O
peruano Mario Vargas Llosa contabiliza dias produtivos de confinamento
em Madri. Em sua residência na capital espanhola, o maior escritor
latino-americano vivo e ganhador do Nobel de literatura em 2010 passa o
dia devorando livros, trabalhando e refletindo sobre os rumos da
humanidade. Aos 84 anos, Llosa acaba de lançar no Brasil a novela Tempos
Ásperos (Companhia das Letras), na qual revive o golpe de Estado que
derrubou um governo democraticamente eleito na Guatemala em 1954, com
apoio dos Estados Unidos, para resguardar os interesses da exportadora
de bananas United Fruit. Na entrevista a seguir, feita por
videoconferência, o autor comenta por que o episódio deixou marcas
profundas na América Latina. Um falante Llosa dá ainda suas opiniões
sempre agudas sobre os excessos autoritários cometidos em nome do
combate à pandemia em vários países, a ascensão da nova direita, as fake
news e os males da arte contemporânea — além de fazer um elogio
enfático à Operação Lava-Jato.
Seu
novo livro tem como cenário o golpe militar na Guatemala em 1954, com
apoio dos Estados Unidos, para proteger interesses de uma exportadora de
bananas. A América Latina ainda sofre do complexo da “República
Bananeira”?
Não vejo
mais essa ameaça. Temos de lembrar que eram tempos da Guerra Fria, do
macarthismo, de temor americano pelo modo como a União Soviética ganhava
aliados em vários continentes. Hoje, os Estados Unidos são mais
respeitosos com a América Latina, e inclusive têm interesse econômico no
progresso da região. Os tempos mudaram.
Por que então desenterrar um episódio que pertence ao passado de um país pequeno?
O
golpe na Guatemala teve efeitos cataclísmicos na América Latina, que
nos anos seguintes viu uma sucessão de derrubadas de governos eleitos. E
ajudou a radicalizar a Revolução Cubana. É também um episódio precursor
do efeito desastroso das fake news na política. Muito antes da
internet, a United Fruit moveu uma campanha na imprensa americana,
ironicamente por meio de veículos liberais, que fez com que a opinião
pública acreditasse, ingenuamente, em mentiras sobre a suposta
influência comunista na Guatemala.
Se
no passado havia o fantasma comunista, hoje a preocupação é com a
direita radical. Do Brasil à Hungria, o mundo assiste ao domínio de
líderes populistas com rasgos autoritários. A que se deve essa
escalada?
Isso é
reflexo da frustração com governos de esquerda que promoveram gestões
populistas e corruptas. Essa realidade desanimou o eleitorado, que se
viu forçado a votar no extremo oposto. O caso do Brasil é exemplar,
porque os governos de Lula e do PT tiveram muita corrupção, o que
desencantou os brasileiros e os fez eleger um governo bastante
autoritário e confuso. Jair Bolsonaro nunca teria chegado ao poder se
esse desencanto não tivesse acontecido.
O fenômeno se estende a outros países?
Isso
tem acontecido em muitas nações da América Latina, ainda que por razões
diversas. É o caso da Argentina: Macri gerou esperanças, mas, do ponto
de vista econômico, seu governo foi um desastre. Os argentinos foram
levados então a uma operação suicida: votaram de novo no peronismo, que
vem causando um verdadeiro estrago por lá.
Recentemente,
o Peru viveu escândalos políticos em série por causa de desdobramentos
da Operação Lava-Jato brasileira. Como analisa a crise em seu país?
Essa
empresa brasileira, a Odebrecht, merece um monumento na América Latina,
de tantos governos que corrompeu e ajudou a derrubar. Cinco
ex-presidentes do Peru foram presos ou atingidos, graças ao Brasil e à
Operação Lava-Jato. E há reflexos na Colômbia, no México… É um sistema
de corrupção generalizado. Jamais teremos democracia e políticos
representativos se não combatermos a corrupção. O juiz Sergio Moro foi
formidável, muito valente.
No Brasil, o ex-juiz Moro enfrenta oposição à esquerda, com o PT, e à direita, dos bolsonaristas. O que pensa disso?
Quero dizer que Moro é um homem verdadeiramente independente. Deveríamos ter muitos juízes como ele na América Latina.
Por que o senhor desistiu da política após concorrer à Presidência do Peru em 1990 e perder para Alberto Fujimori?
Porque
nunca tive aspiração política. Eu me vi empurrado a ser candidato por
ter presidido um movimento contra a nacionalização dos bancos e
companhias financeiras. Isso me empurrou a aceitar a candidatura, mas
nunca quis ser nada mais que um escritor. Com os problemas que existem
na América Latina, os escritores estão moralmente obrigados a intervir e
a tratar de encontrar soluções. Mas os que não têm vocação não devem
participar da política.
Tanto
políticos de esquerda quanto os de direita tiveram enormes dificuldades
nas políticas públicas para lidar com a Covid-19. A pandemia do
coronavírus veio para melhorar ou piorar os rumos da humanidade?
A
pandemia vai nos tornar menos arrogantes. Acreditávamos que havíamos
dominado a natureza, e isso não é verdade. A natureza nos guardou uma
grande surpresa: há mais de 1 milhão de mortos no mundo por causa de um
vírus. Quando esse terrível capítulo se finalizar, vamos estar mais
dispostos a investir em pesquisa científica e sistemas de saúde à
altura, já que nenhum deles estava, em nenhum país.
Então o senhor é um otimista?
Ora,
pessimistas já estamos bastante, diante da montanha de mortos. A
Espanha é um dos países em que o número de vítimas e de contágios é
muito alto, e é um exemplo trágico do que não fazer para barrar a
pandemia. Os países que souberam lidar melhor com o vírus são raros, e a
princípio pareciam equivocados: é o caso da Suécia e da Suíça, que
conduziram o combate ao coronavírus de forma mais sensata.
Em artigo publicado em março, o senhor alertava contra o risco de o mundo retornar à Idade Média. Não era um exagero?
Não
é possível acertar nas medidas para conter a pandemia, mas sacrificar
as liberdades públicas em nome delas. Vimos a adoção de um autoritarismo
quase medieval por parte de alguns governantes, sob o pretexto de
combater a doença. Transformar governos democráticos em autoritários não
é o modo correto de lutar contra o vírus. Dentro da União Europeia,
dois países que estão atuando assim em nível extremo são a Polônia e a
Hungria. Pode ser que seus líderes tenham apoio popular, não nego, mas
em ambos há excessos inaceitáveis.
O senhor sempre foi um entusiasta da globalização. A pandemia vai provocar um retrocesso nela?
É
provável que sim, mas precisamos lutar para que isso não ocorra. A
globalização tem sido muito importante, sobretudo para os países em
desenvolvimento, como os da América Latina. Ela permite que se reduza o
tempo do processo de sair da pobreza. Interrompê-la e voltar aos
nacionalismos que ao longo da história somente trouxeram danos seria uma
tragédia. Devemos combinar as políticas de contenção à pandemia com as
de globalização, de forma a criar uma frente mundial contra o
coronavírus na saúde e economia.
O senhor já acusou o governo chinês de ser responsável pela explosão da pandemia. Mantém essa opinião?
Um
dia as pessoas vão saber o que se passou de verdade em Wuhan. Até
agora, não se esclareceu como nasceu a doença. Tem algo de misterioso
aí. A China não informou ao mundo e provavelmente essas informações
reduziriam o impacto da doença. No momento, a luta é contra a pandemia.
Mas, cedo ou tarde, será preciso investigar qual papel a China
desempenhou nesse contexto.
Para um novelista, a pandemia seria uma boa inspiração?
Há
muitos romances excelentes sobre pestes. Tem uma famosa obra italiana
do século XIX de que gosto muito, Os Noivos, que descreve uma terrível
peste em Milão. A literatura sobre epidemias é rica, e seguramente a
experiência dos últimos meses dará origem a novas obras que serão
testemunhos valiosos do que estamos vivendo.
Andam
circulando uma série de fake news a respeito da pandemia. Como
jornalista, de que forma o senhor analisa a explosão das mentiras nas
redes e a influência delas na política?
Sempre
existiram mentiras no mundo da política, mas as redes sociais fizeram
com que pela primeira vez elas pudessem ser uma ameaça real. É muito
importante que haja liberdade de imprensa genuína, na qual jornais,
revistas e programas de televisão responsáveis saiam na frente e
denunciem as fake news. Se não reagirmos com vigor e rapidez, correremos
o risco de as fake news vencerem a guerra contra os fatos.
Outro fenômeno típico das redes sociais é o advento do cancelamento. Qual o perigo dessa onda?
É
um fenômeno que pode durar por muito tempo, caso nós não o enfrentemos a
sério e a Justiça não atue com rigor. É através de um Judiciário
independente que é possível denunciar e castigar os que destroem
reputações e distorcem os fatos. O cancelamento, tal e qual as fake
news, tem impacto nocivo na vida política das nações.
Os ficcionistas podem auxiliar de alguma forma no combate a esses males?
A
literatura tem um papel crucial a cumprir. As mentiras que se
apresentam como mentiras, as mentiras da literatura, não são perigosas,
porque ninguém acredita que uma ficção seja verdade. Mas as mentiras da
literatura podem trazer à luz grandes verdades reais. Pestes, pragas,
guerras, violências políticas e ditaduras: a literatura já expôs tudo
isso e também nos abrirá os olhos para esse mundo que, por meio da
tecnologia, progride muito. Mas que, também por causa da tecnologia,
apresenta novos perigos.
Se
por um lado o senhor elogia o papel da literatura da atualidade, por
outro tornou-se um crítico ácido da arte contemporânea — já atacou, por
exemplo, a famosa obra do inglês Damien Hirst do tubarão num tanque de
formol. O que o incomoda tanto?
Damien
Hirst já disse que não é um pintor: contrata carpinteiros e pedreiros
que fabricam as ideias que lhe ocorrem. O caso dele é o mais
representativo da tragédia que vive a arte contemporânea. É impossível,
hoje em dia, saber se algo é belo ou não, porque a arte justifica tudo.
Pessoas como Damien Hirst são as grandes responsáveis pelo fato de gente
sem destreza artística alcançar fama e riqueza. É triste ver exposições
de pintura contemporânea, porque não há maneira de saber se um pintor é
genuíno ou somente um delinquente que se vale de truques para vender
gato por lebre.
Aos 84 anos, o senhor continua ativo. Qual é o segredo?
Gosto
de viver. Sigo trabalhando e lendo muito. Estou aproveitando o
isolamento para trabalhar. Quero viver até os 100 anos e morrer com a
pena na mão.
Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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