Adivinha-se, por isso, mais um passo no aprofundamento da cultura de vigilância, com a União Europeia a fazer alegremente o caminho para aquilo que, no âmbito da teoria política, se convencionou chamar totalitarismo. Patrícia Fernandes via Observador:
O
século XX é um período fértil em criação literária distópica,
provavelmente como contraponto às raízes utopistas plantadas no século
anterior. Perante as promessas do novo mundo, os intérpretes mais
perspicazes do espírito do tempo intuíram os seus perigos e escreveram
sobre as suas possibilidades mais assustadoras. É o que acontece com a
obra que terá sido concluída há cerca de cem anos e terá inspirado
Admirável Mundo Novo e 1984: Nós, do escritor russo Evgueni Zamiatine.
A
supremacia da razão e a fé na ciência, a organização científica da vida
e da sociedade, as estratégias de controlo mental, a obsessão com a
igualdade, o mundo natural que deve ficar para lá dos nossos muros –
todos estes aspetos constituem elementos da sociedade imaginada por
Zamiatine e revelam os perigos da crença dogmática em projetos políticos
prescritivos. Mas a imagem mais forte do livro talvez seja a das casas
de vidro, que transformam toda a vida pessoal e privada em uma vivência
de mútua observação e controlo. O mesmo é dizer, de vigilância.
A
imagética de Zamiatine resulta, naturalmente, da sua experiência
pessoal com os ideais comunistas e as consequências da revolução
bolchevique na Rússia, mas anuncia uma mais ampla dissolução de um dos
pilares fundamentais do paradigma liberal moderno, continuamente erodido
ao longo do século XX. A separação entre esfera pública e esfera
privada, entre aquilo que importa para a discussão coletiva dos assuntos
comuns e aquilo que diz respeito apenas à nossa intimidade e
privacidade, numa erosão progressiva que resulta de se ter instalado nas
nossas sociedades uma cultura de vigilância.
Em Porque está a falhar o liberalismo?,
Patrick Deneen aponta as razões para uma tal cultura nos fundamentos
éticos que deram origem ao projeto moderno e ao paradigma liberal. O
individualismo moderno, que recusa a virtude dos antigos e pretende
libertar os indivíduos de todas as autoridades, “gera anomia social e
requer a expansão da segurança jurídica, proscrições policiais e mais
vigilância.” O cultivo aristotélico do caráter e a autodisciplina foram
descurados como paternalistas e opressivos e, por essa razão, “cada vez
mais administrações escolares do país instalam agora câmaras de
vigilância nas escolas”. A libertação do indivíduo terá, de acordo com
este argumento, fragilizado a dimensão de caráter individual, o que
conduz a uma desconfiança permanente face ao comportamento do outro. E
basta pensar em todas as soluções imaginativas e eticamente
questionáveis que foram adotadas nas universidades portuguesas para
vigiar os estudantes durante as avaliações à distância no último ano,
para percebermos a ideia de Deneen.
Shoshana Zuboff, em A Era do capitalismo da vigilância,
aponta o dedo a uma nova forma de capitalismo que, assente nas grandes
empresas de Silicon Valley (Google, Microsoft e Facebook), estaria a
transformar radicalmente as nossas vidas e o próprio sistema
capitalista. Esse capitalismo da vigilância utiliza-nos como “objetos de
uma operação de extração de matérias-primas tecnologicamente avançada e
progressivamente inevitável”, a partir do qual “pagamos a nossa própria
submissão”. Mas talvez o pior seja a disponibilidade acrítica com que
nos subjugamos: adquirimos voluntariamente equipamentos domésticos smart
que vão proliferando nas nossas casas, sentimo-nos bem ao expor todos
os aspetos desinteressantes das nossas vidas nas redes sociais, deixamos
que os telemóveis guardem a localização de todos os nossos movimentos.
O
que Zuboff optou por menosprezar é o perigo que se encontra igualmente
nos Estados de vigilância, que não param de crescer. Tal como o sapo
que, colocado numa panela de água ao lume, não se apercebe do que lhe
vai acontecer, também nós fomos sendo preparados para casas de vidro e
vidas transparentes por uma cultura de vigilância. Fomos aceitando sem
reclamar o controlo e verificação das nossas contas bancárias, passamos a
dar diligentemente conhecimento ao Estado de todas as compras que
fazemos, pagamos tudo com cartão de multibanco ou aplicações no
smartphone e aceitamos a proliferação de câmaras de reconhecimento
facial. Por causa da pandemia (que tem acelerado todas estas
tendências), alegramo-nos com a ideia de um certificado verde digital,
aceitamos que se proponha o voto eletrónico nas próximas eleições
autárquicas e vamos deixando que se fale na eliminação do dinheiro
físico.
E
enquanto os cidadãos da União Europeia estão distraídos com a crise
pandémica, a Comissão Europeia apresentou uma proposta para o controlo
das comunicações digitais. De acordo com a medida que está agora em consulta pública,
as empresas de comunicação digital deverão implementar ferramentas
capazes de fiscalizar tudo aquilo que escrevemos on-line (desde
publicações nas redes sociais a conversas no chat) como medida de
combate ao abuso infantil. Patrick Breyer, membro do Parlamento Europeu,
desconstrói a razoabilidade da medida aqui,
mas toda a história da União Europeia é prova da sua fecunda
irrazoabilidade. Adivinha-se, por isso, mais um passo no aprofundamento
da cultura de vigilância, com a União Europeia a fazer alegremente o
caminho para aquilo que, no âmbito da teoria política, se convencionou
chamar totalitarismo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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