Sem riscos de guerras nem consumo exagerado, o planeta repousa nas mãos de nova espécie sem anseio destrutivo. Luiz Felipe Pondé via FSP:
Como tratar de um romance que você acha essencial sem dar spoiler?
Esta questão tem me acompanhado, especificamente, no caso de um romance
que, suspeito, acertou em grande medida o que será nosso futuro, se a ciência chegar aonde queremos que chegue e realize nossos mais escondidos sonhos utópicos.
Talvez
tenha achado a solução. Discutir a utopia realizada no romance —que,
devido à alta qualidade do autor, é descrita em poucas páginas da obra,
mas de forma definitiva—, avançando suas características e consequências
sem entrar no mérito do enredo em si.
Se
você reconhecer o romance porque já o leu, tudo bem. Estamos entre
iguais. Mas não vá você dar spoiler no painel do leitor. Se não o
reconheceu e se interessar, pergunte ao Google.
Todos
imaginamos que processos científicos disruptivos —adoro essa palavra
fetiche do mercado de picaretas motivacionais— são levados a cabo por
pessoas motivadas em avançar a ciência em favor da humanidade. No caso
do romance, o brilhante cientista é um deprimido profundo, sem nenhuma
esperança e sem qualquer vida afetiva.
Suspeito
que ninguém possa ter capacidades cognitivas superiores sem que elas
derivem de sintomas psíquicos graves. O que não significa que todo mundo
com problemas mentais tenha tais capacidades, a maioria é só uma vítima
de seu quadro clínico.
As pesquisas em biologia molecular
do nosso personagem deprimido o levam a descobrir que todos os males
humanos —doenças, envelhecimento, morte, desencontros do desejo,
instabilidades sexuais, sociais e tristezas decorrentes de tudo isso
tudo— são consequências da reprodução cruzada humana e da meiose a ela
associada —meiose é o processo de divisão celular das células
reprodutivas.
Sem
entrar aqui no mérito técnico das diferenças entre mitose e meiose —de
novo, o Google explica—, o fato é que a reprodução dos gametas sexuais
via meiose gera instabilidade e essa instabilidade, trazida pela diferença envolvida nos gametas masculinos e femininos, causa todos aqueles males descritos acima e que todos conhecemos, segundo estudos de nosso gênio deprimido.
A ficção científica
envolvida na trama é a descoberta de que, uma vez que o ser humano
reproduza celularmente só via mitose, todas as suas células serão sempre
iguais a si mesmas. Portanto, não haverá instabilidades introduzidas
pelas diferenças entre os sexos que reproduzem a espécie.
Enfim,
a humanidade "evolui" para seres assexuados imortais, todos iguais, nem
homens, nem mulheres —logo, os agêneros e assexuados venceram a
polêmica idiota dos gêneros— que podem ou não ser gerados em quantidades
maiores ou menores pelas farmacêuticas a partir de acordos
multilaterais entre os países ricos —os pobres e fundamentalistas,
isolados em reservas, ainda permanecerão um tempo reproduzindo via sexo
entre homens e mulheres, até a extinção do homo sapiens sexuado e
infeliz atual.
O
romance é escrito por um desses nossos "descendentes", já da outra
espécie, que dedica o livro ao homo sapiens, esse infeliz. A única
espécie que chegou à conclusão de que seria melhor extinguir a si mesma
para fazer evoluir o mundo.
O
mundo agora é feliz. Para além de todas as mentiras comuns em nossa
época, a metafísica contemporânea sai do armário nessa obra: o que está
em jogo é suprimir a morte material a todo custo, o resto é propaganda
enganosa. Não existem mais famílias, a nova espécie não tem sexo nem
gênero. Não há desejos, não há dependências afetivas, ninguém envelhece
nem adoece, ninguém "quer" nada. O nirvana de fato aqui e agora. Nem
heranças, nem inventários.
Os
problemas são outros. Se ninguém morre, como decidir fabricar mais
gente? Quem decide? Quem interdita? À medida que a biotecnologia em jogo
se torna mais barata, a questão é como controlar a possível
"democratização" desse processo e a explosão populacional de imortais
sem nenhum desejo.
Sem
riscos de guerras nem consumo exagerado, o planeta repousa nas mãos de
uma nova espécie sem nenhum anseio destrutivo. A depressão como paraíso.
Enfim, uma mudança de ares.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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