A controvérsia sobre a camada social que melhorou de
vida está presente até no debate eleitoral. Classe C é classe média?
Marcelo Camargo/ABr

A mudança de vida dos membros da "nova classe média" está mais associada a um maior poder de compra do que a valores tradicionais da classe média
A redução da pobreza brasileira
neste século fez da classe C a maior do País. Com base em critérios de
renda, o grupo engloba atualmente algo como 110 milhões de pessoas, de
uma população
total estimada há pouco pelo IBGE em 202 milhões de habitantes. Esta
numerosa classe costuma ser chamada por autoridades e analistas como
“nova classe média”. Não existe, porém, consenso em torno da
catalogação. É uma controvérsia inclusive com impacto na eleição
presidencial.
Ex-presidente do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada, o economista Marcio Pochmann é um dos
questionadores do rótulo. Ele é autor de um livro lançado recentemente
cujo título é explícito na contestação, O Mito da Grande Classe Média.
A tese da obra é simples. “Classe média” é uma
expressão historicamente utilizada para definir a estrutura produtiva de
uma sociedade. Abrange profissionais liberais, empreendedores,
executivos de escalão intermediário das empresas. Deste ponto de vista,
não houve mudança significativa no País na última década. Os 40 milhões
que saíram a pobreza rumo à classe C são de outra natureza.
Beneficiários do Bolsa Família
e, mais do que tudo, trabalhadores: de fábricas, lojas, obras de
construção civil. De 2003 para cá, foram abertas 20 milhões de vagas com carteira assinada, segundo dados oficiais.
A categorização dos brasileiros por nível de renda
ajuda a afastar a hipótese de o País contar com uma “nova classe média” -
ao menos, daquela noção comum sobre o que é ser “classe média”. Das
pessoas com 15 anos ou mais e que têm rendimento, 68% vivem com até dois
salários mínimos mensais, segundo Pochmann. Algo em torno
de 1,5 mil reais. Não é uma renda a ser associada a usos e costumes da
classe média típica, como jantar fora, trocar de carro com frequência ou
passar as férias no exterior.
A discussão sobre a natureza da classe C ampliada não é
um capricho acadêmico. Tem repercussão nos rumos do País, como se
observa na campanha presidencial. Marina Silva (PSB) e Aécio Neves
(PSDB) possuem programas liberais, a defender a menor participação do
governo na economia. “Se o que há é uma nova classe média, o papel do
Estado perde importância, pois a classe média tradicional não precisa do
Estado”, diz Pochmann. “Mas se o que existe são mais trabalhadores, o
Estado ganha importância, porque trabalhador precisa de serviços
públicos.”
A autoimagem feita pelos novos integrantes da classe C
também parece afastá-los da noção comum de “classe média”. É uma das
constatações de outro livro lançado há pouco, Um País Chamado Favela,
resultado de um mapeamento com dois mil moradores de 63 comunidades. Um
dos autores é Renato Meirelles, diretor do Datapopular, instituto de
pesquisas especializado nos brasileiros emergentes.
Os recém-chegados à classe C demonstram ter valores
distintos dos professados pelas pessoas já nascidas na classe média. A
identidade do grupo está ligada a certos bens materiais (roupas, bolsas,
celulares) e comportamentos (gosto pelo funk ostentação), e não à
partilha de uma mesma visão de mundo. E acreditam que têm e tiveram de
“ralar” para subir na vida, ao contrário da classe média tradicional.
“Eles valorizam a própria história, tem orgulho da origem. Querem ser
ricos, mas não querem ser como os ricos”, afirma Meirelles.
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