Costumava haver na América uma contracultura (a da esquerda radical). Agora há duas (a outra vindo da direita radical). Resta saber quem assumirá a defesa dos “valores da classe média”. Texto do professor João Carlos Espada para o Observador:
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Já tudo será dito e re-dito sobre a chamada crise política portuguesa —
a qual, francamente, não me parece muito grave, uma vez que eleições
democráticas foram pacificamente convocadas pelo Presidente da República
democraticamente eleito. Não creio, francamente, que eu possa
acrescentar algo relevante —sobretudo porque raramente vejo televisão e
não frequento as redes sociais. Mas talvez não fosse pior, apesar de
tudo, alargar um pouco o horizonte da conversação.
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Gostaria de introduzir o tema das eleições estaduais americanas,
designadamente a surpreendente vitória republicana na Virginia — que Joe
Biden tinha ganho folgadamente apenas há um ano. O tema está associado
aos péssimos resultados nas sondagens do Presidente Biden: tendo sido
eleito com mais votos do que qualquer um dos anteriores presidentes
americanos, Biden tem hoje níveis de aprovação nas sondagens
extremamente baixos — apenas Donald Trump terá conseguido níveis de
aprovação mais baixos durante a sua presidência.
A
revista The Economist, vincadamente centrista, é peremptória sobre as
razões. desses resultados. O Presidente Biden, tendo sido eleito como
alternativa moderada ao radical Trump, está a ficar refém da ala
esquerdista do partido democrata. Deve ser recordado, a propósito, que
esta patética ala esquerdista, simbolizada pelo patético sr. Bernie
Sanders, teve de aceitar Biden como candidato capaz de ganhar o centro
contra o patético sr. Trump — o qual, recordo, nunca abotoava o casaco e
gesticulava e gritava como um vulgar carroceiro (com as devidas
desculpas aos muito honrosos profissionais carroceiros).
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Por outras palavras, o esquerdismo revolucionário da ala radical do
partido democrata alimenta o direitismo revolucionário da ala radical do
partido republicano. Esta bipolarização entre extremos rivais — que
acontece também em algumas democracias europeias — tende a ser aceite
pelos analistas e comentadores políticos como “natural”, ou inevitável,
ou como definidora do actual panorama político. A verdade dos factos,
todavia, é que essa dicotomia entre radicalismos rivais é alheia à
tradição política americana, bem como à tradição política reformista dos
povos de língua inglesa.
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Um artigo recente de Matthew Continetti, Fellow do American Enterprise
Institute em Washington, identifica exemplarmente a dicotomia artificial
que está a ser criada entre duas contraculturas, da esquerda radical e
da direita radical — ambas contra a tranquila disposição liberal não
revolucionária das pessoas comuns e das famílias.
Em
“The two countercultures: Who will speak for ordinary Americans?”,
Continetti recorda que “costumava haver uma contracultura [a da esquerda
radical]. Agora há duas [a outra vindo da direita radical]”. E o autor
pergunta “quem irá falar pelas pessoas normais, os Americanos que amam o
seu país, que apenas desejam liberdade ordeira e oportunidade para
melhorar a sua condição e criar as suas famílias em ambientes estáveis?”
Num vigoroso apelo contra o tribalismo das duas contraculturas, o autor
conclui sublinhando que “a prioridade deve ser a promoção vigorosa e
não-sectária do que em tempos eram chamados ‘os valores da classe média’
— moderação, civilidade, empirismo, prudência, humildade, reserva e
reverência pela lei — e das famílias que transmitem estes valores à
geração seguinte”.
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A propósito da tranquila recusa de radicalismos revolucionários entre
os povos marítimos de língua inglesa, acabo de ler no Telegraph de
Londres que Barbados decidiu democraticamente fundar uma República — e,
por essa via, deixar de ter a Rainha Isabel II como chefe do estado.
[Isabel II, a propósito, é chefe de estado de 15 países, incluindo a
Austrália e a Nova Zelândia]. Na mesma notícia, sou informado de que o
Príncipe de Gales estará presente na cerimónia de consagração da nova
República em Barbados.
É
previsível que as duas contraculturas rivais — a revolucionária e a
contra-revolucionária — condenem o Príncipe de Gales. Uns porque
perpetua o que designam por “velho colonialismo” britânico; outros
porque abandona esse mesmo alegado “velho colonialismo”.
Mas
talvez o Príncipe de Gales exprima simplesmente a disposição de
equilíbrio e moderação que Edmund Burke — defensor da relutante
revolução americana de 1776 e crítico da ardente revolução francesa de
1789 — tinha definido como distintivo das democracias liberais: a
disposição das pessoas comuns em favor do equilíbrio e da moderação. A
expressão de Burke foi aliás muito marítima : “to preserve the equipoise
of the vessel in which he sails”.
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Uma pergunta inteiramente legítima deve no entanto ocorrer: se a
cultura política americana pertence à tradição moderada dos países
marítimos de língua inglesa, como explicar o radicalismo actual entre as
suas duas “contraculturas”? Confiando na tolerância e amizade dos meus
amigos americanos, basicamente centristas, peço que não me levem a mal
se citar o nosso amigo comum, Winston Churchill: “Americans will always
do the right thing, after exhausting all the alternatives”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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