A ciência da compreensão e cura da mente não pode ser congelada no tempo e tratada como um culto imutável para privilegiados. Dagomir Marquezi paraz a revista Oeste:
Tive
algumas poucas experiências de terapia. Em alguns momentos ela
funcionou. Mas, no geral, eu não me dava muito bem com aquele ritual
estático, meio pomposo de uma sessão. Em dois momentos tentei mudar um
pouco as regras do jogo.
Cena
1: estou sentado na poltrona de paciente. Num móvel logo atrás de mim
tem um despertador à vista do terapeuta. Eu falo dos meus pais, da minha
vida sexual, dos meus sentimentos etc. O terapeuta não para de bocejar,
de olho mais no relógio do que em mim. Percebendo que vamos nos afogar
no tédio mútuo, pergunto a ele: “Nós temos mais 35 minutos. Vamos
caminhar na rua e continuar a sessão lá fora?”. O terapeuta nem leva em
consideração minha proposta. Diz que a volta no quarteirão seria violar
as regras do Conselho Regional de Psicologia.
Cena
2: o tratamento com outra terapeuta está estancado, não avança. Tento
romper o impasse: “Eu sou melhor escrevendo do que falando. E se a gente
tentasse fazer uma sessão por escrito? Durante uma hora a gente troca
e-mails”. (Não havia nada mais ágil naquela época.) A terapeuta avisa
direto que não vai rolar. O Conselho Regional de Psicologia etc.
Está
lá, no Artigo 2º do Código de Ética Profissional: “Ao psicólogo é
vedado prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de
atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não
estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão”. As penas aos
faltosos incluem, progressivamente, advertência, multa, censura pública,
suspensão por até 30 dias e, como pena máxima, a cassação do exercício
profissional. É um convite a que nada mude.
Esse
Código de Ética é de 2005. Dezesseis anos depois, a terapia mais
ortodoxa prossegue funcionando, com sessões presenciais em consultórios.
Ajuda muita gente com um tratamento personalizado, muito focado,
indispensável para muitos casos. E costuma ser caro, muito caro.
No
entanto, o mundo se move e novos procedimentos, técnicas e meios
florescem quando o campo é fértil. Alguns fatores ajudam. Um desses
fatores foi a “aplicativação” da sociedade. Há cada vez menos coisas que
fazemos na vida que não passam por um aplicativo. Os celulares mudaram
nossa relação com o mundo. Não haveria razão para não mudar nossa
relação com os terapeutas.
Outro
fator: a condenação de populações inteiras à prisão domiciliar (em
regime fechado, para muitos) só podia gerar uma pandemia de problemas
psicológicos, mentais e emocionais. Não há terapeutas para tanta gente
que, nessas condições, se desequilibrou. E muito menos dinheiro para
pagar sessões particulares para cada cidadão afetado pelo ano do “Fique
em casa” e de tantas perdas por causa do vírus.
A
Organização Mundial da Saúde publicou em 2017 (com dados de 2015) um
estudo global sobre o estado de saúde mental. A depressão foi
considerada o maior fator de incapacitação, atingindo 7,5% da população
mundial. A ansiedade vem em sexto lugar — afeta 3,4% da população. Em
termos gerais, a depressão atinge 300 milhões de pessoas, o equivalente a
4,4% da população mundial. Pode atormentar qualquer um, mas afeta mais
os que vivem na pobreza, estão desempregados, sofreram a morte de um
ente querido, passaram por um processo de separação amorosa, sofreram
doenças físicas ou estão imersos no alcoolismo e no consumo de drogas.
Naquele mesmo ano de 2015, 788 mil pessoas se suicidaram, especialmente
nas camadas mais pobres.
No
ranking da OMS, o Brasil ocupava o terceiro lugar em números absolutos
de casos de depressão (11,5 milhões de afetados) e ansiedade (18,6
milhões). Só perdemos para os megapopulosos China e Índia. É muita gente
para cuidar com um método tão elitista.
Como
os táxis e os investimentos nas bolsas de valores, as terapias
precisavam ser urgentemente popularizadas e modernizadas. A tecnologia e
os fatos providenciaram as grandes mudanças. Não tem mais como voltar
atrás.
Unir
tecnologia com tratamento psicológico era apenas questão de tempo.
Foram feitos um para o outro. Na pré-história dos computadores — 1966 —,
já existia Eliza. Desenvolvida pelo professor Joseph Weizenbaum, no
Massachusetts Institute of Technology (MIT), Eliza foi descrita
formalmente como “um programa de computador para o estudo da linguagem
natural na comunicação entre o homem e a máquina”. Por exemplo: se o
usuário digitasse a palavra “pai”, Eliza devolveria a frase “fale-me
mais sobre seu pai”. E assim, de pergunta em pergunta, fazia o usuário
refletir sobre si mesmo.
Cinquenta
e cinco anos depois de Eliza, aplicativos de terapia já levantaram
US$1,8 bilhão em investimentos só em 2020. Em 2019, esse número era três
vezes menor. Um dos aplicativos de maior sucesso nos Estados Unidos, o
Talkspace, revelou que 60% dos seus usuários estão fazendo terapia pela
primeira vez. Hillary Schieve, prefeita de Reno, no Estado de Nevada,
conseguiu uma verba de US$1,3 milhão para que todos os habitantes da
cidade com mais de 13 nos de idade tenham acesso ao Talkspace.
O
Talkspace já tem mais de 1 milhão de clientes e pode ser pago pelos
planos de saúde dos EUA. Funciona 24 horas por dia e atende a
praticamente qualquer tipo de problema: depressão, dificuldades no
relacionamento, ansiedade, estresse, problemas com os pais, desajustes
sexuais, doenças crônicas, distúrbios de alimentação, controle de
agressividade, traumas de infância, variações de humor, desordem
obsessivo-compulsiva, abuso de drogas, conflito familiar etc. Você entra
no aplicativo ou site, escolhe um terapeuta, liga a câmera e a sessão.
(Só em inglês.) O Talkspace ainda oferece tratamentos especializados de
psiquiatria (incluindo receitas para remédios), terapia para casal e
para adolescentes entre 13 e 17 anos.
O
cliente fala com terapeutas licenciados, que podem estar em qualquer
lugar, por vídeo, por texto ou por voz. Objetivos e prazos passam a ser
definidos pelos pacientes. Os preços não são nenhuma pechincha — embora
bem inferiores aos cobrados por terapeutas que atuam exclusivamente pelo
método tradicional. Você pode escolher um plano de meio ano por US$
700. Ou uma assinatura do tipo Netflix de US$ 65 a US$ 100 por semana.
Cancela quando quiser.
O
sucesso do Talkspace abriu caminho para uma onda de aplicativos de
terapia no mercado internacional. O Youper cria as condições para que o
usuário seja guiado a fazer sua própria terapia. Uma assinatura básica
custa US$ 13 por mês. Gráficos monitoram sua evolução. Se precisar de
remédios, o psiquiatra os receita e eles chegam de mês em mês. O Paired
estabelece um canal de contato e orientação para melhorar a vida do
casal. O distrACT é voltado especialmente a quem sente impulsos
suicidas.
A
lista vai longe: Woebot, Bloom, BetterHelp, Brightside, Calmerry,
Doctor on Demand, Amwell, iPrevail, SuperBetter, MoodKit, MindShift CBT,
MDLIVE, Real, Larkr, 7Cups, BestHelp, Sesh, Sanvello. Alguns são mais
caros; outros, mais baratos. Alguns são mais completos; outros, mais
limitados. E existem os que formam um campo de atuação em comum com os
também muito populares aplicativos de meditação.
E,
se você pensa que um dia essa onda vai chegar ao Brasil, fique sabendo
que já chegou. O Cíngulo, por exemplo, já tem até um plano para
empresas. No Zenklub, você encontra listas de terapeutas, cada um com
sua especialidade, com preços de R$ 70 a R$ 150 por sessão de 50
minutos. Para marcar sua sessão por vídeo, basta clicar na lista de
horários disponíveis.
No
OrienteMe (de R$ 280 a R$ 359 por mês), além das consultas você pode
dispor de orientação por escrito duas vezes por dia. O Terapia mistura
psicanálise com práticas alternativas, como constelação familiar, reiki e
ioga. No Cogni e no MoodPath, o usuário anota sensações, emoções e
pensamentos na hora em que os identifica. O aplicativo é útil na técnica
conhecida como terapia cognitivo-comportamental, ou TCC. O registro
detalhado do que passa por sua cabeça é de grande utilidade no
tratamento.
O
Ombro Amigo e o Amigo Virtual ligam pessoas de forma anônima para que
conversem sobre assuntos que não têm coragem de contar a nenhum
conhecido. Não é exatamente ciência, mas pode ajudar muito. O
Metamorfosis cumpre papel semelhante, misturando atendimento pessoal com
criação de comunidades de usuários que enfrentam os mesmos problemas.
São aplicativos de desabafo.
Claro
que os princípios científicos da psicanálise e da psiquiatria precisam
ser respeitados. Mexer com a mente das pessoas a distância exige muita
responsabilidade e senso ético. Mas o processo de cura está descendo do
pedestal das fórmulas e procedimentos imutáveis.
O
próprio fundador da psicanálise não era tão estático e isolado quanto
muitos de seus atuais seguidores. Sigmund Freud se preocupava com a
popularização do seu tratamento, especialmente após o trauma da 1ª
Guerra. Ele escreveu um livro chamado A Psicopatologia da Vida Diária,
no qual comentou a importância analítica de pequenos atos, como erros
inconscientes na fala, esquecimento de nomes e até a criação de piadas e
trocadilhos. Além disso, era um escritor compulsivo de cartas —
calcula-se que tenha escrito cerca de 30 mil durante seus 83 anos de
vida. Se vivesse hoje, provavelmente estaria grudado no WhatsApp e nas
redes sociais.
A
ciência da compreensão e cura da mente não pode ser congelada no tempo e
tratada como um culto imutável para privilegiados. A apresentação do
aplicativo BetterHelp resume bem o espírito da coisa: “Terapia não tem
de ser conversar sobre sentimentos. Terapia pode ser o que você quiser
que seja”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário