A incerteza científica faz absolutamente parte da ciência, especialmente
em relação a um novo vírus. Quanto mais o tempo passa, mais clara se
torna a imagem dele. Artigo de Tommaso Scandroglio, traduzido para a Gazeta do Povo:
Covid-19 é um vírus 100% natural, um vírus biológico. Na verdade não,
talvez tenha sido criado em laboratório. No verão é menos virulento,
mas não é certo. Ele voltará no outono, mas alguns dizem que, como seus
primos, ele morrerá em breve. A principal fonte de contágio são as vias
aéreas. Por outro lado, as mãos são a principal fonte de contágio. Em
algumas superfícies, o vírus sobrevive por 72 horas. Bobagem: o vírus,
embora presente, perdeu carga viral. Melhor ainda: ele morre logo
depois. Gatos podem ser infectados. Mas não é certo.
Aqueles que adoeceram desenvolvem anticorpos e ficam imunes. Não, não
é verdade, pelo menos não em todos os casos. Se houver imunidade, não
vai durar muito, mas talvez possa durar anos. Somente os sintomáticos
podem transmitir o vírus. Talvez até os com sintomas leves. Não. É
evidente que a transmissão também ocorre com os pré-sintomáticos e
assintomáticos, sem mencionar o pós-sintomáticos, mas não se sabe por
quanto tempo. Cloroquina funciona. Verdade, mas nem sempre. A vacina
chegará em anos. A vacina chegará mais cedo do que você pensa, mas
cobrirá apenas uma cepa. Mas quantas cepas esse vírus possui?
Esse poderia ser um resumo, grosso modo, do debate científico em
andamento sobre a Covid-19. Devemos ficar escandalizados? Não. A
incerteza científica faz absolutamente parte da ciência, especialmente
em relação a um novo vírus. Quanto mais o tempo passa, mais clara se
torna a imagem dele.
Mas esse rol de afirmações muitas vezes contraditórias nos faz
entender bem os pontos fortes e fracos, a validade e os limites do
conhecimento científico. Uma busca que, por sua natureza, só pode
prosseguir por tentativa e erro, dando um passo atrás depois de dar dois
passos adiante, corrigindo e negando a si mesma.
Repetimos: não devemos nos surpreender. Em vez disso, devemos ficar
surpreendidos com aqueles que consideram o conhecimento das ciências
naturais como algo sempre objetivo, válido, certo, irreformável e
irrefutável. Em suma, ai de quem pensar - de acordo com a moda
científica de hoje - que “se a ciência diz é absolutamente verdade”.
O tema é muito vasto e vai muito além das habilidades deste escritor,
mas gostaríamos de fazer algumas reflexões que - temos consciência
disso - mereceriam distinções e esclarecimentos adicionais e numerosos.
O objeto das ciências empíricas são as realidades sensíveis, que são
dados (objetivos), e as leis que governam os entes, que também são
objetivos. São estes os objetos autênticos das ciências naturais que
sempre procuram constantes (leis) no mundo sensível.
De fato, não existem apenas os entes, mas também as leis que os regem
e que têm sua própria estabilidade. As leis codificam certos aspectos
dos entes, como elementos, princípios, propriedades, dinâmicas,
funções-fins, causas, etc. O método usado é, na maior parte, indutivo:
parte das realidades particulares para as leis universais.
Um glossário mínimo antes de continuar. Por conhecimento válido,
entendemos conhecimento verdadeiro, ou seja, os dados conhecidos que
correspondem ao real: o intelecto se adapta ao real. Por conhecimento
certo, entendemos o consentimento da mente com a verdade conhecida
(observe bem: pode-se ter certeza de uma "verdade" que na realidade não é
assim e, portanto, ter certeza de um dado conhecido que é errôneo). E
assim se pode conhecer uma verdade, mesmo que em modo duvidoso. Por
conhecimento perfeito ou completo, entendemos um conhecimento exaustivo
da realidade.
Por um lado, o conhecimento científico pode ser válido, ou seja, o
que eu sei pode ser verdadeiro porque se baseia na capacidade objetiva
dos sentidos e da inteligência de conhecer entes particulares, que por
si são objetivos. No caso do conhecimento científico, a inteligência
recebe informações dos sentidos que se aplicam a entes particulares e
que por um caminho muito difícil - porque é sistemático, complexo e
rigoroso - tentam traçar algumas leis (científicas) comuns a muitos
entes ou fenômenos.
Os dados científicos podem, então, estar certos (é certo que o Sol
está no centro do nosso sistema planetário), porém - como veremos -
embora válidas e certas, as informações científicas estão sempre
incompletas: eu posso conhecer realmente e com certeza apenas uma fatia
da realidade, mesmo de um único ente particular.
Por outro lado, o conhecimento científico tem limites quanto à sua
validade, ao grau de certeza e à completude. Vamos analisar apenas
alguns desses limites nesses três aspectos. No que diz respeito à
validade, primeiro os sentidos podem transmitir informações falseadas.
Em segundo lugar, a inteligência pode errar, não por si, mas por
acidente: um erro de cálculo, de entendimento, etc. Em terceiro lugar, a
imperfeição diz respeito às ferramentas de investigação: uma calibragem
defeituosa, um teste impreciso, etc. Quarto, a realidade empírica é
particular e corruptível, portanto, ela muda.
A partir disso, conclui-se que esse ente particular, conhecido agora,
realmente e certamente tem esses elementos, funções, etc., mas por
serem elementos, funções, etc. ligados a um ente específico, pode ser
que eles não digam respeito a outros entes particulares pertencentes ao
mesmo gênero.
Por exemplo, a Covid-19 faz parte da família dos coronavírus. Daí a
pergunta: quanto ela tem em comum com os outros coronavírus e quanto tem
de diferente? Depois, há a mudança cronológica das realidades
empíricas, especialmente as orgânicas. Em outros termos: esse vírus
muda? O que considerei válido ao estudar o vírus em janeiro ainda é
válido hoje?
Os limites da ciência também dizem respeito ao grau de certeza que
não pode ser supremo. Por exemplo, agora sabemos com certeza que mesmo
os assintomáticos podem ser contagiosos, mas não sabemos ao certo se
isso acontece nos três dias anteriores aos sintomas. A dúvida continua.
A exaustividade do conhecimento também é limitada e, nesse caso,
necessariamente. Nunca se poderá conhecer perfeitamente todas as
propriedades desse vírus, mas isso não significa que não possamos saber
nada sobre ele.
E, portanto, o cientista pode conhecer validamente, com certeza,
embora limitadamente, uma realidade empírica. Assim como ele pode
conhecer algo caindo em erro, ou mesmo pode estar em dúvida, não
escapando do conhecimento inevitavelmente incompleto. Em suma, o
conhecimento científico, como o conhecimento natural de cada um de nós,
pode ser verdadeiro, mas também pode ser falso; pode ser certo ou
duvidoso. Mas, em qualquer caso, será sempre conhecimento incompleto.
Tommaso Scandroglio é membro da
Sociedade Italiana de Filosofia Moral, da Sociedade Italiana de
Filosofia do Direito e do Centro Interuniversitário para Estudos de
Ética da Universidade Ca’ Foscari de Veneza.
© 2020 La Nuova Bussola Quotidiana.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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