já tem outra reunião aprovada. Paz
e bem!” (ajeitei a escrita truncada para caber nos limites de
caracteres).
Paulo Eduardo Martins, deputado federal pelo Paraná, também fez um comentário certeiro: “Afinal, em termos de importância, o que é o Senado brasileiro diante de uma live com o Felipe Neto?”
Somos todos Felipe Neto
De
fato, o Supremo tem suas preferências. O povo altivo não pode lhe
cobrar satisfações por meio dos seus representantes eleitos – os
senadores. Mais apropriado é ir para os EUA e para a Europa ficar
palestrando às elites sobre as ameaças populares à democracia. Mais
apropriado é participar de live com o imitador de focas infantojuvenil.
Ainda assim, volta e meia o Supremo se manifesta pelo Twitter a fim de
esclarecer a plebe.
A última foi um videozinho ao estilo Tik Tok.
O texto dizia: “Tá na dúvida sobre o que é liberdade de expressão ou
discurso de ódio? A gente te ajuda”. Abaixo, uma mulher adulta,
portadora da mesma idade mental duvidosa que Felipe Neto, decidia se ia
para a esquerda ou para a direita. À esquerda, no topo, estava o dizer
“discurso de ódio”; à direita, “liberdade de expressão”. No centro, na
altura da barriga da mulher, aparecia a coisa a ser categorizada. A
categorização era expressa pela caminhadinha, feita com caras e bocas.
Eis as categorizações:
1) Discurso de ódio: propagar fake news; intolerância religiosa; preconceito racial; homofobia; manifestação de ódio.
2)
Liberdade de expressão: respeitar a opinião alheia; manifestar sua fé;
defender posicionamentos políticos; repassar informações verdadeiras.
Só
mesmo gente com uma cabeça de Felipe Neto para aceitar que o vídeo
tenha esclarecido algo. Todo Natal, as redes sociais ficam cheias de
gente manifestando ódio às passas. No zap-zap, um sem número de
“fenômenos sobrenaturais” completamente destituídos de aspecto político
são repassados (eu mesma dei uma de faquichequer ao receber imagens de
um homem que vendera a alma ao diabo e por isso andava entre os carros
sem projetar sombra. Era só olhar com atenção que se enxergava a sombra
fininha do homem; as sombras dos carros são mais visíveis por eles serem
mais largos.) Agora há pouco apareceu no meu feed uma manchete da Folha
segundo a qual Jorge Vercillo refuta Darwin e “nós” (quem?) somos
extraterrestres. Se aceitássemos o videozinho como jurisprudência,
entenderíamos que vídeos de chupa-cabra, diatribes natalinas contra as
passas e teorias extravagantes de celebridades são discurso de ódio. Mas
sabemos – eu, você e o STF – que não é assim. Portanto ou o STF mente,
ou eu sou uma idiota por não conseguir apreender a sua lógica.
Eu,
você e o STF sabemos que as categorias de "posicionamento político" e
"racismo" não são mutuamente excludentes (o nazismo era um
posicionamento político racista); "manifestação religiosa" e "homofobia"
tampouco são mutuamente excludentes. Algumas manifestações políticas
infringem normas criadas por legisladores eleitos brasileiros e bem
aceitas pela sociedade brasileira: vide o caso da criminalização do
racismo, pisoteada pela decisão do STF que permite cotas raciais.
Algumas
manifestações políticas, porém, não infringem tais leis ("leis do
legislativo", digamos), mas infringem a "jurisprudência do STF" (ou
antes "lei do judiciário"). Esse é o caso da criminalização da
homofobia. Na verdade, antes da canetada do STF, entendia-se como
consequência legítima da liberdade religiosa o direito a condenar o dito
"comportamento homossexual" dentro das igrejas. Condenação, aliás,
milenar, enraizada na própria religião que deu origem ao nosso povo. Com
que legitimidade o Supremo impõe de cima a baixo as suas convicções
minoritárias e elitistas?
De
todo modo, em nenhum caso listado no vídeo se encontra a situação de
Daniel Silveira. Colocar-se a favor do AI-5 e do fechamento do STF é
adotar um "posicionamento político". Este não é nem racista, nem
homofóbico, nem afirma nenhum fato, de modo que tampouco é fake news.
Caso se queira dizer que esse posicionamento político é fruto de ódio,
resta perguntar se por acaso o Supremo não odeia todos aqueles que
considere “radicais de extrema direita”.
Last,
but not least, reafirma-se o Ministério da Verdade. Se o Supremo
considera “discurso de ódio” toda informação falsa, e “liberdade de
expressão” toda informação verdadeira, resta concluir que seus ministros
têm sozinhos o poder de discriminar o que é verdadeiro e falso. Toda
investigação científica ou jornalística poderá ser criminalizada ex post
facto, já que no fim do processo investigativo descobre-se que alguém
(às vezes o próprio cientista ou jornalista) adotara uma hipótese falsa.
Se eu afirmei algo falso no passado, que todo o mundo achava ser
verdadeiro (por exemplo, que o vírus da Covid só podia ter origem
natural), isso faz de mim, e de todo o mundo, uma criminosa. O Supremo
é, mesmo, o Onisciente, pois não está sujeito ao erro.
Como é Onisciente, nada mais justo que nos tomar por um bando de Felipes Netos.
O que querem?
Creio
que o canadense Mathieu Bock-Côté tenha sido bastante esclarecedor ao
descrever o cenário com o qual estamos lidando: Ocidente afora, há um
golpe em curso, no qual as elites trocam sorrateiramente a democracia
liberal pela dita democracia diversitária. Nesta, não se admite a
legitimidade da vontade popular; fala-se somente em termos de direitos
fundamentais a serem assegurados por juristas de plantão. Diz ele: “A
legitimidade democrática passaria, a partir de agora, por um
reconhecimento da soberania do direito. Ainda mais porque os direitos
vêm legitimar, na prática, um vasto empreendimento de engenharia social a
ser exaltado, em oposição às instituições, tradições e aos costumes.
Embora a soberania popular não tenha sido oficialmente abolida, é claro,
encontra-se agora reduzida a uma porção mínima do poder político e já
não está investida de nenhuma carga existencial. O poder democrático é
condenado à impotência. Um constitucionalismo […] será chamado a exercer
uma soberania sobrepujante sobre o corpo social, justamente para
pilotar sua transformação igualitarista na linguagem do direito. […] Uma
mudança de regime se realiza, sorrateiramente” (O multiculturalismo
como religião política, p. 182).
Os
partidos estão estrangulados; o Legislativo, desrespeitado de todas as
maneiras possíveis. A discussão política está criminalizada. Mas ainda
bem que temos democracia, porque o Supremo manda em nós e democracia
agora é isso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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