Cobiça de prêmios
literários é confissão de vulgaridade, mesmo em autores que ganharam
muitos. Artigo de João Pereira Coutinho, publicado pela FSP:
Escritores: haverá raça mais abençoada e mais patética? Talvez não.
Tempos atrás, recebi
um livro de um autor conhecido com uma dedicatória hiperbólica à minha
pessoa. Estranhei. Não conhecia pessoalmente a criatura e já tinha
escrito sobre ela em termos particularmente severos. Ali estava uma
prova de "fair play" que me envergonhava profundamente: cresce e
aparece, João.
Semanas depois, o
editor de um jornal português enviava-me o mesmo livro —sem dedicatória,
claro— perguntando se eu queria escrever a crítica. Segundo me
disseram, o autor fazia questão que fosse eu debruçar-me sobre a sua
prosa.
Sorri
melancolicamente. O mundo ainda era um lugar previsível. E declinei o
convite. A crítica lá apareceu, escrita por um colega de ofício, com
elogios de fazer corar Narciso "lui même". Tudo está bem quando acaba
bem, certo?
Certíssimo. Mas a
minha desilusão não lidava com a hipocrisia do sujeito. Lidava apenas
com a preguiça dele em não disfarçar um pouco, o que não deixava de ser
um insulto à minha inteligência.
Vaidades todos temos.
Inseguranças, também. Mas, nestes casos, é sempre bom aprender com os
mestres: quando "No Caminho de Swann" apareceu na França, Marcel Proust
escreveu críticas ao próprio livro e publicou-as nos periódicos do seu
tempo.
A mais conhecida
surgiu na primeira página do Le Figaro e o crítico não se conteve: o
livro era uma "pequena obra-prima" que banhava "os vapores soporíferos"
das letras francesas com "ar fresco". Consta que Proust pagou qualquer
coisa como R$ 4.500 por esta imparcial resenha.
Moral da história: se
Proust, que é Proust, vivia consumido pelas inseguranças da arte (e
pela magreza da bolsa), quem somos nós para atirar a primeira pedra? A
única diferença é que Proust ainda teve a elegância de ocultar a sua
ambição.
Infelizmente, estas
civilidades vão-se perdendo no meio literário. Não falo apenas do meu fã
desinteressado, que nunca mais me enviou livro nenhum.
Falo de nomes como
Margaret Atwood, Ian McEwan ou Zadie Smith. Segundo informa o The
Guardian, os três fazem parte de um lista generosa de escritores e
editores que não querem americanos na competição do Man Booker Prize.
Segundo os paladinos
da pureza literária, o prêmio deve consagrar apenas autores do Reino
Unido ou da Commonwealth. Só assim, dizem os paladinos, é possível dar
visibilidade a autores "marginais", prontamente esmagados pelos George
Saunders desta vida (Saunders, com "Lincoln no Limbo", venceu em 2017;
Paul Beatty, outro americano, venceu o prêmio no ano anterior, com "O
Vendido").
Os jurados do prêmio
discordam. E lembram que a língua inglesa é mais importante do que a
nacionalidade dos escritores. É a língua e o talento, independentemente
da origem, que devem ser premiados.
Como é evidente, a
polêmica não lida com a visibilidade dos escritores "marginais". O
problema está nos escritores "centrais" que cobiçam o prêmio e temem a
competição americana.
Esta revelação entristece qualquer literato.
Primeiro, porque a
cobiça pública de prêmios literários é uma confissão de vulgaridade,
mesmo em autores que já os ganharam em abundância. Cuidado: falo de
cobiça "pública", não privada.
Em privado, sempre vi
com graça as espantosas acrobacias dos autores para caírem nas graças
de um jurado: elogios, dinheiro, juras de amor —ou, em alternativa,
violências e ameaças.
E até conheço
escritores que cobiçam os prêmios simplesmente para os recusar —uma
espécie de glória sobre a glória que não tem paralelo em qualquer
currículo.
Mas o temor explícito
dos autores americanos revela outra coisa: um complexo de inferioridade
que muitos escritores ingleses ou irlandeses não mereciam.
Pessoalmente, não conheço nenhum escritor americano vivo e ativo (o que
exclui imediatamente Philip Roth) que escreva como John Banville,
sobretudo nesse primor que é "O Mar". Que o mesmo Banville também apoie o
boicote aos americanos, eis a prova de que ninguém é perfeito.
Repito: vaidades
todos temos. Inseguranças, também. Mas um escritor que não sabe
escondê-las do público é como um ilusionista que, antes de executar o
truque, explica à audiência como os coelhos saem da cartola.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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