A esquerda está exultante e a direita, aliviada: um primeiro-ministro ousado e hesitante, brilhante e patético, tem que deixar a política seguir seu curso. Vilma Gryzinski:
Como
todo sistema político, o parlamentarismo tem vantagens e desvantagens.
As vantagens estão sendo vistas agora na Inglaterra: quando um líder
político se torna inviável, seu próprio partido se rebela e resolve o
assunto internamente. Manter um corpo em putrefação se torna um ônus
insuportável quando os parlamentares constatam que não só o partido
será varrido do poder quando houver eleição, como eles próprios estão
com a cabeça a prêmio.
(As
desvantagens são vistas em Israel: com a fragmentação partidária,
ninguém consegue uma maioria sustentável e o país entra no modo Dia da
Marmota, com eleição atrás de eleição, sempre repetindo o mesmo
resultado inconclusivo).
O
esfacelamento público de Boris Johnson segue o princípio
parlamentarista: por mais que tente se agarrar ao cargo, acabou o
terreno para manobrar, cooptar, teimar, desviar-se dos golpes e, na
última hora, sobreviver. Como ele não é um presidente, escolhido pelo
voto direto, fica mais fácil desacoplá-lo do cargo, apesar de toda a
resistência.
Trinta
e oito integrantes do governo já haviam pedido demissão desde ontem,
quando o último escândalo menor virou um caso maior por revelar o maior
problema de Boris: uma relação elástica com a verdade.
Sem
nenhuma necessidade, ele disse que ignorava os problemas de assédio
sexual que cercavam o vice-líder do Partido Conservador, Chris Pincher,
que passou a mão em dois homens num clube fechado. Realidade fática: há
dois anos e meio um relatório enviado ao primeiro-ministro relacionava
os desvios de comportamento que deveriam ter encerrado a carreira de
Pincher em qualquer governo.
O
caso refletiu um conhecido modus operandi de Boris. Primeiro, alegar
que nada aconteceu, depois dizer que foi uma escorregadela, uma falta de
lembrança ou alguma outra desculpa esfarrapada. Terminar pedindo
desculpas quando sua integridade, ou caráter, já se transformaram no
centro da questão.
Imaginem um povo que exige integridade de seus governantes…
Ninguém
jamais contestou a integridade de Margaret Thatcher, de Gordon Brown ou
de Theresa May, chefes de governo que também caíram em desgraça em seus
próprios partidos. Todos honestos, eles exemplificam o instinto de
autopreservação que baixa nos parlamentares quando a coisa fica feia.
A
eleição geral no Reino Unido será apenas em 2024, mas arrastar Boris
até lá passou a ter um preço exorbitante. Obviamente, se a economia
estivesse bombando, a gasolina barata e a inflação desprezível, tudo
seria diferente. Como não estão, os defeitos de caráter de Boris
ganharam um
peso insuportável.
As
renúncias em massa foram simplesmente sem precedentes. As cartas de
demissão dos dois principais ministros que caíram fora, Rishi Sunak, do
Tesouro, e Sajid Rajiv, viraram granadas de mão que explodiram no colo
de um Boris escoladíssimo em escapar de armadilhas políticas que tentou
disfarçar o aturdimento usando suas armas de sempre: eloquência, uma
boa – embora desacreditada – imitação de sinceridade e até evocações dos
grandes clássicos.
“Foi
Cícero?Aristóteles? Ah, Montesquieu?”, fingiu não saber quando um
parlamentar do comitê que planejava levá-lo à forca metafórica mencionou
uma frase dele mesmo sobre o funcionamento do governo.
Fazer
citações em grego e outras exibições de erudição sempre foram parte do
charme de Boris. Em vez de tentar disfarçar a educação mais elitista que
existe – Eton e Harvard -, como fazem outros políticos conservadores,
ele misturava seus arroubos retóricos com uma persona pública saída da
Comedia Dell’Arte, um bufão despenteado que conquistou a simpatia do
povão quando foi prefeito de Londres.
Não
é qualquer um que é chamado pelo primeiro nome na política britânica,
com uma sociedade onde a estratificação social é profundamente
entranhada. Nem no Partido Trabalhista, que está em festa com a
derrocada de um raro nome dos quadros conservadores capaz de ter um
canal direto com as camadas menos privilegiadas, isso é comum.
Até
a vida amorosa complicada, com tantos casos extraconjugais que nem dá
para cravar quantos filhos tem, não atrapalhou Boris. Seu terceiro
casamento, com a jovem e politicamente ligada Carrie, louca para
interferir no governo como – comparação inevitável – uma Lady Macbeth
vegana, não foi exatamente um motivo de alegria para os dirigentes do
partido, mas seria absorvido em condições diferentes.
Para
os conservadores de raiz, que sempre desconfiaram das simpatias
ideológicas de Boris, ele ganhou uma tremenda quantidade de crédito
quando fez o que Theresa May não conseguiu e arrancou o complicado
processo que finalmente selou o Brexit.
A
ousadia para fazer o que a antecessora – devidamente esfaqueada – não
havia conseguido foi uma exceção para um político ioiô, que vai e volta
diante de decisões complicadas. E nenhuma foi mais difícil do que
definir as políticas públicas quando o mundo foi assaltado pelo
coronavírus de uma forma sem precedentes na era contemporânea.
As
hesitações aumentaram a ansiedade da população e só foram compensadas
pela forma brilhante como o mundo científico, o empresarial e o político
se combinaram para produzir uma vacina contra a praga e, pioneiramente,
aplicá-la no braço de quem precisava.
O
mesmo impulso arrebatador levou Boris a abraçar apaixonadamente a causa
da Ucrânia – e a ser o primeiro líder da Europa Ocidental a ir faturar
uns pontinhos ao lado de Volodimir Zelenski em Kiev. Boris virou nome de
rua em Odessa e uma receita de croissant, com uma esguichada de creme amarelo no topo, na capital ucraniana.
Boris
ganhou a maior maioria parlamentar para os tories, como são chamados os
conservadores, desde Margaret Thatcher, uma conquista tão formidável
que se tornou um obstáculo na hora em que os correligionários se uniram
para dizer: não dá mais, acabou.
Antes
de Boris admitir a crua realidade dos fatos, os candidatos à sucessão
já estavam enfileirando forças. A mulher de Rishi Sunak, a
multimilionária Akshata Murty, saiu de cozinha com uma bandeja para
servir chá e biscoitinhos aos repórteres que acampavam em frente a casa
do casal. Ela virou um
problema para o marido quando foi revelado que continuava a ter
domicílio fiscal na Índia, uma desmoralização para o chefe da economia,
mas o jogo foi zerado.
Rishi
é um dos três políticos de origem oriental que aspiram ao posto máximo.
Seu sucessor, Nadhim Zahawi, curdo iraquiano que emigrou com a família
quando criança, é outro, juntamente com Sajid Javid, de origem
paquistanesa, que deixou a pasta da Saúde com palavras cortantes.
Uma
série de eleições internas no Partido Conservador determinará quem será
o sucessor: cada uma vai eliminando o menos votado, como na escolha dos
papas ou do vencedor do Big Brother, até que sobrem os dois candidatos
finais.
Os
principais aspirantes não chegam nem perto de Boris em matéria de
projeção ou de capacidade de criar controvérsias. Para o Partido
Conservador, será um alívio e tanto. Depois de Boris Johnson, ter um
primeiro-ministro “normal”, qualquer um, soa como um avanço.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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