Em 11 de março de 2002, Marina Silva, senadora ainda pelo PT do Acre, fez um longo discurso atacando os alimentos transgênicos. O que mais surpreende é que em assunto que envolvia
tanta tecnologia de ponta e tanta pesquisa pura, a senadora encerrou a
sua manifestação buscando na Bíblia as justificativas para a não
liberação do plantio de sementes geneticamente modificadas, que, 12 anos
depois, colocam o Brasil como o segundo produtor mundial do mundo e um
dos grandes responsáveis pela segurança alimentar do planeta. Leiam com
atenção:
Sr. Presidente, concluo meu raciocínio fazendo uma breve
reflexão sobre o brilhante artigo de Eduardo Galeano, que, ao dizer que a
natureza está fora de nós, afirma que em seus dez mandamentos Deus se esqueceu
de mencionar a natureza.
Dentre as leis que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor
deveria ter acrescentado algo assim: Honrarás a natureza de que fazes parte. Se
Galeano tivesse lido o Pentateuco mais atentamente, teria percebido que não se
trata de desatenção de Deus em relação ao meio ambiente. Mentalmente, quando li
esse texto, consegui lembrar-me de, pelo menos, cinco referências bíblicas em
que Deus é altamente zeloso com o meio ambiente.
Em Gênesis 21,33, o próprio Patriarca Abraão, com mais de 80
anos, resolve plantar um bosque. Quem planta um bosque com quase 100 anos está
pensando nas gerações futuras, que têm direito a um ambiente saudável. Era esse
o significado simbólico do texto.
No Êxodo 22,6, há determinação explícita no
sentido de que quando alguém atear fogo a uma floresta ou bosque deverá pagar
tudo aquilo que queimou. Talvez essa regra seja mais rigorosa do que as do
Ibama.
Com relação aos transgênicos, o livro Levíticos 22,9 expressa claramente
que não se deve profanar a semente da vinha e que cada uma deve ser pura
segundo a sua espécie.
Tendo em vista o lado espiritual, esse raciocínio não
convence. Todavia, considero fundamentais os argumentos elencados,
principalmente o de que as empresas se floreiam de verde para vender os seus
venenos com uma cosmética melhor para o povo. O argumento de que essa medida
servirá para combater a pobreza e a fome não procede, porque dois bilhões de
seres humanos continuam passando fome e mais de um bilhão vivem abaixo da linha
da pobreza e não sabem sequer o que comerão durante o dia.
Se colocássemos em prática um único mandamento, que é “amar
a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”, não faríamos o que
fazemos com a natureza nem com o homem. Preservaríamos a natureza, porque sem
ela não podemos reproduzir a vida. Ela é o nosso Jardim do Éden.
Mas esse é um discurso para outra oportunidade. Apenas
ressalto que o Congresso Nacional não pode embarcar nessa “canoa furada”,
acreditando que aprovar sem nenhum cuidado a liberação dos transgênicos é dar
uma grande contribuição ao desenvolvimento econômico, à ciência, ao combate à
fome e à pobreza.
Essa medida pode ser adequada ao lucro imediato de meia
dúzia de pessoas que gostariam muito dessa consequência, talvez sacrificando,
como sempre digo, recursos de milhares de anos em prol dos lucros de apenas
cinco ou dez anos.

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