Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais de domingo, 7 de novembro:
O
conjunto Anjos do Inferno lançou, no Carnaval de 1945, o grande hino da
política brasileira: “Lá vem o cordão dos puxa-sacos/dando vivas a seus
maiorais/Quem está na frente é passado pra trás/E o cordão dos
puxa-sacos cada vez aumenta mais”. Os autores, Roberto Martins e
Eratóstenes Frazão, não pensavam em indecência: puxa-sacos era o apelido
dos subalternos que, nas viagens, carregavam os sacos com a roupa dos
oficiais do Exército.
Sejamos
justos: Bolsonaro também não deve ter pensado que, ao dar a si mesmo o
prêmio de Mérito Científico, por decreto publicado no dia 4, estava
sendo indecente. Sejamos justos: se ele não pensa, como vai pensar em
coisa indecente? Não pensou, só fez: decretou-se Grão-mestre da Ordem
Nacional do Mérito Científico. Decretou também que o ministro da
Ciência, Marcos Pontes, é o chanceler dos meritíssimos. Paulo Guedes,
Economia, e Milton Ribeiro, Educação, receberam o título. Uma
curiosidade: há poucos dias, o meritíssimo Paulo Guedes chamou o
chanceler dos meritíssimos de burro. Mérito para ambos: um, o que
chamou; e o outro, que não respondeu.
Um
provérbio diz que Elogio em causa própria é insulto. No caso, nem
tanto: o decreto que criou o prêmio, do tempo de Fernando Henrique,
estabelece que o presidente da República será o Grão-Mestre. Mas justo
Bolsonaro, que cortou o orçamento de Ciência e Tecnologia para 2022 em
92%? Pois Bolsonaro deve estar orgulhoso do título que se concedeu.
Tira, põe
No
decreto, o tal prêmio de Mérito Científico é estendido a 32 cientistas
de verdade. No dia seguinte a premiação de dois deles foi cassada. Ambos
tinham feito estudos sobre a cloroquina e chegado à conclusão de que
não era adequada para os atingidos pela Covid.
Pura coincidência, claro.
Moro na brasa
Os
números não são ruins para Sergio Moro: normalmente, antes mesmo de se
declarar candidato a presidente, antes de fazer campanha, é o terceiro
nas pesquisas. Mas agora as coisas começam a ficar difíceis: até no
próprio partido que escolheu, o Podemos, há parlamentares que não o
toleram. Mais: o Podemos, sozinho, não tem estrutura para ganhar uma
eleição nacional, a menos que Moro repita o fenômeno que foi Bolsonaro e
empolgue eleitores – o que não é seu estilo.
E
nos demais partidos a rejeição a Moro é grande, em parte por seu
trabalho na Lava Jato, em parte por ter aceito participar do governo de
Bolsonaro, em parte por ter rompido com Bolsonaro. Há ainda os que temem
que, com poderes presidenciais, Moro seja perigoso. Como juiz de
primeira instância, manteve pessoas presas sem julgamento por muito
tempo, até que concordassem em fazer delações premiadas. E, de acordo
com relatos diversos, baseados em material capturado de suas conversas
com os procuradores, teria ultrapassado seus poderes legais. Se fez isso
como juiz de primeira instância, que faria como presidente?
Sua primeira viagem como pré-candidato a Brasília foi bem rala: não havia assim tanta gente querendo conversar com ele.
Opa!
A
decisão do procurador Deltan Dallagnol de deixar o Ministério Público e
talvez de entrar na política, candidatando-se a deputado federal)
acendeu todos os alarmes. Dallagnol trabalhou na Lava Jato com Moro, e a
entrada de ambos ao mesmo tempo nas disputas eleitorais despertou a
suspeita de que poderiam estar querendo lançar as bases de um partido
lavajatista.
Com
todos os defeitos que possam ter, Moro e Dallagnol não enfrentam apenas
a oposição do pessoal legalista, que acredita que os réus devem ter
todas as garantias: assustam ainda boa parte dos políticos, muitos dos
quais já enfrentam processos. Que é que os dois poderiam fazer com os
colegas que trabalham com o orçamento secreto, por exemplo?
A hora da verdade
A
PEC (proposta de emenda constitucional) dos precatórios – traduzindo,
que permite ao Governo adiar o pagamento de suas dívida já transitadas
em julgado – foi aprovada em primeiro turno, na Câmara, com quatro votos
de folga. O segundo turno será votado na terça. Há partidos que são
contra mas têm deputados que votaram a favor, alegando que o dinheiro
que vai sobrar será destinado a ajudar a população mais pobre; esses
partidos irão trabalhar para que suas bancadas votem unidas contra o
projeto, já que, em sua opinião, a maior parte do dinheiro irá
indiretamente para a campanha de reeleição de Bolsonaro. É possível que
tenham êxito, já que as campanhas de reeleição dos atuais parlamentares
dependem da distribuição de dinheiro pelo comando partidário. Mas o
orçamento secreto tem poder: conforme for manobrado, votam por
Bolsonaro.
Podem até tapar o nariz, mas votam.
Black prices
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BLOG ORLANDO TAMBOSI
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