Quem se diz "pela vida" e "pela saúde" não pode ser contra a entrada da iniciativa privada. Hélio Beltrão e Anthony Geller para o Instituto Mises:
Ontem, dia 7 de abril de 2021, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com sede em Brasília, suspendeu
todas as decisões judiciais de primeira instância que autorizavam
empresas privadas a importar vacinas contra a Covid sem a obrigação de
doação integral para a União.
A
legislação atual, bizarra, afirma que empresas até podem importar
doses, mas devem doar absolutamente tudo para o Sistema Único de Saúde
(SUS) até que o governo vacine os grupos prioritários.
No Congresso Nacional, há um projeto que permite que empresas importem doses para imunizar seus funcionários, desde que haja contrapartidas.
Uma destas contrapartidas é que a empresa doe ao SUS o mesmo número de
doses que adquiriu para os empregados. Ou seja, se uma empresa tem 50
funcionários e compra 100 doses para imunizá-los (cada funcionário
necessita de duas doses), ela tem de comprar outras 100 doses para
repassar ao SUS.
Este projeto foi aprovado na Câmara. Agora, depende da aprovação do Senado.
A
esquerda, obviamente, é contra. Os argumentos que ela utiliza contra a
importação de vacinas por empresas privadas são, no mínimo, esdrúxulos.
Eis um breve compêndio:
Um banqueiro de 50 anos de idade vai tomar a vacina antes que uma pessoa de 65, 63, 64 anos. Vários que estão esperando na fila de vacinação vão, por ato do Congresso Nacional, ver o seu lugar ser ultrapassado por um banqueiro que tenha dinheiro. […] Um funcionário desse banqueiro que tenha, por exemplo, 40 anos de idade, vai passar na frente de uma pessoa que também tem 40 anos de idade, mas tem doença cardíaca, doença pulmonar, diabetes ou alguma complicação que o faria estar à frente. - Alexandre Padilha (PT-SP)Esse negócio de vacina privada por fora do SUS e sem obedecer grupos de risco é muito característico da elite endinheirada. Aquela mesma que, durante 300 anos, manteve o povo negro escravizado no Brasil. — Bohn Gass (PT-RS)Nós precisamos ter vacinas massivas pelo SUS e não por empresas privadas. Isso é a consolidação do fura-fila. […] Não é a farmácia que vai comprar pro seu caixa. Não é uma empresa pequena que vai comprar para o seu padeiro, pro seu trabalhador. "Veja em Belo Horizonte quem foi que tomou a falsa vacina, foi o ex-senador milionário. — Jandira Feghali (PCdoB-RJ)Nós devíamos estar na Casa, aqui, discutindo as vacinas que não foram compradas pelo governo federal. Essa Casa não pode colaborar com o processo de desigualdade que nós já temos no Brasil. Nós não podemos de novo entrar nesse processo em que os mais pobres estão para trás. Já estão para trás na renda, já estão para trás no atendimento e não podem ficar para trás nas vacinas. — Gleisi Hoffmann (PT-PR)Hoje o setor privado já pode comprar vacina, desde que doe 100% para o SUS enquanto durar a vacinação dos grupos prioritários. […] O que está se querendo aqui é furar fila. Possibilitar que sejam vacinadas pessoas que não estão dentro das prioridades do Plano Nacional de Vacinação. — Talíria Petrone (PSOL-RJ)A rede privada pode comprar vacina? Pode, já tem lei pra isso. Compra e entrega pro SUS. O que a gente está contrário é que se compre e que se faça um brasileiro, que tem comorbidade, tomar a vacina depois. É isso que é indefensável. Se a rede privada quer ajudar, compra e entrega (ao SUS), para que o critério da universalidade e da gratuidade, que são pilares do SUS, possam ser garantidos. — Marcelo Freixo (PSOL-RJ)
Observe que não há argumentação racional nenhuma. Há apenas afetações de compaixão e efusões de emotividade.
Já a Advocacia Geral da União, que também é contra o projeto, afirmou que a entrada da iniciativa privada:
a) irá gerar um caos na política pública de vacinação organizada;
b)
fere o princípio da igualdade, afetando o objetivo de concentrar todos
os esforços para a imunização de todas as pessoas dos grupos
prioritários;
c) viola a equidade e a universalidade no acesso à vacina;
d)
prejudica a coordenação do plano, uma vez que não será possível que os
órgãos competentes acompanhem e fiscalizem o processo de vacinação a ser
levado a efeito pelas entidades de classe.
Bem, o item b é contraditório. Defende igualdade ao mesmo tempo em que defende prioridades. Isso não é argumento.
O
item c também é contraditório. A livre importação de vacinas irá
aumentar a oferta de vacinas em território nacional, consequentemente
aumentando a universalidade ao acesso.
Já
os itens a e d, que afirmam praticamente a mesma coisa, apenas
evidenciam ineficiências do estado, e não da iniciativa privada.
Por que a importação de vacinas por empresas privadas deve ser liberada
Vamos
direto ao ponto: quem realmente é "pela vida" e "pela saúde" tem de
apoiar a compra e a distribuição de vacinas por entes privados.
Quanto
mais vacinas forem importadas, maior será a oferta de vacinas em
território nacional (uma obviedade acaciana). E, quanto maior a oferta
de vacinas, melhor para todos os que querem se vacinar (outra
obviedade).
À
medida que mais gente seja vacinada, mais pessoas estarão protegidas. O
indivíduo vacinado diminui a chance de transmissão a terceiros. Quanto
mais rápido a vacina estiver disponível para os que a desejarem tomar,
melhor.
Ademais, dado que o governo federal já garantiu 562 milhões de doses da vacina,
o argumento de que a importação via empresas privadas concorrerá contra
o próprio governo não se sustenta. Ou seja, não há também argumentos de
cunho econômico contra a importação.
No
final, quem é contra a medida tem de explicar como é que impedir a
importação de vacinas — que nada mais é do que restringir a oferta de
vacina — pode ser algo bom não só para os brasileiros, como também para
qualquer grupo prioritário.
Se
o governo restringir a importação de alimentos, algum faminto estará em
melhor situação em decorrência disso? Igualmente, se o governo
restringir a importação de vacinas, os brasileiros terão mais saúde?
Curiosamente,
aquilo que é óbvio para outras situações aparentemente deixa de ser
óbvio para as vacinas, o que apenas explicita como esta questão foi
desgraçadamente politizada.
Além de tudo, aceleraria o processo para os mais produtivos
No momento, a vacinação voluntária
é a maior esperança de que voltemos à vida normal. Sendo assim, o
compromisso deve ser com a urgência e com o balanço de potenciais
benefícios contra danos, e não com a perfeição procedimental alienada da
realidade.
A autorização de uso emergencial para as demais vacinas
aprovadas por órgãos reconhecidos em países desenvolvidos — onde foram
conduzidos extensos estudos clínicos— deveria ser automática. A
exigência de estudos clínicos conduzidos no Brasil e outras de natureza
burocrática não deveriam interditar a aprovação de uso emergencial.
O
Brasil deveria conferir a essas vacinas a autorização de uso
emergencial e deixar livre a importação, venda e distribuição em
clínicas e hospitais privados, em paralelo com o programa federal de
imunização.
O
governo federal, em coordenação com as secretarias estaduais de Saúde,
acertou ao implementar um programa voluntário de imunização contra a
Covid-19, o qual prioriza profissionais de saúde da linha de frente,
indivíduos com maior risco de mortalidade (idade avançada e com
comorbidades), demais profissionais de saúde e outros.
No
entanto, proibir que o setor privado complemente a imunização, assim
impedindo o acesso à vacina aos brasileiros que estiverem esperando sua
vez na fila estatal de distribuição, é uma barbaridade.
Aqueles
homens e mulheres jovens e saudáveis que carregam nas costas o PIB
brasileiro — por exemplo trabalhando na produção, distribuição e
comercialização de seringas — poderiam ser vacinados desde logo por seus
empregadores, que já manifestaram interesse. São pais e mães de família
que, em caso de proibição da vacina privada, ficarão à mercê do
andamento do plano federal e sob continuado risco de contaminar a si e
aos outros.
Simplificar
a autorização, importação e comercialização de todas as vacinas
possíveis é o caminho. Não se trata claramente de permitir a uns que
andem no acostamento para fugir do congestionamento, ao contrário. São
mais pistas, agilizando a passagem de todos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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