Seu comportamento recente transmite a sensação do indivíduo que se sente de costas para o paredão do rochedo e de frente para o abismo, com os pés escorregando. William Waack para o Estadão:
Se Jair Bolsonaro
acha que está sendo cercado e cerceado, e se sente ameaçado, está
mesmo. Do ponto de vista “estrutural” perdeu poder para o Legislativo
(além de virar refém do Centrão)
e foi manietado pelo Judiciário. Do ponto de vista das circunstâncias
do cotidiano, está acuado pela evidência de que as ruas não são apenas
dele. A CPI da pandemia mantém constante pressão política, gerando desgaste que o foco nos contratos da vacina indiana aumentaram perigosamente.
A
questão é saber como Bolsonaro pretende sair de uma situação que ele
mesmo ajudou a criar. Até aqui ele tem dobrado a aposta em reiterar
crenças absurdas (como a do tratamento precoce), falsidades (como o
“documento” do TCU sobre exagero no número de mortos) e seu
comportamento habitual de desprezo por instituições (como se aconselhar
com charlatães e puxa sacos em detrimento das instâncias técnicas do
Ministério da Saúde) e ataques à imprensa.
Note-se,
porém, que o horizonte de tempo no qual ele opera – o do calendário das
eleições de 22 – oferece a ele dois fatores positivos. A inflação está
subindo e corroendo renda e poder de compra, mas ao mesmo tempo trouxe
uma (perversa) folga para gastar em auxílio imediato e até criar um
programa social para chamar de seu. É verdade que o famoso “feel good
factor” em relação à economia está demorando para se fazer presente.
Contudo, há unanimidade nas previsões de crescimento mais robusto
durante os próximos 18 meses.
Além
disso, preso desde tempos coloniais aos ciclos globais de preços de
commodities, o Brasil está sendo fortemente beneficiado por mais um
deles, que desta vez atinge tudo o que o país exporta. O significado
político eleitoral disso é menos nervosismo por parte dos agentes
econômicos, inclusive em relação às questões fiscais nesse mesmo prazo
do calendário eleitoral. Óbvio que nada de estrutural foi resolvido e
muito menos se tratou da agenda da produtividade, a única que tiraria o
país da estagnação de décadas, mas o que importa é só a reeleição.
Ocorre
que Bolsonaro não tem paciência, raciocínio estratégico e nem acha que o
tempo, eventualmente, possa trabalhar a seu favor – embora demonstre um
cínico cálculo político de que a vacinação, que ele tanto atrasou,
ajude a sociedade a deixar para trás a tragédia da pandemia. Ao
contrário, seu comportamento recente transmite a sensação do indivíduo
que se sente de costas para o paredão do rochedo e de frente para o
abismo, com os pés escorregando.
A
“costura” que ele vem fazendo para enfrentar as instituições que o
cercam é corroê-las por dentro e, de fato, ele tem nomeações relevantes
para fazer em breve nos tribunais superiores, além da PGR. O problema é
averiguar se a “ocupação” interna dessas instâncias será eficaz para
contrabalançar a reação desses tribunais (STF e TSE) ao que tem sido,
por parte de Bolsonaro, a construção de uma contestação do sistema
eleitoral em particular, e da democracia em geral, pois o único
resultado que ele parece admitir é sua própria vitória. O TSE é desde já
o grande adversário de Bolsonaro, e será presidido a partir de agosto
por um ministro do Supremo que detém as informações dos inquéritos sobre
fake news e atos antidemocráticos.
Confunde
bastante esse permanente confronto entre um presidente que se elegeu e
governa como agente “antissistêmico” e, ao mesmo tempo, trabalha por
dentro e é contido pelas instituições do sistema. Algumas instituições
de grande reputação na análise de risco, como a Eurásia (dirigida
sobretudo para o público externo) concluem que esse atrito constante
acabou gerando um equilíbrio com “resultados decentes” (incluindo
reformas mesmo com pandemia), ou seja, as manchetes parecem mais graves
do que a situação de fato.
A
mesma análise admite, porém, que serão as eleições do ano que vem o
grande “teste crítico” sobre a tese de que a democracia brasileira
acabará resistindo à depredação trazida por agentes como Bolsonaro. Essa
incerteza afeta mesmo os mais experientes. Um bom exemplo recente: do
alto dos seus 90 anos, o político FHC afirma que Bolsonaro é um
democrata. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso admite na mesma frase,
porém, que “a dinâmica dos fatos políticos” pode levar à ruptura
democrática.
Resta saber qual é o grau que Bolsonaro tem de atração pelo abismo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário