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| Charge de Jaguar que levou a redação do Pasquim à prisão em 1970. |
Mesmo se o Millôr foi excessivamente valorizado em vida, neste país temos mesmo que excessivamente valorizar quem foi razoavelmente valorizável. A coluna (ranzinza, desta vez) de Alexandre Soares Silva para a Crusoé:
Imagine
um mundo em que Anthony Fauci, o imunologista e antigo conselheiro
médico do presidente dos EUA, se gabasse publicamente de ter criado o
coronavirus no laboratório de Wuhan. Pois é assim que me sinto quando
lembro que Millôr Fernandes se gabava de ter criado o frescobol.
É
chocante. Confessava isso rindo, tomando cerveja de sunga. Nos últimos
anos de vida dele, eu me perguntava como o deixavam andar livremente por
aí, dar entrevistas etc. Mas para prendê-lo pela criação do frescobol
seria preciso um esforço sério da comunidade internacional, que
infelizmente nunca aconteceu porque, para colocar de uma maneira bem
franca, não era do interesse de nenhum dos signatários de Davos.
Mas
não queria escrever uma coluna para falar mal do Millôr Fernandes.
Afinal, olhem o país em que estamos. Não podemos nos dar ao luxo de
desprezar os millôres que de vez em quando aparecem. Com o Gregório
Duvivier sendo o humorista do momento, Porchat etc., que sentido faz
falar mal do Millôr? Sinto saudades até, e folheio os seus livros com
algum carinho.
Além
disso só havia sentido falar mal da obra de Millôr, para mim, quando
ele ainda estava vivo e era elogiado muito além do merecimento. A
verdade é que depois da sua morte parece que cada vez menos se fala
dele, talvez até aquém do merecimento. Mesmo agora no seu centenário
foram poucas as celebrações. Por causa disso, acalmo meu espírito
invejoso e mesquinho (confesse que você me chamou de invejoso e
mesquinho) e, no lugar de falar mal de Millôr Fernandes, vou mudar de
alvo um minuto e falar mal do Pasquim.
O Pasquim foi o ponto mais alto do espírito carioca e o ponto mais baixo do espírito humano.
(Sei que essa frase não faz completo sentido — e o Machado de Assis? —, mas sempre quis dizer isso num artigo.)
Vá
que não tenham feito coisa que preste, a turma do Pasquim. Mas a
desilusão maior é esta: que depois de tanto tempo encarnando, sobretudo
para si mesmos, o ideal romântico de oposição e dizendo para quem
quisesse ouvir que “jornalismo é oposição, o resto é secos e molhados”,
tenham quase todos passado os últimos 20 anos das suas vidas sendo
petistas e governistas. E, quando reclamavam do PT, era por este não ser
tão de esquerda quanto queriam — o que em termos de coragem política
equivale a alguém reclamar de Perón por Perón não ser ainda mais
peronista.
“Jornalismo
é oposição.” Bah. E eu que cresci acreditando no anarquismo da turma do
Pasquim. Mas, segundo o próprio numa entrevista do Roda Viva, Millôr
saiu da Veja em 82 por apoiar demais um político. Essa é uma decepção da
qual não me recuperei até hoje.
Cresci
lendo os elogios de Paulo Francis aos amigos da sua geração, cujos
nomes me pareciam míticos como os dos generais de Napoleão inscritos
alto no Arco do Triunfo. Na adolescência andava por Ipanema de olhos
arregalados, à espera de ver passar um desses gigantes intelectuais —
JAGUAR! LEONAM!
Só
mais tarde entrei em contato com as obras, e vi que não havia obras.
Fora do Paulo Francis, pelo menos (O Afeto que se Encerra é um grande
livro de memórias).
Sobre
Millôr, obviamente tinha talento. Mas a sua reputação parece ser hoje
em dia a de um grande frasista. Ele era? Você releu as antologias de
frases dele recentemente?
Alguns
anos atrás, precisei matar um tempo e tirei da estante O Livro Vermelho
de Pensamentos do Millôr. Jurei que não ia parar de folhear o livro até
encontrar uma boa frase. Demorou. Estava em pé e tive que sentar.
Sentado, tive que interromper a leitura para dormir e voltar a ler no
dia seguinte. E até hoje estou folheando esse livro, procurando uma boa
frase.
“A
frase mens sana in corpore sano é uma redundância e, como tal, inútil.
Não há corpo são sem mente sã, e vice-versa.” Deus do céu. São só duas
linhas, mas eu durmo antes de chegar na segunda.
“A
falta de autocrítica científica trouxe como resultado apenas multidões
de consumidores ávidos e telespectadores passivos.” Dormi de novo. “Se a
televisão fosse sem imagem, se chamaria rádio e não teríamos que
assistir certos programas.” Hmm, OK. Finalmente uma frase quase mais ou
menos.
Abra
ao acaso outra antologia de frases, Millôr Definitivo, e verá coisas
como “tristezas não pagam dívidas. Nem bravatas, por falar nisso” ou
“uma democracia começa com três refeições diárias”. Eu não teria ânimo
de publicar essas frases no Twitter, se elas me ocorressem num momento
de pressão baixa e torpor mental, mas o Millôr publicou isso em livros.
Mas,
por mais que eu não queira ser justo — quem quer ser justo? —, sejamos
justos. Fábulas Fabulosas é um livro bom, e A Verdadeira História do
Paraíso é bem OK. Sua reputação de frasista é imerecida — dez boas
frases no máximo. Essa reputação só existe porque as pessoas se
acostumaram a pensar nele desse jeito. Mas os desenhos eram muito bons.
É
verdade que, comparada com a geração atual de humoristas, a turma do
Pasquim parece o círculo de Goethe em Weimar. Então, OK: mesmo se o
Millôr foi excessivamente valorizado em vida, neste país temos mesmo que
excessivamente valorizar quem foi razoavelmente valorizável.

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