Isaiah Berlin foi o intelectual liberal que defendeu a criação do Estado judaico sem se iludir com fanatismos. João Pereira Coutinho via FSP:
Em 1948, depois do nascimento do Estado de Israel, uma discussão bizarra aconteceu na Inglaterra. Será que os judeus da diáspora deveriam continuar espalhados pelo mundo?
Ou, tendo Israel, poderiam agora emigrar em massa para um Estado só deles?
O romancista Arthur Koestler e o filósofo Isaiah Berlin, dois conhecidos sionistas, debateram o assunto.
O primeiro defendia a emigração coletiva para Israel em tons claramente autoritários. Só havia esse caminho, afirmava Koestler.
Isaiah
Berlin tinha uma interpretação diferente: antes de Israel, os judeus
tinham poucas escolhas nas sociedades gentias —podiam se integrar,
recusar essa integração ou ficar no meio termo. Em qualquer dos casos, eram sempre estrangeiros em terra estrangeira.
Israel
normalizou a condição dos judeus ao introduzir uma nova variante. Sim,
haveria judeus que rumariam para Jerusalém (Berlin foi convidado a
isso).
Mas
mesmo para os que optassem não o fazer (Berlin, idem), Israel era
igualmente libertador: porque, agora, ficar na Europa ou em qualquer
parte do mundo já não era uma fatalidade. Era uma escolha individual.
Muitos
liberais nunca entenderam plenamente esse raciocínio. E sempre partiram
do pressuposto de que o sionismo de Berlin estava em tensão, quando não
em contradição, com o seu liberalismo cosmopolita.
Não
está, não. Para Berlin, liberdade sempre significou ter o maior número
possível de portas abertas, sem eu ser obrigado a escolher uma delas.
Israel,
na interpretação de Kostler, fechava todas as portas, exceto uma. Para
Berlin, Israel abria pelo menos duas portas —ficar ou partir— deixando
aos indivíduos a escolha final.
Se
relembro essa história é porque li, com alguma estranheza, um texto no
Wall Street Journal sobre a relação problemática entre Hannah Arendt e Isaiah Berlin.
Não
vou resumir os termos dessa relação; há um novo livro na praça,
intitulado "Hannah Arendt and Isaiah Berlin: Freedom, Politics and
Humanity", onde Kei Hiruta analisa o assunto. (Ainda não li, confesso,
mas conheci Hiruta anos atrás, em Oxford, e fiquei impressionado com a
erudição do jovem pesquisador).
Meu
ponto é com o autor da resenha, Norman Lebrecht, para quem a
hostilidade entre Berlin e Arendt também passava pela atitude divergente
de ambos sobre Israel.
Berlin, um defensor do Estado judaico; Arendt, sempre hostil a tal construção, por considerar Israel um anacronismo nacionalista —uma solução do século 19 transplantada para o século 20.
Para
Lebrecht, isso significa que Arendt valorizava a liberdade individual
acima de tudo —e Berlin sucumbia ao apelo da tribo e do nacionalismo.
Ficou célebre, aliás, a resposta de Hannah Arendt
a Gershom Scholem quando este a acusou de não ter "amor pelo povo
judaico". Arendt replicou que apenas sentia amor pelos amigos, não por
idealizações românticas.
Em teoria, faz sentido. Mas, na prática, essa proclamação ganha contornos pedantes quando a "solução final" foi pensada para exterminar um povo inteiro, incluindo os amigos de Arendt e a própria autora. Os nazis não discriminavam na hora das matanças.
Por
outro lado, se Arendt era contrária a um Estado judaico, que solução
propunha ela para o antissemitismo secular que teve no Terceiro Reich o
seu momento mais sinistro?
Propunha
um "movimento nacional revolucionário genuíno", capaz de incluir os
interesses do povo árabe na Palestina. Essa ambição, para além de vaga
(o que seria tal movimento?), era impraticável —as lideranças palestinas
recusaram a partilha do território "ab initio".
Isaiah
Berlin não era um apoiante acrítico de Israel; um dos seus últimos
textos, ditado antes da morte em 1997 e publicado alguns dias depois (no
jornal Haaretz), continuava a defender a solução dos dois Estados e
condenava o fanatismo judeu (que assassinara o premiê Yitzhak Rabin) como nocivo para a paz.
Mas
Berlin nunca se iludiu com as sereias da abstração. Se o problema
judaico se definia por "um excesso de história e um déficit de
geografia", Israel era a resposta a esse problema, libertando todos os
judeus pelo alargamento da possibilidade de escolha individual.
No
fundo, Berlin intuía que o desaparecimento de Israel voltaria a colocar
todos os judeus, e não apenas os israelenses, à mercê da bondade dos
anfitriões.
E quem, conhecendo história, confia na permanência dessa bondade?
É uma pergunta que não envelheceu uma ruga.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nenhum comentário:
Postar um comentário