Em artigo publicado pelo Estadão, Oliver Stuenkel afirma que o declínio da Rússia é um problema para o mundo:
Uma
das principais fontes de instabilidade internacional são deslocamentos
de poder. Um exemplo clássico disso são nações que se encontram em
franca ascensão: confiantes, suas lideranças políticas muitas vezes buscam uma atuação internacional mais assertiva, investem em seu poder militar e acabam desafiando potências já estabelecidas.
A ascensão dos EUA há cem anos e a da China ao longo das últimas décadas são exemplos clássicos de como a emergência de uma grande potência pode fragilizar o status quo.
O atual caso da Rússia, porém, mostra que o declínio de um ator relevante também pode representar um risco, criando vácuos de poder em suas fronteiras ou deixando suas lideranças políticas mais agressivas para compensar os fracassos no âmbito doméstico. O atual declínio russo independe do desfecho da invasão russa à Ucrânia ou do destino político do presidente Vladimir Putin.
Os problemas da nação de maior extensão do planeta são mais fundamentais e se refletem nos chocantes dados demográficos:
por exemplo, um homem russo com 15 anos de idade hoje tem a mesma
expectativa de vida de um homem no Haiti, país em estado de anarquia e
há décadas o mais pobre das Américas. Trata-se de uma expectativa de
vida mais baixa que a do Iêmen e a do Zimbábue, que figuram entre os
países mais pobres do planeta. Na média, um homem russo morre 18 anos
antes de um homem japonês.
À
primeira vista, poderia se presumir que o dado se deve ao elevado
número de fatalidades de soldados russos na invasão à Ucrânia. Porém,
trata-se de dados oficiais do governo russo, coletados antes do início
da guerra. Desde a invasão russa à Ucrânia, a situação demográfica
piorou ainda mais: estima-se que 120 mil soldados russos morreram nas
batalhas, e aproximadamente 900 mil russos emigraram, muitos deles
jovens, representando em torno de 1% da força laboral do país.
De
acordo com o ministério das Comunicações do governo russo, 10% de todos
os profissionais da área de TI emigraram desde o início da guerra,
verdadeira catástrofe econômica considerando a importância estratégica
do setor.
Uma
consequência da baixa expectativa de vida dos homens, da guerra e da
fuga ao exílio é o desequilíbrio de gênero. Hoje, na Rússia, há 10
milhões de mulheres a mais do que homens. Não se trata de um problema
recente: entre 1993 e 2009, por exemplo, a população russa encolheu em
quase seis milhões (dados oficiais mostram um aumento recente, que se
deve à anexação da península ucraniana da Crimeia).
Tudo
isso é ainda mais notável porque a Rússia não é um país pobre. É
urbanizado, possui indústrias altamente sofisticadas — sobretudo no
setor bélico —, a maior quantidade de armas nucleares do mundo, uma
produção cultural admirada mundo afora e uma taxa de alfabetização de
quase 100%. Além disso, goza de grandes reservas de petróleo e gás, e é o
maior exportador mundial de trigo — beneficiando-se, inclusive, das
mudanças climáticas, que aumentam a quantidade de terras férteis.
Vários
outros países ao redor do mundo, sobretudo no Leste Asiático e na
Europa, sofrem com crises demográficas. Nenhum deles, porém, sofre com
uma baixa tão grande da expectativa de vida ou uma fuga de elites
qualificadas tão expressiva. Diferentemente da Rússia, a Europa atrai, a
cada ano, milhões de migrantes jovens e motivados.
A
crise demográfica russa e a emigração de pessoas qualificadas — produto
de problemas profundos no país — são elementos-chave para compreender a
constante glorificação por Vladimir Putin do “russki mir” (mundo
russo), a retórica nostálgica de um passado mistificado, a demonização
do Ocidente e a política externa mais agressiva, envolvendo guerras
contra vizinhos menores como a Georgia e, mais recentemente, a Ucrânia,
que ajudam promover o nacionalismo e a sensação permanente de estar sob
ameaça externa.
Como
ficou evidente no último 23 de agosto, quando o avião de Yevgeny
Prigozhin, chefe do grupo Wagner, caiu perto de Moscou, um conflito
militar de grandes dimensões ajuda não apenas a desviar a atenção
pública de outros problemas, como também para promover expurgos e
eliminar opositores com mais facilidade — presumindo que, como acreditam
numerosos analistas, o governo russo tenha ligação com a morte do
mercenário.
Por
fim, um líder sabidamente preocupado com seu legado nos livros de
história, como Putin, também sabe que, apesar de ter ajudado a
estabilizar o país na virada do século, seu saldo desde então é,
predominantemente, negativo, e difícil de ser revertido — a não ser que
seja lembrado por ter liderado a expansão territorial da Rússia.
Não
por acaso, em conversa com um oligarca russo no início da invasão à
Ucrânia, o chanceler russo Lavrov — que não havia sido informado com
antecedência sobre a decisão do presidente, disse: “(Putin) tem três
conselheiros: Ivã IV, Pedro o Grande e Catarina II” — todos lembrados
por suas conquistas territoriais.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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