A COP26 se mostra um espetáculo grotesco de extravagância e hipocrisia. Brendan O'Neill, da Spiked, para a revista Oeste:
A
COP26 se mostra um espetáculo grotesco, com níveis de extravagância e
hipocrisia dignos de Versalhes. Os ricos, os poderosos e as pessoas
cheias de virtude e soberba estão se reunindo em Glasgow para palestrar
para o restante de nós sobre como nós estamos prejudicando o planeta com
todo o nosso lixo e a nossa arrogância. Eles chegaram em seus jatos
particulares para lamentar a tragédia das emissões da indústria
aeronáutica. Farão refeições cinco estrelas nos intervalos de questionar
se as pessoas devem comer menos carne. Repousarão a cabeça cheia de
virtudes e cansaço em travesseiros fofos e sedosos depois de longos dias
discutindo como conter as aspirações materiais das massas. O evento
promete ser uma das demonstrações mais desagradáveis de arrogância
oligárquica dos últimos tempos.
É
como se as elites estivessem apenas rindo na nossa cara agora. No outro
dia, vimos Patrick Vallance, conselheiro-chefe para assuntos
científicos do Reino Unido, dizendo que todo mundo terá de comer menos
carne e andar menos de avião se quisermos controlar essa coisa da
mudança climática. Um pouco depois, foi noticiado que cerca de 400 jatos
particulares voariam para a COP26, levando líderes mundiais e
executivos de grandes empresas para os ambientes luxuosos nos quais
torceriam suas mãos bem-cuidadas, preocupados com os crimes de carbono
da humanidade. As pessoas comuns são induzidas a sentir culpa por fazer
uma miserável viagem de avião por ano para fugir das atribulações e das
instabilidades da vida na sociedade capitalista por uma ou duas semanas,
enquanto aqueles que bebem champanhe em aviões que custam 10 mil libras
de aluguel por hora podem posar como defensores hiperconscientes da
pobre Mãe Natureza.
De
acordo com um relatório, os jatos privados que aterrissaram em Glasgow
emitiram cerca de 13 mil toneladas de carbono. É a mesma quantidade de
CO2 que 1.600 escoceses emitem em um ano. Get tae fuck — que é como os
escoceses dizem “vão à merda” — seria uma resposta totalmente razoável
para esses milionários dizendo à população escocesa, ou a quem quer que
seja, para viajar menos de avião, de carro ou para comer menos. John
Kerry, enviado especial de Joe Biden para o clima, está em Glasgow
fazendo cara de sofrimento para as câmeras diante da possível destruição
do planeta pelo calor. Três meses atrás, ele foi de jato particular
para Martha’s Vineyard para participar das suntuosas celebrações do
aniversário de 60 anos de Barack Obama. Foi o 16º passeio de avião que
sua família fez neste ano. De um de seus palácios, o príncipe Charles
afirmou que a COP26 é a “última chamada” para o planeta. A família real
britânica percorreu coletivamente milhas aéreas suficientes nos últimos
cinco anos para ir até a Lua e voltar. E dar a volta na Terra pela linha
do Equador três vezes. Em resumo: 545.161 milhas, ou 877.351
quilômetros. Leitor, eles estão zombando de nós.
Sem
contar todos os carros. Andar de carros é considerado por todos os
defensores do meio ambiente, e por líderes metidos a ecologistas como
Sadiq Khan, uma das atividades mais idiotas e destruidoras de Gaia que
as plebes podem fazer. Os agitadores do grupo Insulate Britain têm
ganhado aplausos dos comentaristas nas últimas semanas por bloquear a
passagem de ecocriminosos terríveis como mães levando os filhos para a
escola e entregadores tentando levar alimentos e outros itens de
primeira necessidade. E, no entanto, Joe Biden estava em Roma para o G20
sendo transportado por uma comitiva de 85 carros. Sua própria limusine
blindada, assim como sua versão de mentira, gera quase 2,5 quilos de
carbono por quilômetro percorrido — dez vezes mais que carros normais. E
os defensores do meio ambiente querem nos deixar com raiva do
trabalhador andando num caminhão cheio mantimentos e combustível? É uma
loucura.
Quando
acabou sua agenda em Roma, Biden foi para Glasgow no Air Force One.
Quatro jatos o acompanharam. Combinados, eles emitiram estimados
979.759,5 quilos de carbono em cinco dias. Isso está ficando ridículo.
As pessoas têm pleno direito de perguntar nos próximos dias por que
aqueles que vivem em berço do ouro, que viajam de jato e avião para
todos os cantos do mundo, que desfrutam de mais luxos em uma semana que a
maioria de nós pode esperar viver em uma década, podem discorrer sobre o
suposto sufocamento do planeta causado pela humanidade com o carbono e a
poluição. Como Joanna Lumley, viajante famosa e muito bem paga, dizendo
que as viagens devem ser racionadas. Ou como Emma Thompson,
literalmente viajando de primeira classe de Los Angeles a Londres para
participar de um protesto Extinction Rebellion sobre os males do CO2. Ou
ainda Harry e Meghan participando de um show com foco na “necessidade
urgente” de ações pelo clima e então indo embora em um jato particular. O
que a oligarquia verde carece em consistência moral ela mais do que
compensa em descaramento.
Mas
a questão é: sempre foi assim. Já faz anos que ficou claro que o
movimento ambientalista é, na essência, uma atividade para homens ricos,
criado por pessoas que vivem vidas luxuosas enquanto reclama dos
hábitos destrutivos das massas. Quem consegue esquecer quando David de
Rothschild — sim, ele vem da família de banqueiros — escreveu Global
Warming Survival Handbook, que continha maravilhosas pérolas de
sabedoria como “use um suéter” (para que você possa desligar a calefação
da sua casa) e “plante seus próprios tomates” (para fazer menos
compras)? Ou quando George Monbiot — que estudou na Stowe e no Brasenose
College e é descendente dos milionários da J. Lyons — afirmou que o
ambientalismo é “uma campanha não por abundância, mas por austeridade”?
Ou quando ativistas do movimento Plane Stupid pediram que os voos
baratos fossem banidos porque tudo o que fazem é permitir que boçais
viajem para “destinos no Leste Europeu escolhidos não por sua cultura
nem arquitetura, mas porque é possível viajar para lá por 99 centavos de
libra e encher a cara por 10 libras”?
Há
anos está claro que o movimento verde é uma nova aristocracia que
convoca suas vozes mais loquazes na velha aristocracia, bem como nas
elites de classe média em cargos de chefia e no establishment
tecnocrata. Esse é um movimento que permite que descendentes de famílias
de banqueiros extremamente ricas digam que o restante de nós pode
colocar uma blusa, em vez de ligar o aquecimento central de casa, e que
convida príncipes para parecerem tristes por causa de todas as viagens
de avião e de todas as refeições com carne que os pobres estão fazendo.
Falei que era uma versão moderna de Versalhes, mas, na verdade, é pior
do que isso. Pelo menos a bobinha da Maria Antonieta queria que os
pobres comessem brioche (ela só não tinha se dado conta de que eles não
tinham brioches). Essa nova leva na verdade faz campanhas contra o
consumo do equivalente aos brioches do século 21 — carne, calefação,
viagens baratas. “Que não comam brioche” é o novo apelo da
ecoaristocracia.
A
questão aqui não é a hipocrisia, ainda que ela sem dúvida seja
abundante. É o fato de que o ambientalismo se tornou a ideologia central
das novas classes dominantes. A “ecologização” das elites tem sido um
dos desenvolvimentos mais extraordinários das últimas duas décadas. Em
todo o Ocidente, o movimento verde foi abraçado por quase todos os
campos do establishment, das elites políticas até a classe média,
passando pelo universo da educação e pela cultura popular.
Não
é difícil ver por quê. É a ideologia perfeita para as nossas elites
confusas. Ela possibilita que elas criem magicamente uma sensação de
propósito moral urgente — afinal, estão salvando o planeta! E se presta
lindamente, ou melhor, assustadoramente, ao projeto de engenharia
social: diminua seus horizontes, aprenda a viver com menos, refaça sua
própria imagem como uma criatura destruidora que precisa de um controle
vertical, em vez de um ser criativo que pode ajudar a levar a humanidade
adiante. Ela naturaliza as limitações do capitalismo, encorajando as
pessoas a fazer as pazes com a austeridade e com a desaceleração porque o
crescimento econômico é uma ideia ruim que explora a natureza. E é uma
ideologia muito difícil de desafiar. Escalar a ciência para promover
essa ideologia das classes dominantes significa que qualquer um que a
questione — qualquer pessoa que reivindique mais crescimento, mais
ambição, uma pegada humana maior — pode rapidamente ser descartado como
uma tragédia anticientífica, como “negacionista” das verdades reveladas
pela climatologia. Sua engenharia social, seu controle social e seu
rígido gerenciamento censor das aspirações sociais são o que torna a
ideologia verde tão atraente para as novas elites.
A
COP26 vai ajudar a consolidar essa nova aristocracia. E, bizarramente, a
esquerda vai vibrar. Essa esquerda que um dia afirmou: “Não pregamos um
evangelho de necessidade e escassez, mas de abundância… Não pedimos a
limitação dos nascimentos, a frugalidade precária e a abnegação.
Conclamamos uma grande produção que vai fornecer para todos, e mais do
que as pessoas podem consumir” (Sylvia Pankhurst). Ela agora pede que os
super-ricos tenham ideias cada vez mais criativas para conter os
péssimos hábitos e os sonhos materiais das massas. Que desastre. Não é a
mudança climática que representa a maior ameaça à humanidade no começo
do século 21. É a perda de fé da burguesia em seu projeto histórico, e
sua arrogante generalização dessa perda de fé em uma nova ideologia
“verde”, diante da qual todos devemos nos curvar. Uma revolta contra o
movimento ambientalista talvez seja a causa mais necessária da nossa
era. Quem está dentro?
Brendan
O’Neill é jornalista-chefe da Spiked e apresentador do podcast The
Brendan O’Neill Show. Ele está no Instagram: @burntoakboy
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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