Além de grande escritor, Dostoiévski foi um profeta político que anteviu os totalitarismos e inquisições de um mundo sem Deus. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:
Fiódor Dostoiévski, que nasceu em Moscovo há 200 anos, escreveu estas linhas à viúva de um dos conspiradores “Dezembristas”:
“De
mim, dir-vos-ei que sou um filho deste século, um filho da descrença e
da dúvida, até ao momento presente e, quem sabe (eu sei), até ao túmulo.
Que sofrimentos horríveis me custou e me custa esta sede de acreditar
que é tanto mais forte na minha alma, que já não tenho argumentos contra
ela. E entretanto, às vezes, Deus manda-me momentos de absoluta
serenidade; nesses momentos eu amo e sei que sou amado; e foi nesses
momentos que construí um credo que me ilumina e que me santifica tudo.
Este credo é muito simples, ei-lo aqui: acreditar que não há nada mais
belo, mais profundo, mais simpático, mais razoável, mais viril, mais
perfeito que Cristo, e não apenas que não há nada assim mas, digo a mim
mesmo, com um amor ciumento, que não pode haver nada como Ele. Mais, se
me demonstrassem que Cristo estava fora da Verdade e se realmente a
Verdade estivesse fora de Cristo, eu preferia ficar com Cristo a ficar
com a Verdade.”
O problema do mal
Filho
de um século a que Léon Daudet chamaria “o estúpido século XIX”, um
século herdeiro do racionalismo dos Filósofos e continuador do seu
pensamento anti-religioso, Dostoiévski iniciou-se nos círculos
intelectuais críticos do czarismo em S. Petersburgo, depois de uma
infância infeliz e de uma adolescência de grandes leituras. Aí,
pertenceu ao grupo progressista de Mikhail Petrashevski, um seguidor de
Fourier. Não eram propriamente activistas revolucionários, mas o czar
Nicolau I, sob o trauma das revoluções de 1848, que tinham tido
repercussões nos limites ocidentais do Império, mandou, à cautela,
prender alguns dos jovens literatos frequentadores da tertúlia – entre
eles Dostoiévski, que ali tornara pública a célebre carta de Belinsky a
Gogol acerca da religião.
Foi
na noite de 22 para 23 de Abril de 1849 que foram presos e, depois,
julgados. Dostoiévski ficou entre os condenados à morte, levados ao
pelotão de fuzilamento. Só aí, na iminência da execução, lhes foram
lidas as sentenças que os condenavam, graciosamente, a oito anos na
Sibéria.
Data
desses anos de prisão e desterro, de que deixou testemunho em
Recordações da Casa dos Mortos, a revelação espiritual que o assaltou,
ao ler o Evangelho, aparentemente a única leitura permitida aos
condenados. Da Bíblia, do Velho Testamento, que lera em pequeno,
ficara-lhe como preferido o Livro de Job.
O
mundo ficcionado por Dostoiévski será sempre marcado por esta
inquietação metafísica, pela permanente tensão entre Deus e o Demónio, o
Bem e o Mal, e, sobretudo, pela perplexidade da coexistência, e até da
vitória, do Mal, numa Criação que sabia obra de um Deus infinitamente
bom e todo-poderoso. Alguns dos seus heróis, como o Raskolnikov de Crime
e castigo (1866), o Stavróguine de Os demónios (1872) ou o príncipe
Míchkin de O idiota (1869), vivem nesse dilema e contradição, em que uns
encarnam o Mal – ou os possuídos pelo Mal, como Stavróguin, ou Fiodor,
pai dos Karamazov –, e outros, como o príncipe Míchkin de O idiota, se
aproximam do Bem, do tal Bem absoluto consubstanciado por Cristo.
Autocracia, ateísmo, revolução
Porém,
não é tanto da monumental obra romanesca de Dostoiévski que quero aqui
falar, mas mais das concepções políticas e sociais do escritor no mundo
agitado e complexo da Rússia do seu tempo.
Perante
o Ocidente constitucional-liberal do século XIX, numa Europa de
sociedades oligárquicas governadas por monarquias hereditárias e
parlamentares nos limites do liberalismo britânico e do conservadorismo
militar prussiano, a autocracia autoritária russa parecia de outro
planeta.
Para
essa singularidade contribuíam muitos factores: desde logo, a extensão
do Império e o caracter de um povo que “se colonizava a si mesmo”, sob a
mão de ferro de Nicolau I, imperador nas três décadas entre 1825 e 1855
e considerado “o último monarca absoluto da Europa”. Havia também a
servidão dos camponeses, uma relíquia feudal em plena idade
constitucional – embora nos liberais e republicanos Estados Unidos se
mantivesse a escravatura até 1865.
Na
Rússia, a servidão, depois abolida por Alexandre II, em 1861, era
diferente da escravatura norte-americana. Ao contrário do escravo
norte-americano, o camponês russo não era propriedade do senhor. O
instituto da servidão russa vinha dos meados do século XVII e ligava o
servo à terra, à propriedade rural, de onde não podia sair sem
autorização do proprietário. Não sendo uma mercadoria, um objecto, como o
escravo negro nas plantações da Confederação, o camponês russo não
tinha liberdade de movimentos. A origem do sistema estava nos
privilégios concedidos pelo Czar à nobreza territorial (os Dvoriane) a
troco do serviço militar do Império.
Dostoiévski,
que viu o pai assassinado pelos seus servos, viveu dolorosamente e de
perto todas estas convulsões políticas e sociais. Depois de um longo
namoro com o progressismo e o socialismo utópico, sob a influência de
Belinsky, Fiódor voltou-se para o espiritualismo cristológico. E ainda
que permanecesse crítico da sociedade autocrática russa e do divórcio
entre as elites e o povo, perante o ateísmo e niilismo dos
revolucionários, tomaria partido pelo czarismo reformista de Alexandre
II, o que lhe valeria a condenação da esquerda progressista.
É
a esses meios revolucionários e utópicos que Dostoiévski vai buscar
inspiração para retratar, n’Os demónios, personagens que mais parecem
saídas da Rússia do século XX do que da Rússia do seu tempo. Homens
semelhantes aos que hão-de ascender ao poder com os bolcheviques e
exterminar os inimigos de classe, na fé cega de estarem a construir um
“mundo melhor”. Homens do futuro, cuja semente Dostoiévski antevê nos
anarquistas suicidas que se preparam para assassinar o czar reformista
Alexandre II. Em 1861, Alexandre libertara mais de 22 milhões de servos e
iniciara reformas liberais na Justiça, nos tribunais e na administração
local, mas o seu destino estava traçado. Dostoiévski, que morreu poucas
semanas antes do assassinato, já não assistiria à consumação do facto.
O
pensamento filosófico e político russo apresentava então as
contradições gerais do pensamento europeu, embora com notas próprias,
como a dicotomia eslavófilos-ocidentalistas, que vinha na tradição de
Pedro, o Grande, que procurara europeizar, à força, a Rússia profunda e
construíra S. Petersburgo com mão e coração de ferro. O antagonismo
Moscovo-S. Petersburgo, símbolo da contraposição das “duas Rússias”, era
outra especificidade do Império dos czares.
Nestas
batalhas culturais entre Rússias, o criador dos Karamazov escolheu o
cristianismo ortodoxo, embora, ao contrário dos eslavófilos, não
estivesse convencido do acesso privilegiado dos russos a uma qualquer
via rápida para a Salvação, ou sequer da vocação especial da Rússia para
modelo da Humanidade. Dostoiévski acreditava que a Rússia, a alma
russa, o povo russo, faziam parte dessa humanidade e dessa cultura
universal e que eram, nesse sentido, defensores da verdadeira Fé. Por
isso manifestaria a sua indignação ao ver nações ocidentais, europeias e
cristãs, como a França e a Grã-Bretanha, aliarem-se ao Império otomano,
ao “turco”, na guerra da Crimeia. Colocava-se, assim, no campo oposto
de Bakunine que, inspirado pelo materialismo de Feuerbach, via na crença
religiosa a razão da escravização, do atraso e da estupidez da Rússia e
da Humanidade.
Em
Os demónios – e mais tarde n’Os irmãos Karamazov – Dostoiévski
procurou, como todos os grandes escritores, ir ao fundo destas coisas. É
interessante e importante a actualidade política e filosófica dos seus
romances finais: Os demónios, que Albert Camus iria glosar em 1959 numa
peça de teatro homónima, também impressionou André Gide e, depois,
Malraux, que, em La tentation de l’Occident, faria referência aos à
importância da contradição eslavófila-ocidental na contraposição
Oriente-Ocidente.
Dostoiévski
inspirou-se para o título do romance Os demónios no episódio do
Evangelho do endemoninhado de Gerasa (Lucas 8, 26-50), quando Jesus
pergunta ao “espírito imundo” o nome, e ele lhe responde “Legião”,
porque os demónios eram muitos.
Para
alguns críticos, esses demónios são, com Dostoiévski, as ideias que
então possuíam o Ocidente – o racionalismo, o materialismo, o
utilitarismo, o niilismo e, acima de todas, o ateísmo –, ideias que as
personagens do livro encarnam. Stepan Trofimovich é o intelectual
liberal que, sem que o perceba ou queira, semeia o niilismo; e
Stravogin, o protagonista que personifica o mal ou a ausência radical da
consciência moral. Rico e aristocrata, o revolucionário niilista comete
todos os excessos e crimes: é o pedófilo que viola uma menina de 11
anos, levando-a ao suicídio, e o assassino inspirador e cúmplice de
assassinos que, tal como Kirilov, acaba por se suicidar. É de Stravogin a
frase que anuncia a morte da consciência: “Não conheço ou não sinto o
mal ou o bem, e não somente perdi a sensação, mas sei que não há mal nem
bem”.
Com
Dostoiévski voltamos sempre ao problema do Mal e da liberdade do homem
de o praticar. É n’Os irmãos Karamazov que Ivan conta ao seu irmão bom,
Aliocha, a história do Grande Inquisidor, do cardeal espanhol que, em
Sevilha, manda prender Jesus Cristo reencarnado e o condena à fogueira.
Dostoiévski
via no socialismo ateu do seu tempo um modelo de tirania que, abolindo
Deus como base da ordem social, recorria à tirania estatal como solução
final para o problema da estabilidade política e social. Para uma das
personagens de Os demónios, a revolução e a instauração da ordem
socialista iriam requerer um punhado de “revoltosos fortes”, capazes de
sacrificar cem milhões de vidas e de tomar conta de uma massa de
“revoltosos fracos”. Era uma antevisão do socialismo ateu e comunista,
instaurado na Rússia meio século depois, em que os “revoltosos fortes”
seriam os militantes do Partido, a vanguarda leninista, e os “revoltosos
fracos” os operários e os camponeses.
O
socialismo era, para Dostoiévski, “a realização social do ateísmo”, a
tragédia do homem emancipado da norma religiosa. E os quadros
médios-altos das revoluções totalitárias do século XX, dos apparatschiks
soviéticos aos jovens hierarcas das SS, iam ser ateus, materialistas
dialécticos ou darwinistas estéticos, mas ambos pagãos, descrentes de
qualquer transcendência à vida material racionalmente sentida e provada.
Ateus, tecnicamente capazes e intelectualmente superiores.
É
o socialismo, o humanismo ateu e o niilismo e a oposição às suas vozes
opressivas que moldam a política de Dostoiévski, se é que pode chamar-se
política a um pensamento que, assente na fé em Cristo, na fé em Deus
feito homem, se opõe à fé no homem feito Deus.
No
homem do materialismo científico do século XIX, Dostoiévski anteviu o
“homem novo” das revoluções totalitárias do século XX e os seus
“jardineiros” – os que, tendo condenado Deus à morte, se propunham
reeditar à força, em versão corrigida e justificada, um novo “Jardim das
Delícias” (“Jardineiro da Felicidade Humana” seria um dos epítetos
laudatórios de Estaline).
Velhos e novos possessos
Hoje,
os assassinos fanáticos ao serviço de um ideal político totalitário
desapareceram do Ocidente – mas, por influência do niilismo ocidental,
encarnaram nos jiadistas suicidas do Islão. Estão também em extinção os
idealistas da igualdade económica, mas surgiram os sectários de novas
utopias igualitárias, de causas e minorias atomizadas, decididos a
começar do zero, assolando realidades, desprezando tradições, proibindo
palavras, queimando livros, destruindo estátuas, mutilando grandes
obras.
E os velhos demónios, a par daqueles que Dostoiévski imaginou e criou no seu realismo fantástico, continuam entre nós.
Tomada
a terra e expulso o Altíssimo dos jardins dos homens, o assalto ao Céu
era inevitável. Dostoiévski, que conhecia bem o mau uso da liberdade
humana, não se teria espantado com o emergir da virtual omnipresença e
almejada omnipotência do “homo-deus”, apostado em vencer a morte, do
futurólogo Harari.
E
não o teria também surpreendido que o seu Grande Inquisidor, capaz de
condenar à morte o próprio Cristo, se visse agora reproduzido na fúria
persecutória dos inquisidores da tolerância e dos justiceiros da
inclusão, prontos a tomar de assalto a demoníaca burocracia de uma nova
religião laica.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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