Tanto a festa do São João quanto a musicalidade junina têm raízes firmes e fundas na Europa. Bruna Frascolla via Gazeta do Povo:
É
chegado o São João. Se você está no Nordeste, é época de comer amendoim
cozido, milho, pamonha, cuscuz, soltar fogos, tomar licor de jenipapo,
fazer fogueira e ouvir pelo menos Luiz Gonzaga. Se você não está no
Nordeste, é época de ler esta coluna e descobrir que existem amendoim
cozido e licor de jenipapo. Mas, esteja em qualquer parte do país, é
época de olhar para essa festa popular e se perguntar: como é que ela
pode caber na nova história oficial do país?
Afinal,
existem áreas do Brasil cujas festas típicas compartilham a origem
étnica da população. É o caso da Oktoberfest, por exemplo: o próprio
nome já indica que é de origem alemã e a festa é popular em Blumenau,
uma área cheia de descendente de alemão. O dia de Yemanjá, em Salvador, é
outro exemplo: numa cidade cheia de descendentes do Golfo do Benim,
cultua-se uma orixá daquela região. Mas e o São João?
No
Hemisfério Norte, os europeus comemoram desde tempos imemoriais o
solstício de inverno e o solstício de verão. Ambos foram cristianizados:
o primeiro virou o Natal, aniversário de Jesus, e o segundo o São João,
aniversário do Batista. Ambos têm em comum o fato de serem comemorados
na noite da véspera: a ceia de natal acontece no dia 24, a festa de São
João no dia 23. Vira-se a noite ceando em família e festejando ao redor
da fogueira.
Midsummer
No
entanto, o nome cristão da festa junina pegou mais entre os latinos: na
França é Saint-Jean; na Espanha, San Juan; na Itália, há a notte de San
Giovanni, embora de menor relevância. Em Portugal, tal como no Brasil, o
São João tem muita importância numa área só: no Norte. No Porto o São
João é importante; em Lisboa, não. Na parte mais europeia o São João
importa, não na mourisca.
Os
ingleses e os alemães também comemoraram bastante, embora o fanatismo
protestante tenha minado a popularidade do St. John’s Fire. Ainda na
época de Shakespeare, eles deviam ter uma memória da festa: a peça que
conhecemos em português como “Sonho de uma noite de verão” é, em inglês,
“A Midsummer Night’s Dream”, ou seja, o sonho de uma noite de São João.
Já cruzando as fronteiras para a Escócia e o País de Gales a St. John’s
Fire passa bem.
Mas
mais forte do que em qualquer país latino europeu é o Midsummer
comemorado pelos nórdicos, ainda com o nome pagão: Suécia, Finlândia,
Dinamarca… São festejos importantes em que se acende uma fogueira
gigante. Também comemoram o São João os povos eslavos.
Assim,
na Europa, podemos fazer uma simplificação grosseira e dizer que,
quanto mais branca e nórdica uma população, mais forte é o seu São João.
Se a mesma regra valesse no Brasil, deveríamos procurar pelo São João
no Sul e no Sudeste – jamais no Nordeste. Por que a festa nórdica do
solstício de verão é tão comemorada no inverno do Hemisfério Sul, em
pleno semiárido brasileiro, por uma população majoritariamente parda?
Os instrumentos
Outro
recorte interessante de ser feito é o dos instrumentos musicais. Os
sulistas e os nordestinos dão nomes diferentes ao acordeão. Nordestinos
chamam de sanfona; sulistas, de gaita. Ambos são nomes de instrumentos
mais antigos que o moderno acordão, inventado só no século XIX, na
Alemanha. A sanfona mais antiga é este instrumento medieval aqui, uma
viola esquisita tocada com uma manivela. Apesar do aspecto visual,
vendo-o em uso percebe-se que é aparentado do acordeão.
A
crermos nesta interessante matéria com velhinhos do Noroeste da
Espanha, a sanfona era tocada pela elite medieval até chegar à mão dos
plebeus no fim do século XV. Ou seja, na época da descoberta do Brasil,
os sanfoneiros eram uma figura festeira comum na plebe europeia. O
diferencial da sanfona, que a fez cair no gosto de tanta gente, é a
capacidade de ter o som de vários instrumentos num só. Para dar uma
festinha, bastava um músico.
Um
dos sons que ela substituía (a crermos nos velhinhos espanhóis) é o da
gaita, caracterizado pela continuidade. Por isso, a sanfona era chamada
também de gaita, tal como no Sul do Brasil.
Que
gaita é essa, de som contínuo? Nada a ver com aquela pequenininha do
blues; é a gaita de foles, uma constante em locais de cultura celta.
Tais como a Escócia, o Noroeste da Espanha e o Norte de Portugal. Vocês
podem ver aqui portugueses tradicionalistas do Norte tocando música numa
bandinha que lembra o trio nordestino. O mesmo grupo canta em dialeto
mirandês e, tocando sanfona e um sino, lembra mais ainda o Nordeste.
De resto, o Sul de Portugal tem a concertina, que é mais parecida com um acordeão, mas foi inventada só no XIX também.
Parece
razoável crermos que as sanfonas chegaram ao Brasil já no século XVI e
foram substituídas por acordeões ou concertinas nos séculos XIX ou XX,
com os brasileiros chamando o objeto novo pelo mesmo nome do antigo.
Basta ficar sem luthier para perder a técnica da confecção de sanfonas.
Então o instrumento desaparece, enquanto permanecem o nome (sanfona) e
as melodias.
Recorte temporal
Tanto
a festa do São João quanto a musicalidade junina têm raízes firmes e
fundas na Europa. Mas entender sua prevalência numa área povoada por
gente de origem europeia: basta usarmos o recorte temporal. As regiões
Sul e Sudeste foram bastante povoadas pela imigração europeia, que é
recente, lá dos séculos XIX e XX. O litoral nordestino recebeu bem menos
imigrante do que as regiões Sul e Sudeste, mas ainda assim é um local
que atrai muito mais migração (seja do resto do Brasil, seja de outros
países) do que o sertão, o semiárido.
O
sertão nordestino é um local de onde as pessoas migram, não para onde
migram. A exceção foi o começo do período colonial, quando chegaram
jesuítas para catequizar índios e foram também portugueses pobres. O que
não falta no semiárido é vaqueiro. Como o Norte de Portugal (aquela
região de cultura celta) tem vaqueiros, é bem plausível que tenham
atravessado o Atlântico e adentrado o sertão sem deixar de ser vaqueiros
no Brasil, onde se casaram com índias. Mas continuaram comemorando o
São João e tocando sanfona, e seus filhos pardos vêm fazendo a mesma
coisa de geração em geração.
No
frigir dos ovos, o semiárido brasileiro conserva muito da cultura
europeia medieval, com suas xilogravuras, cordel, roupas de couro,
códigos de honra, adagas, festividades e música. Só é incapaz de
enxergar isso quem acha que raça e cultura são a mesma coisa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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