A maior operação anticorrupção da história tem desfecho melancólico, mas deixa legado ao país. Silvio Navarro para a Oeste:
Há
pelo menos dois anos, os procuradores da República que encabeçaram a
chamada força-tarefa da Lava Jato, formada em 17 de março de 2014, com
matriz em Curitiba (PR), acostumaram-se à pergunta recorrente em
entrevistas: quando a operação vai acabar? Nunca houve uma resposta
clara. Na última quarta-feira, 3, contudo, uma notícia, publicada sem um
quinto do alarde que as manchetes sobre prisões de políticos e
empresários graúdos produziam no passado, dizia: “Força-tarefa da Lava
Jato é dissolvida”.
Passados
sete anos desde que uma carga de drogas disfarçada em vidros de palmito
levou a Polícia Federal até o doleiro Alberto Yousseff, foram 79 fases,
que culminaram num cerco implacável a ex-presidentes, políticos de
diversas estirpes e alguns dos maiores empresários do país — quem não se
lembra das prisões de Lula, José Dirceu, Marcelo Odebrecht, Eduardo
Cunha ou Antonio Palocci?
Os
números são impressionantes e falam por si [confira na tabela abaixo].
Em cifras, conforme dados do Ministério Público Federal, mais de R$ 4,3
bilhões já retornaram aos cofres públicos por meio de colaboração e
acordos de leniência — valor que, no final, pode chegar a R$ 15 bilhões.
O lema “Follow the money” (Siga o dinheiro) deu certo.
As
sirenes de carros da Polícia Federal cumprindo mandados de prisão e
busca no raiar do dia em endereços pelo país resultaram em 278
condenações (um total de 2.611 anos de pena), além de ações de
improbidade contra partidos que até hoje dão as cartas por aqui — para
essas agremiações, infelizmente, a Justiça não funcionou.
Para
além dos números, a Lava Jato promoveu uma geração de procuradores e
juízes de primeira instância (varas locais) dispostos a enfrentar
bandidos de “colarinho branco” como nunca antes, todos eles inspirados
em figuras como Sergio Moro e Deltan Dallagnol. O primeiro, talvez o
mais corajoso magistrado da história recente nas nossas fronteiras,
acabou seduzido pela política e aceitou largar a carreira de sucesso
para ser ministro da Justiça e Segurança Pública quando Jair Bolsonaro
chegou ao poder. Deixou Brasília em abril do ano passado em meio a um
fogo cruzado e virou desafeto do presidente, este cujos altos índices de
popularidade tiram o sono de adversários dia após dia mesmo com o
cataclismo provocado pelo novo coronavírus.
O pragmático e competente Deltan Dallagnol encerrou a trajetória na equipe curitibana em setembro, emparedado por duas dezenas de representações que questionavam sua atuação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Não há um aliado, nem dele nem de Moro, que aposte com firmeza quais (nem quando) serão seus próximos passos.
Desfecho melancólico
Alçada
ao patamar de patrimônio nacional, a Lava Jato virou cinema, série na
Netflix e despertou paixões dentro de casa. Levou milhares de
brasileiros às ruas quando esteve sob a ameaça de poderosos, elegeu
deputados e senadores que até hoje usam o manto de “lava-jatistas”,
ajudou a descortinar as engrenagens do Judiciário — especialmente o
poder da caneta de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) —, mas
perdeu protagonismo com o rolar dos anos.
De
tanto incomodar o consórcio formado por barões da política e
empresários que enriqueceram beneficiados pela engrenagem podre montada
nos porões da República, a operação virou alvo primordial. Advogados se
empenharam em desmerecê-la, jornalistas tentaram ajudar seus amigos
políticos com a corda no pescoço, e até banqueiros entraram na ciranda.
Mas nada abalou tanto a equipe quanto o vazamento de conversas roubadas
por um hacker do aplicativo Telegram, usado tanto por procuradores
quanto pelo então juiz Sergio Moro, em junho de 2019.
Um
pirata digital, até hoje sabe-se lá a serviço de quem — dessas coisas
na história que nunca terão resposta certeira —, entregou o tesouro a
setores da imprensa ávidos por uma revanche contra a direita em curso no
país. A partir dali, a narrativa seria: foi tudo um jogo combinado à
revelia do processo legal e a hashtag #LulaLivre viraria bandeira dos
derrotados nas urnas em 2018. Foi um golpe no fígado. Não é exagero
afirmar que esse foi o estopim da derrocada da força-tarefa.
Meses
se passaram e o então novo procurador-geral da República, Augusto Aras,
escolhido pelo presidente, e sua copilota, a procuradora Lindôra Maria
Araújo, decidiram interferir no coração da operação na capital
paranaense. Os terabites coletados durante anos foram levados a Brasília
— inclusive, a mando do então presidente do Supremo, Dias Toffoli. Com a
saída de Deltan Dallagnol, foi nomeado um substituto para chefiar o
time, o procurador Alessandro José Fernandes de Oliveira.
Foi
dele a frase que deitou a pá de cal sobre a força-tarefa nesta semana —
alguns dos ex-integrantes da operação seguirão até agosto numa sala
pequena, respondendo ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime
Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal.
“O
legado da força-tarefa da Lava Jato é inegável e louvável considerando
os avanços que tivemos em discutir temas tão importantes e caros à
sociedade brasileira. Porém, ainda há muito trabalho que, nos sendo
permitido, oportunizará que a luta de combate à corrupção seja
efetivamente revertida em prol da sociedade, seja pela punição de
criminosos, pelo retorno de dinheiro público desviado ou pelo
compartilhamento de informações que permitem que outros órgãos colaborem
nesse descortinamento dos esquemas ilícitos que assolam nosso país há
tanto tempo”, afirmou.
Mais
do que recuperar parte do dinheiro surrupiado e prender bandidos que
frequentavam os corredores do poder, a Lava Jato teve o papel de
restaurar a autoestima dos brasileiros, enxovalhada pelos anos de Lula,
Dilma Rousseff e seus satélites no comando do país. Se dependesse da
maioria dos brasileiros, ela jamais teria fim. Mas, partindo da premissa
de que forças-tarefas devem ser temporárias, depois de sete anos, a da
Lava Jato, certamente, cumpriu seu destino.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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