O que realmente caracteriza as esquerdas sul-americanas tem pouco a ver com Simón Bolívar
por Antonio Luiz M. C. Costa
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publicado CARTA CAPITAL
Juan Barreto / AFP
Quem pedir à mídia conservadora uma explicação
sobre o bolivarianismo, verá ser incluído nesse rótulo qualquer política
fora do consenso neoliberal do fim do século XX. Até partidos europeus
como o Syriza grego, a Frente de Esquerda francesa e o Podemos espanhol
têm sido arbitrariamente tachados como tais. Em versões de tons
clinicamente paranoides, mas acolhidas por publicações brasileiras de
grande tiragem, é uma conspiração articulada pelo Foro de São Paulo,
“denunciado” como uma maçonaria secreta e misteriosa que obedece a um
comando central e oculta a própria existência, embora suas reuniões
sejam públicas desde a fundação, em 1990, e incluam partidos ferozmente
hostis entre si como, por exemplo, os brasileiros PT, PPS, PSB, PPL,
PCB, PDT e PCdoB.
Consultar a Wikipédia em português não é esclarecedor.
“Aqueles que se fazem chamar bolivarianos dizem seguir a ideologia
expressa por Simón Bolívar. Entre suas ideias estão a promoção da
educação pública gratuita e obrigatória e o repúdio à intromissão
estrangeira”. Por esse critério, poderiam ser chamados de “bolivarianos”
o rei prussiano Frederico Guilherme, a rainha austríaca Maria Teresa, o
Japão da Restauração Meiji ou qualquer projeto sério de construção
nacional dos séculos XVIII e XIX.
Fanatismos à parte, é preciso convir em
que as ideias do Libertador têm pouco a ver com a corrente política que
reivindica seu nome. O Bolívar histórico de fato esteve mais próximo dos
déspotas esclarecidos do século XVIII do que de Hugo Chávez. Era um
homem de seu tempo e como um líder da América
Latina aspirava a criar uma grande nação hispano-americana em moldes
autoritários e conservadores, com a oligarquia, os militares e o clero
como colunas de sustentação e um presidente vitalício no pináculo.
Karl Marx pode ter sido injusto ao
atribuir suas vitórias a mercenários ingleses e retratá-lo como
covarde, brutal e, “como a maioria de seus compatriotas, avesso a
qualquer esforço prolongado” em artigo de 1857. Preconceitos à parte,
Bolívar esteve à frente da maioria dos caudilhos latino-americanos
quanto à coerência e abrangência de seu projeto nacional. Daí a fazê-lo
um precursor da esquerda do século XXI vai, porém, uma enorme distância.
Na época de Marx, Bolívar era pouco considerado por muitos
dos próprios compatriotas. O culto à sua memória começou com o caudilho
venezuelano Antonio Guzmán Blanco, que direta ou indiretamente governou
a Venezuela de 1870 a 1888, celebrou o centenário do Libertador em 1883
e se apropriou de seu nome como precursor de seu projeto de
modernização conservadora, personalista e providencialista. Dois outros
ditadores venezuelanos, o general Eleazar López Contreras (1935-1941) e o
coronel Marcos Pérez Jiménez (1952-1958), fizeram de Simón Bolívar, ao
menos nas escolas e no meio militar, um pai da pátria acima de crítica
ou relativização histórica em um grau superior a Tiradentes ou ao Duque
de Caxias no Brasil.
Para um militar formado nesse clima, como Hugo Chávez,
reinterpretar Bolívar era uma solução mais viável do que renegá-lo,
tanto quanto foi menos penoso aos teólogos da libertação fazer uma
releitura revolucionária dos Evangelhos do que abandonar a tradição
cristã. Mas a admiração pelos aspectos mais progressistas do pensamento
do Libertador pode ter contribuído para levar o chavismo a superar
alguns dos limites do populismo latino-americano tradicional, como a
perspectiva estritamente nacional, substituída por uma dedicação sincera
à unidade latino-americana.
“Populismo” é outro termo
esvaziado pelo abuso, mas, quando usado com seriedade, refere-se a
discursos e práticas que pretendem representar a “vontade do povo” como
os da verdadeira nação em contraposição a interesses estrangeiros.
Geralmente se exprime por uma liderança carismática que se põe acima das
classes e tenta conciliá-las com uma modernização capitalista combinada
com políticas sociais. Na história da América Latina, a vocação
centrista do populismo foi sempre tensionada pelo poder do imperialismo
até a ruptura do equilíbrio: ou recorreu à mobilização popular contra as
forças conservadoras e desliza à esquerda (caso de João Goulart) ou se
concilia com elas até se descaracterizar, como se deu com Carlos Menem e
com o PRI mexicano.
Já no caso de Chávez (desde 1999) e dos movimentos
sul-americanos nele inspirados que chegaram ao poder em 2006 ou 2007 e
hoje integram a Aliança Bolivariana das Américas (Alba), a Bolívia de
Evo Morales e o Equador de Rafael Correa, a opção pela esquerda e a
prioridade à mobilização das classes oprimidas estiveram presentes desde
o início, assim como a hostilidade da maior parte da classe média e do
empresariado. Devem isso, em boa parte, à oportunidade criada por crises
econômicas e políticas graves o suficiente para esvaziar os partidos
tradicionais e torná-los os únicos capazes de unir o país.
Esse movimento teve desde o início um caráter mais
progressista, latino-americano e anti-imperialista do que nacionalista.
Nos três casos, conservadores tentaram golpes de força – Venezuela
em 2002, Bolívia em 2008 e Equador em 2010. Derrotados pela mobilização popular, solidariedade de vizinhos sul-americanos e fidelidade ou neutralidade das Forças Armadas, os golpes fracassados tornaram-se uma oportunidade para aprofundar reformas, isolar a oposição radical e, nos casos de Venezuela e Equador, processar jornais golpistas, quebrar monopólios midiáticos e cassar concessões de tevê com respaldo popular.
em 2002, Bolívia em 2008 e Equador em 2010. Derrotados pela mobilização popular, solidariedade de vizinhos sul-americanos e fidelidade ou neutralidade das Forças Armadas, os golpes fracassados tornaram-se uma oportunidade para aprofundar reformas, isolar a oposição radical e, nos casos de Venezuela e Equador, processar jornais golpistas, quebrar monopólios midiáticos e cassar concessões de tevê com respaldo popular.
Esses regimes são populistas? Há
traços similares, tais como a dependência de lideranças carismáticas,
Executivo forte, o desenvolvimentismo e a tentativa de cooptar ao menos
parte do empresariado, a chamada “boliburguesia” na Venezuela, mesmo
quando também se fala em “socialismo do século XXI”. Assim como o
peronismo e o getulismo, lidam com grupos mais à esquerda que os tacham
de traidores e farsantes. Mas, semântica à parte, o bolivarianismo
estica o modelo populista ao limite. Surgiu em contraponto menos aos
equivalentes locais do coronelismo do que ao neoliberalismo
pretensamente moderno dos anos 1990, tem uma abrangência maior, não se
restringe às classes médias e operárias urbanas e busca de fato
incorporar camponeses, indígenas, negros e excluídos. E o que mais os
distingue dos precursores é a disposição de “refundar o Estado” e criar
sistemas políticos com intensa participação popular por meio de
plebiscitos e associações de bairros e comunidades com poderes para
organizar localmente as obras públicas.
Na maior parte da América Latina, esse é um passo
revolucionário. Pela primeira vez, a “nação” deixa de ser uma abstração a
serviço de políticos, intelectuais e militares para se propor a
mobilizar e integrar de fato a grande maioria. Esse é o ponto mais
incômodo e inaceitável às classes médias brancas tradicionais e o motor
do ódio expresso em termos classistas ou abertamente racistas: a
ansiedade e a insegurança por perder privilégios antes tão “naturais”
que nem precisavam ser justificados ou defendidos de forma explícita.
Têm agora de compartilhar espaços e serviços antes “exclusivos” e
concorrer por cargos públicos, bons empregos e oportunidades de negócios
com as massas em ascensão.
Mas os chamados “bolivarianos” não são os únicos a
enfrentar essa torrente de despeito e amargura. Em países igualmente
flagelados pela desigualdade e pelo neoliberalismo, mas com instituições
menos caóticas e partidos conservadores menos esfacelados ou
desmoralizados, elegeram-se agremiações de centro-esquerda com projetos
na mesma direção, mas dispostas a governar dentro do quadro
institucional herdado e aceitar compromissos com oligopólios econômicos e
midiáticos tradicionais e alguns partidos conservadores, caso de
Brasil, Uruguai e Chile. São partidos habituados à cautela, surgidos de
processos de transição mais ou menos delicados, a partir de ditaduras
brutais que algumas de suas lideranças enfrentaram de armas nas mãos ou
em salas de tortura.
Nesses casos, a redução ao
“populismo” é um abuso. O respeito às instituições democráticas é até
maior do que por parte da oposição de direita, o carisma pessoal não é
decisivo (não mais do que em partidos liberais, pelo menos) e a
organização partidária foi capaz de alternar lideranças sem traumas.
Diferentemente do que se viu na Venezuela, onde Chávez lutou para se
reeleger indefinidamente e negar sua mortalidade até o último momento,
pouco depois de assumir o quarto mandato. Seu sucessor, Nicolás Maduro,
ainda depende do carisma do falecido, a ponto de falar como se fosse seu
médium e até puxar uma oração ao “Chávez nosso que estás no céu, na
terra, no mar, em nós e nos delegados”.
Jorge Castañeda, o ideólogo mexicano da “terceira via”
centrista à Tony Blair na América Latina, distinguiu os dois grupos como
“esquerda carnívora” e “esquerda herbívora” e a oposição menos
enlouquecida dos países da Alba aplaude esses últimos e os aponta como
modelo, haja vista a alegação do venezuelano Henrique Capriles de ter
Lula como modelo ao concorrer com Hugo Chávez e Maduro e os elogios ao
líder brasileiro de Samuel Doria Medina, o mais bem-sucedido dos
oposicionistas bolivianos na última eleição. Nem por isso esses governos
escapam dos mesmos destemperos e de serem atacados como “bolivarianos”
ou “comunistas” por suas respectivas oposições, que sobem de tom e se
aproximam do golpismo quando suas expectativas são frustradas.
Uma terceira vertente, ou melhor, um caso sui generis é o
da Argentina. Cristina Kirchner e seu falecido marido Néstor, assim como
a maioria das lideranças do atual governo, não mostravam vocação
bolivariana, ou mesmo autenticamente social-democrata, antes de 2002. Ao
contrário. Apoiaram a maioria das políticas neoliberais do
correligionário peronista Carlos Menem, inclusive a privatização da
petroleira YPF. Seu Partido Justicialista não integra o Foro de São
Paulo. Por estranho que pareça, filia-se internacionalmente à mesma
Internacional Democrata de Centro à qual pertencem o brasileiro
Democratas (DEM) e a CDU de Angela Merkel.
Os Kirchner são políticos à moda antiga, levados à
esquerda por não ver outra forma de lidar institucionalmente com a
revolta popular ante o colapso da conversibilidade e a moratória da
dívida pública. Não mostram o mesmo empenho dos outros governos de
esquerda pela integração latino-americana, não promovem uma redefinição
da pirâmide social e não falam de socialismo, embora defendam direitos
humanos e combatam oligopólios. Em sua ambivalência e nacionalismo à
moda antiga, ainda representam a tradição do peronismo popular.
Importa pouco, no entanto, se o governo é carnívoro,
herbívoro ou ambíguo quando as elites veem suas regalias serem erodidas,
seu capital simbólico se desvalorizar e seus representantes políticos
mostrarem poucas chances de virar o jogo em eleições democráticas. Daí a
obsessão por assimilar todos os governos de centro-esquerda aos
“bolivarianos” e representá-los como completos fracassos. A um olhar
menos parcial é evidente que não é bem assim.
A Venezuela, sem dúvida, enfrenta
dificuldades. Chávez e Maduro promoveram distribuição de renda,
ampliação de serviços sociais e inclusão bem reais, mas falharam em
transformar a fundo o setor produtivo. A dependência excessiva do
petróleo continuou a inibir o desenvolvimento de outros setores e na
medida em que este subsidia o consumo, os serviços públicos e as
desapropriações, cada queda da cotação internacional põe em perigo as
contas públicas e externas, acelera a inflação e aumenta o risco de
desabastecimento, como se não bastassem a má vontade do empresariado
oposicionista e a má gestão da burocracia.
Reduzir o subsídio aos combustíveis e reajustar a gasolina
hoje ridiculamente barata (equivalente a 0,04 reais por litro) ajudaria
a reduzir os desequilíbrios, mas é uma decisão difícil. Foi justamente
uma alta dos preços dos combustíveis que desencadeou a revolta de 1989
conhecida como Caracazo e a brutal repressão pelo governo de Carlos Andrés Pérez que abriu caminho ao seu impeachment,
à desmoralização dos antigos partidos e à ascensão de Chávez. Os
governos anteriores ao chavismo lidaram com os mesmos problemas e uma
inflação ainda maior, sem proporcionar os mesmos avanços sociais. Por
isso, apesar de todos os erros e dificuldades – e apesar de The Economist
ter previsto o fim do chavismo praticamente a cada ano –, a maioria
continuou a respaldá-lo em todas as eleições e plebiscitos dos últimos
15 anos, com uma única e acatada exceção.
Na Bolívia, a economia cresce mais que em qualquer outro
país latino-americano, começa a se diversificar e a receita da
nacionalização do gás e do petróleo parece ter mais estimulado do que
inibido o desenvolvimento de outros setores. A inquietação social não
desapareceu de todo e greves são comuns, mas o empresariado parece
conformado, se não satisfeito. O desafio recente mais sério veio de
setores indigenistas e ecologistas, que se consideram atropelados pelo
desenvolvimentismo, exploração de recursos naturais e construção de
estrada em uma reserva indígena. No Equador, o crescimento econômico
também é satisfatório, mas igualmente há reclamações de comunidades
indígenas, por causa da extração de petróleo em suas reservas. Em ambos
os casos, a capacidade dos respectivos movimentos de transcender suas
lideranças está por ser testada. Evo Morales parece sincero ao afirmar
que seu terceiro mandato, a terminar em 2020, será o último. Já Rafael
Correa, cujo terceiro mandato acaba em 2017, promove uma mudança
constitucional que permitiria a reeleição indefinida.
Na Argentina, como na Venezuela, a
inflação está fora de controle, o crescimento econômico é irregular e
as dificuldades financeiras foram agravadas pelo conflito com os fundos
abutres pela dívida externa. O governo não tentou obter a possibilidade
de um terceiro mandato para Cristina Kirchner, cuja popularidade está
desgastada. Ainda assim, a eleição presidencial de outubro de 2015
continua uma completa incógnita. A exemplo do Brasil, o povo diz querer
“mudança”, mas a oposição de direita não consegue capitalizar esse
anseio. Seu principal representante, o empresário e prefeito de Buenos
Aires Mauricio Macri, tem 32% das intenções de voto ante 28% do
peronista Sergio Massa. Este, embora tenha rompido politicamente com
Kirchner, de quem foi chefe de gabinete, e fundado seu próprio partido,
representa essencialmente a mesma política. Analistas acreditam que o
governo, quando definir seu candidato, mobilizará um terço dos votos. A
ruptura da Argentina com o mercado financeiro internacional ainda é
profunda demais para uma gestão neoliberal ortodoxa e, embora uma
oscilação do pêndulo à direita possa ocorrer, dificilmente será
drástica.
No Brasil e no Uruguai, o crescimento econômico tem
flutuado entre satisfatório e medíocre, embora os progressos sociais
sejam inegáveis. Para a maioria, a economia não vai mal, mas a relativa
estagnação econômica e as dificuldades com segurança e precariedade de
serviços sociais resultaram em uma vitória suada para Dilma Rousseff em
2014. No caso do Uruguai, os prognósticos de uma virada à direita
mostraram-se totalmente falsas e Tabaré Vázquez pode enfrentar o segundo
turno com tranquilidade.
No Chile, é cedo para
avaliar Michelle Bachelet, que volta ao poder com o compromisso de
efetuar reformas educativas e sociais sérias negligenciadas pelo
centro-esquerda por décadas. Depois de ter se portado por 20 anos como
uma tímida “terceira via” até ser abandonada pela maior parte da
juventude, a esquerda chilena aproveita a segunda oportunidade criada
pela insatisfação com o governo neoliberal de Sebastián Piñera para
tentar uma gestão mais autenticamente social-democrata. Enfrenta uma
previsível reação da classe média na forma de passeatas de pais de
filhos em escolas particulares contra a retirada dos subsídios a essas
instituições em favor das escolas públicas gratuitas, mas um recuo seria
desastroso.
É um dilema que as esquerdas, bolivarianas ou não,
precisam enfrentar. Nem sempre é possível contar com alto crescimento
econômico para abafar os conflitos de classe e garantir que todos
ganhem. Quando não há perspectivas de avanços sociais reais e a economia
não vai tão bem, é fácil à oposição oferecer a manutenção do que existe
com uma gestão mais “competente”. Conservar o apoio popular implica
progredir e desafiar as elites com os riscos derivados dessa opção, por
mais que se respeitem os caminhos democráticos.
*Reportagem publicada originalmente na edição 826 de CartaCapital, com o título "Esse tal de bolivarianismo"

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