Líderes com-vacina crescem, os sem-vacina perdem popularidade. Vilma Gryzinski, na edição impressa de Veja:
Deu
a louca no mundo — e isso não é novidade nenhuma na era do coronavírus.
Ridicularizado como um líder indeciso e hesitante, que falava uma coisa
e fazia outra menos de 24 horas depois, Boris Johnson está com o
prestígio em alta. A pioneira campanha de vacinação no Reino Unido virou
um motivo de orgulho nacional. Enquanto isso, a venerada Angela Merkel
amarga um desencanto sem precedentes: a lerdeza e a paquidérmica
burocracia da União Europeia, a quem a primeira-ministra confiou as
negociações conjuntas sobre a compra das vacinas para os 27
países-membros, provocam revolta e indignação. A situação não é muito
diferente para Emmanuel Macron, que tomou a atitude nada esclarecida de
desdenhar dos ingleses e de uma das suas vacinas, a Oxford/AstraZeneca,
numa atitude extraordinariamente parecida com a de uma certa raposa que
não alcançava um apetitoso cacho de uvas. Para complicar, o sem-vacina
Macron tem no encalço uma adversária capaz de fazer um vinagre duro de
engolir com qualquer uva verde, Marine Le Pen. Uma pesquisa chocante deu
à sua adversária garantida na próxima eleição presidencial 48% das
preferências. Apenas 34% dos franceses apoiam o modo como Macron conduz a
crise do corona.
A
eleição na França é só no ano que vem e até lá todos os franceses
deverão estar vacinados, espera-se. O que conta é a janela de
oportunidade do momento atual e como ela está sendo aproveitada: os
com-vacina avançam para um planejamento realista da normalização de
atividades, inclusive os tratamentos médicos suspensos pela pandemia; os
outros esperneiam A vacinação rápida e eficiente não traz
automaticamente o sonhado “passaporte verde”, que permitiria liberdade
de viajar e trabalhar. Mas é muito melhor ter pelo menos os grupos de
risco vacinados.
O
mundo da era do vírus não se comportou melhor ou pior do que o
anterior. Em lugar da nobre e solidária ação conjunta, cada país saiu
correndo para proteger os seus — pelo menos, entre os que entendem a
relação entre dominar a pandemia e ganhar eleição. A tentativa de ação
coletiva feita pela União Europeia redundou no atual fiasco. Melhor nem
falar nas iniciativas da ONU. O impulso de autopreservação, salpicado
pelo conhecido perfume de nacionalismo, funcionou. Sem dinheiro e
competição ao velho estilo, ambos em grandes quantidades, não teria sido
possível chegar ao extraordinário número de vacinas de eficácia já
comprovada. China e Rússia também captaram rapidamente o potencial da
“diplomacia da vacina” — e a dependência dos sem-imunizantes ficou
demonstrada em todos os seus humilhantes detalhes no caso do Brasil. A
corrida das vacinas tem sido comparada ao Grande Jogo, a disputa por
domínio e recursos na Ásia Central, na virada do século XIX, entre a
Grã-Bretanha e a Rússia, na época do imperialismo puro e duro. As
disputas hegemônicas da era do coronavírus são travadas inteiramente com
soft power. Quem é bom em pesquisa e desenvolvimento tem poder. Quem
não chegou lá tem de ser esperto. “A sorte favorece as mentes
preparadas”, ensinou Louis Pasteur, o genial precursor da microbiologia e
pai da vacina antirrábica.
Publicado em VEJA de 10 de fevereiro de 2021, edição nº 2724
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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