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As manipulações da moeda destroem riqueza, adverte George Reisman em artigo publicado pelo Instituto Mises:
Em termos simples, o dinheiro pode ser definido como um "meio de troca aceito por todos".
O
dinheiro é o bem que todas as pessoas de uma sociedade estão dispostas a
aceitar — com efeito, estão ávidas para aceitar — em troca de produtos e
serviços que elas oferecem.
Tão
logo as pessoas recebem dinheiro em troca dos bens e serviços que
ofertam, elas subsequentemente o utilizam com o objetivo de fazer novas
trocas comerciais, para então obter os produtos e serviços de outras
pessoas, as quais estão igualmente ávidas para aceitar esse dinheiro
delas.
Sendo
assim, o dinheiro é a mercadoria de mais fácil comercialização em uma
economia. Um indivíduo está disposto a aceitar dinheiro porque tem a
convicção de que todas as outras pessoas estarão dispostas a aceitar
este dinheiro dele em troca de bens e serviços.
Sem o dinheiro, não há divisão do trabalho
Independentemente da maneira como o dinheiro surge na economia,
o fato de que ele existe é algo extremamente benéfico. Sem o dinheiro,
uma sociedade baseada na divisão do trabalho — da qual toda a moderna
civilização depende para ter bem-estar — não poderia existir.
Uma
sociedade baseada na divisão do trabalho é caracterizada pelo fato de
que cada indivíduo se dedica a produzir apenas um bem ou serviço — ou,
no máximo, uma pequena quantidade de bens e serviços. E cada um destes
bens e serviços é consumido pelas outras pessoas.
Ao mesmo tempo, praticamente tudo o que qualquer indivíduo consome nesta sociedade é produzido pelo trabalho de outros.
Apenas
pense em qualquer emprego que você já teve, em quão específica era a
natureza daquele trabalho, e quem, em última instância, foi beneficiado
pelo fato de que aquele serviço foi fornecido. Se, por exemplo, você
trabalhou em uma fábrica de botões de camisa, os beneficiários físicos
do seu trabalho foram as pessoas cujas camisas tinham os botões que você
ajudou a fabricar.
Igualmente,
pense em todos os tipos de trabalho feitos por todas as pessoas que
fabricam bens e serviços que você consome: de ar-condicionado e
automóveis a produtos contendo zinco e zircônio.
Entre
os benefícios de uma sociedade baseada na divisão do trabalho está o
fato de que o volume de conhecimento empregado nos processos de produção
cresce contínua e exponencialmente. Em vez de todas as pessoas viverem
como agricultores que visam apenas à subsistência, e que aplicam seus
escassos conhecimentos produtivos apenas para si próprias, sob um
arranjo de divisão do trabalho o volume de conhecimento aplicado na
produção passa a refletir todo o conjunto combinado de conhecimentos de
todas as diferentes especializações.
E
cada indivíduo, na condição de comprador dos bens e serviços de outras
pessoas, se beneficia deste radicalmente ampliado conjunto de
conhecimentos.
Uma
sociedade baseada na divisão do trabalho, e todos os seus benefícios,
não seria possível caso não houvesse dinheiro. Na ausência do dinheiro,
bens e serviços só poderiam ser trocados por outros bens e serviços por
meio da prática direta do escambo.
O
produtor de cada bem ou serviço teria de encontrar alguma maneira de
trocar o bem ou serviço específico que ele produziu por todos os bens e
serviços que ele deseja adquirir de todas as outras pessoas.
Por
exemplo, os produtores de ácido sulfúrico, de vigas de aço, de
rolamentos, de chips de computadores, de cortes de cabelo etc. teriam de
encontrar alguma maneira de oferecer seus bens e serviços em troca de
comida, roupa e alojamento.
Porém,
quantos agricultores ou donos de mercearia, quantos comerciantes ou
fabricantes de roupas, quantos proprietários de imóveis, incorporadoras
ou financiadores hipotecários teriam necessidade de tais produtos —
principalmente com uma frequência cotidiana?
Mais:
como poderiam os produtores de bens tão valiosos e indivisíveis, como
carros ou imóveis, oferecer estes seus produtos em troca de coisas de
pequeno valor, como um pedaço de pão? Eles não têm como fragmentar
carros ou imóveis em pedaços menores e usar esses pedaços como moeda de
troca para conseguir pão.
Nestas
e em praticamente todas as outras situações, um tremendamente
complicado e oneroso processo de trocas indiretas teria de ser feito,
tais como, por exemplo, trocar chips de computadores por computadores,
trocar computadores por farinha de trigo (supondo que alguém conseguiria
encontrar um dono de moinho de trigo que necessitasse de um computador
naquele exato momento), e trocar farinha de trigo por pães (supondo que
alguém teria uso para caminhões e armazéns lotados de pães).
No
fim, cada indivíduo teria de criar uma enorme e variada coleção de bens
que pudesse satisfazer terceiros para, com isso, convencê-los a
participar de qualquer transação comercial. Cada indivíduo teria de ter
uma variedade de bens que teriam de ser utilizados para pagar
empregados, consumidores e fornecedores. E todos estes, por sua vez,
também teriam de incorrer em uma série de transações complicadas para
também conseguirem os bens e serviços que querem, e para acumular os
bens que necessitariam apenas para transacionar com terceiros.
Simplesmente seria impossível para cada individuo obter os bens e serviços que desejam ou necessitam.
Outro
problema que existiria na ausência do dinheiro seria a total
incapacidade de se calcular custos, de modo que ninguém conseguiria
saber se suas operações foram bem-sucedidas. O fabricante de chips de
computador, por exemplo, começou com uma determinada quantidade de
silício e com uma determinada quantidade de maquinário de fabricação de
chip. Após utilizar todo o silício e exaurir uma parte da vida útil de
seu maquinário, ele fará trocas comerciais e terminará em posse de uma
determinada quantidade de pães ou de um punhado de bens pelos quais pães
podem ser trocados.
Como
poderá esse produtor saber se teve lucro ou prejuízo em sua operação?
(Vale ressaltar que este é exatamente o tipo de problema que ocorre em
uma economia socialista, a qual, como Mises demonstrou, é incapaz de calcular custos).
Na
ausência do dinheiro, a única maneira confiável de adquirir itens
básicos e de primeira necessidade seria ou tentando produzir cada um
deles por conta própria, como um agricultor de subsistência, ou tentando
produzir bens e serviços que agricultores estão sempre demandando — por
exemplo, você teria de se tornar um ferreiro ou um médico rural.
Mas
isso, obviamente, significaria a completa destruição da extremamente
produtiva especialização gerada pela economia baseada na divisão do
trabalho, e a abolição da oferta da enorme variedade de bens e serviços
vitais para um moderno padrão de vida.
O
resultado seria um apavorante empobrecimento e uma explosão na
mortalidade, levando a uma acentuada despopulação. Um precedente
histórico deste exemplo ocorreu no século III d.C.: uma das principais
razões para o colapso do Império Romano foi a destruição do dinheiro.
Com o dinheiro, todo o progresso é possível
A existência do dinheiro impede esses problemas.
Por
causa do dinheiro, um produtor não tem de produzir apenas aquilo que
seus ofertantes de bens e serviços essenciais querem. Tudo o que ele tem
de fazer é produzir algo que qualquer pessoa, de qualquer lugar do
mundo, queira e esteja disposta a dar seu dinheiro em troca.
Pois,
uma vez em posse deste dinheiro, tal produtor poderá agora comprar o
que desejar de quem ele quiser — afinal, o dinheiro é algo que todos
querem, é a mercadoria de mais fácil comercialização em uma economia.
Desta
maneira, a existência do dinheiro radicalmente aumenta o grau em que a
divisão do trabalho pode ser ampliada e aprofundada.
Ao mesmo tempo, o dinheiro fornece a base intelectual para a conduta da sociedade baseada na divisão do trabalho.
Por
causa do dinheiro e da existência de preços monetários para todos os
bens e serviços, os produtores se tornam capazes de comparar suas
receitas monetárias com seus custos monetários e, com isso, saber se
estão sendo eficientes em sua produção.
Em
uma economia monetária, aquele fabricante de chips de computado sabe o
custo monetário do silício e do maquinário utilizado para fabricar os
chips, bem como o valor monetário dos chips que ele produz e vende.
Supondo
que o poder de compra do dinheiro não tenha caído significativamente
entre o momento em que o produtor comprou seus meios de produção (bens
de capital e mão-de-obra) e o momento em que ele vende seus produtos, um
lucro monetário significa um aumento em sua capacidade de adquirir bens
e serviços de terceiros. Consequentemente, isso comprova que sua
operação foi bem-sucedida.
Intimamente
relacionado a isso está o fato de que a existência dos preços torna
possível comparar os custos de se utilizar diferentes métodos de
produção e, consequentemente, escolher o mais econômico. O sistema de
preços — possibilitado pelo dinheiro — torna possível comparar a
lucratividade de se produzir diferentes produtos, a lucratividade de se
investir em áreas diferentes e, acima de tudo, comparar em termos
remuneratórios as vantagens de se trabalhar em uma determinada ocupação
em vez de em outra.
Os
preços estabelecidos pelo mercado permitem que os empreendedores
descubram novas informações sobre o atual estado do mercado e utilizem
esse conhecimento para aproveitar novas oportunidades de lucro. É essa
busca pelo lucro que os leva a atuar de forma empreendedora, comprando
fatores de produção a preços baixos, utilizando-os para transformar
matéria-prima em bens de consumo, e vendendo o produto final a preços
mais altos.
Como o explicou Mises:
O que possibilita o surgimento do lucro é a ação empreendedorial em um ambiente de incerteza. Um empreendedor, por natureza, tem de estar sempre estimando quais serão os preços futuros dos bens e serviços por ele produzidos. Ao estimar os preços futuros, ele irá analisar os preços atuais dos fatores de produção necessários para produzir estes bens e serviços futuros.
Caso
ele avalie que os preços dos fatores de produção estão baixos em
relação aos possíveis preços futuros de seus bens e serviços produzidos,
ele irá adquirir estes fatores de produção. Caso sua estimação se
revele correta, ele auferirá lucros.
Ou
seja, é a existência de preços monetários surgidos livremente no
mercado o que permite a apreensão de informações e todo o subsequente
processo racional de produção. Sem preços monetários de mercado não há
cálculo econômico porque a criação e a transmissão de conhecimento
empreendedorial necessário para coordenar a sociedade ficam bloqueadas.
Igualmente, o dinheiro permite a divisão intelectual do trabalho e a especialização da mão-de-obra.
A
divisão do trabalho é um arranjo em que cada indivíduo se especializa
naquilo em que é bom e, desta maneira, ganha seu sustento produzindo —
ou ajudando a produzir — um bem ou um serviço.
A divisão do trabalho é algo cuja plenitude só pode ocorrer sob o sistema capitalista com preços monetários.
Havendo
preços monetários e havendo a possibilidade de se calcular custos
(ambas as coisas só são permitidas pelo dinheiro), cada indivíduo pode
escolher se especializar naquela ocupação em que ele terá o maior ganho
possível de acordo com suas habilidades; o indivíduo irá se especializar
na produção daqueles bens e serviços que ele é capaz de produzir com
mais eficiência para, em seguida utilizar sua renda monetária (alta, por
causa da sua especialização), para comprar aqueles bens e serviços que
são produzidos de maneira mais eficiente por outros indivíduos em outras
localidades.
Um
indivíduo maximiza seu bem-estar quando pode se especializar naquilo
que faz melhor e, em decorrência disso, utiliza sua receita monetária
para comprar, ao menor preço possível, os bens e serviços de que
necessita.
Em
uma economia monetária, as pessoas — exatamente por poderem adquirir
bens e serviços fornecidos por terceiros que são melhores no suprimento
destes — podem se concentrar naquilo em que realmente são boas.
Consequentemente,
todo o progresso permitido pela divisão do trabalho ocorre. Tal arranjo
é o que permite o surgimento de especialistas como neurocirurgiões,
cardiologistas, oftalmologistas, gastroenterologistas, agricultores,
carpinteiros, alfaiates, pilotos de avião, professores, financistas,
instrutores de ioga, artistas, cineastas, chefs, contadores e
empreendedores do ramo de tecnologia.
A
especialização em cada uma destas profissões só ocorre porque cada
indivíduo calculou os custos e os benefícios de se especializarem nelas e
de venderem o resultado de sua especializações para consumidores
voluntários. Tudo isso só é possível porque há preços livremente
formados pelo uso do dinheiro.
O
efeito de tais indivíduos se especializarem em cada uma destas áreas é o
surgimento de um corpo de conhecimento tão extenso e disperso que gera a
existência de uma infinidade de produtos.
Essa multiplicação da quantidade de conhecimento voltada ao processo produtivo gera um aumento contínuo e progressivo da própria quantidade de conhecimento, criando um ciclo de progresso que se retroalimenta.
A importância da moeda sólida: a destruição de um ciclo econômico
Tendo entendido tudo isso, torna-se evidente a importância de se ter uma moeda sólida.
Uma
moeda sólida é simplesmente aquela que não gera uma falsificação de
todo o processo de cálculo econômico. Segundo o próprio Ludwig von
Mises, para que o cálculo econômico ocorra de maneira acurada, tudo o
que é necessário é evitar grandes e abruptas flutuações na oferta
monetária.
Se
a oferta monetária — a quantidade de dinheiro na economia — é profunda e
abruptamente alterada, todo o processo de cálculo econômico é
falsificado.
Atividades
e ocupações que até então não eram atraentes (por não serem lucrativas)
repentinamente se tornam rentáveis. Mas a consequência é nefasta.
Excetuando-se
a hiperinflação — em que o próprio cálculo de preços, custos e lucros
se torna impossível para prazos maiores do que 30 dias —, o caso mais
clássico de falsificação do cálculo econômico decorrente de manipulações
na oferta monetária são os ciclos econômicos.
Quando o Banco Central atua para reduzir artificialmente os juros, ele provoca uma expansão da oferta monetária.
Estes dois fatores (juros menores e expansão monetária) faz com que
aqueles investimentos que antes não eram atraentes repentinamente se
tornem promissores.
Quando
os juros dos empréstimos bancários são reduzidos (em decorrência do
maior volume de dinheiro que agora pode ser emprestado), aqueles
projetos de longo prazo que antes eram inviáveis tornam-se agora —
exatamente por causa dos juros mais baixos e do maior volume de dinheiro
— aparentemente viáveis.
Esses
projetos de longo prazo — como, por exemplo, empreendimentos
imobiliários, construção de shoppings, fabricação de máquinas, e
ampliação da capacidade produtiva das indústrias — são aqueles que
demandam mais capital e mais investimentos vultosos. O que antes parecia
caro, agora, repentinamente — por causa dos juros menores e do maior
volume de dinheiro disponível — parece bem mais acessível.
Consequentemente,
vários projetos e empreendimentos de longo prazo que antes se mostravam
desvantajosos tornam-se agora aparentemente (muito) lucrativos.
Esse
novo dinheiro criado pelo Banco Central e injetado na economia por meio
do sistema bancário (via concessão de empréstimos) faz empreendedores
pensarem que outras pessoas pouparam dinheiro — reduziram seu consumo —,
desta forma liberando capital para a economia.
No entanto, a realidade é que não houve nenhum aumento na poupança, e nenhum aumento em bens de capital. Houve apenas criação de moeda e manipulação de juros.
Só
que, em algum momento, inevitavelmente, preços e custos começarão a
subir, e consequentemente os juros bancários também subirão (se os
bancos não subirem os juros, receberão de volta uma moeda valendo muito
menos do que quando emprestaram).
Neste
ponto, com a subida dos juros, a expansão do crédito é interrompida (ou
fortemente reduzida), os juros de longo prazo sobem, a expansão
monetária é desacelerada, a renda e a demanda param de crescer, e os
investimentos se comprovam sem sustentação, pois não havia poupança real
os lastreando.
O
mercado inevitavelmente irá impor o desejo dos consumidores e todos
estes empreendimentos que até então pareciam lucrativos revelar-se-ão um
grande desperdício.
Vários
investimentos de longo prazo feitos durante o período da expansão
monetária se tornam ociosos, revelando que sua produção foi um erro e um
esbanjamento desnecessário (o que os fez ser distribuídos
incorretamente no tempo e no espaço) porque os empreendedores se
deixaram enganar pela abundância do crédito, pela facilidade de seus
termos e pelos juros baixos estipulados pelas autoridades monetárias.
Vale
ressaltar que a expansão monetária não aumenta a produção. A expansão
monetária altera a produção. Ela desvirtua a produção. Ela retira
recursos de determinados setores e os redireciona para outros setores.
Por isso, a teoria dos ciclos econômicos é uma teoria sobre
investimentos errôneos e insustentáveis (os malinvestments). Estes
investimentos, uma vez descobertos, têm de ser liquidados. Este processo
de liquidação é a recessão.
Por
isso, criar moeda não tem como criar riqueza nem aumentar produção.
Criar moeda apenas desvirtua a produção e mal direciona recursos. Há
menos produção em determinados setores e mais produção em outros
setores. A produção total não aumenta.
No
final, os investimentos acima imobilizaram capital e recursos escassos
para seus projetos, recursos estes que agora não mais estão disponíveis
para serem utilizados em outros setores da economia.
No
geral, a economia está agora com menos capital e menos recursos
escassos disponíveis, pois boa parte foi imobilizada em empreendimentos
insustentáveis no longo prazo.
Ciclos
econômicos, portanto, são um fenômeno tipicamente causado pela
manipulação dos juros e pela expansão monetária. É um fenômeno inerente a
qualquer arranjo que não tenha uma moeda sólida.
Para concluir
Ao
radicalmente aumentar a amplitude e a profundidade da divisão do
trabalho, e ao fornecer o arcabouço intelectual essencial para orientar a
condução dessa divisão do trabalho, o dinheiro é o que torna possível a
moderna civilização material, com seu crescente conforto e bem-estar.
O dinheiro é o pilar essencial de tudo o que existe de bom no mundo material.
Manipulações
artificiais em sua quantidade não apenas não têm como gerar riqueza,
como, ao contrário, tendem a destruí-la em decorrência de toda a
falsificação do cálculo econômico que tal medida gera.
Postado há 2 days ago por Orlando Tambosi

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