Não foram apenas os republicanos que se radicalizaram à direita com a ascensão de Trump; os democratas fizeram o mesmo movimento à esquerda. Editorial da Gazeta do Povo:
Com
os mais recentes resultados de dois estados-chave, Pensilvânia e
Geórgia, o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe
Biden, está praticamente confirmado como o vencedor da eleição realizada
neste início de novembro. O atual presidente, Donald Trump, vem se
recusando a aceitar o resultado e alega a ocorrência de fraude na
Pensilvânia e em outros dos chamados “swing states” – aqueles estados
sem preferência partidária definida, e que acabam definindo o resultado
final a cada quatro anos. O risco de judicialização da apuração é
enorme, mas, a não ser que os republicanos consigam apresentar provas da
alegada fraude, Trump se tornará o 13.º presidente norte-americano a
não conseguir a reeleição – o quinto nos últimos 100 anos; o caso mais
recente foi o do também republicano George H.W. Bush., que perdeu para
Bill Clinton em 1992.
As
eleições de meio de mandato (as chamadas midterms) de 2018 já haviam
enviado um sinal de alerta à Casa Branca, quando Trump perdeu a maioria
na Câmara de Representantes apesar dos ótimos resultados econômicos que
vinha apresentando – incluindo taxas de desemprego que estavam entre as
menores da história para negros e latinos. Mas a pandemia de Covid-19
tirou de Trump seu maior cabo eleitoral ao virar do avesso a economia
mundial e apagar todas as conquistas. Ainda assim, é preciso registrar,
em 2020 Trump conquistou fatia maior do voto negro e latino, dois grupos
que, embora longe de serem homogêneos – há enorme diferença entre
cubanos e venezuelanos da Flórida e os mexicanos das regiões
fronteiriças do Texas e Arizona, por exemplo –, tradicionalmente tendem a
votar nos democratas.
Além
disso, a condução do combate à pandemia por Trump, que minimizou as
consequências da doença e teve inúmeros atritos com seu assessor
científico Anthony Fauci, também abalou sua imagem de líder capaz de
conduzir o país em um momento complicado. Por fim, o medo do contágio
aumentou o número de norte-americanos que votaram antecipadamente, pelo
correio, método que o presidente desencorajou por temer as fraudes que
agora alega. Não surpreende, portanto, que a maioria desses votos – cuja
apuração ficou por último e que selaram as viradas que devem dar a
vitória a Biden – seja favorável aos democratas, não aos republicanos.
Confirmada
a vitória do democrata, o que esperar dos Estados Unidos de Joe Biden?
Um aspecto que não se pode perder de vista é que não foram apenas os
republicanos que se radicalizaram à direita com a ascensão de Trump; os
democratas fizeram o mesmo movimento à esquerda. Biden foi uma escolha
pragmática, por ser mais capaz de aglutinar o eleitorado de centro; em
pesquisas feitas apenas com democratas durante as primárias, ele
aparecia como o pré-candidato com mais chances de vencer Trump, mas as
mesmas sondagens mostravam que os entrevistados se identificavam mais
com o autoproclamado socialista Bernie Sanders. Uma vez escolhido para
disputar a Casa Branca, Biden fez um aceno ao grupo mais radical
escolhendo como vice a senadora Kamala Harris. A Câmara dos
Representantes e assembleias estaduais terão mais parlamentares
alinhados à ala esquerda dos democratas, que tem como principais
representantes as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar,
Rashida Tlaib e Ayanna Pressley.
Isso
significa que, enquanto Trump fez (e continua fazendo) o possível e o
impossível para esgarçar perigosamente a democracia norte-americana,
demonizando instituições, a liberdade de imprensa e, agora, o processo
eleitoral, Biden e Harris podem fazer o mesmo no campo dos valores. A
julgar por seu plano de governo, as políticas identitárias, que se
tornaram o principal cavalo de batalha democrata, terão preferência
inclusive sobre garantias constitucionais como a liberdade de crença e o
direito à objeção de consciência.
Em
comparação com Trump, Biden certamente tem mais equilíbrio, serenidade,
as qualidades que fazem de uma pessoa “presidenciável” – na expressão
usada pelos norte-americanos, “fit for presidency”. Mas os Estados
Unidos já viram como uma postura mais agradável e simpática pode
esconder um afã persecutório, como no caso em que o IRS – o equivalente
norte-americano da Receita Federal – foi usado para investir contra
organizações conservadoras durante o governo Barack Obama. Se o plano de
governo de Biden e Harris realmente for colocado em prática, resta a
esperança de que o Judiciário possa agir em defesa das liberdades
individuais e da consciência de seus cidadãos – e, por mais que se possa
apontar a contradição na maneira como os republicanos do Senado
aprovaram rapidamente o nome de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, é
inegável que um legado positivo de Trump nesses quatro anos esteve nas
três indicações que fez para a corte.
Em
resumo, os norte-americanos estavam diante de uma escolha de Sofia: de
um lado, manter na Casa Branca um presidente sem o menor apreço pela
democracia e pelas instituições cuja solidez fez dos Estados Unidos uma
das poucas nações a jamais ter vivido períodos autoritários; do outro,
levar ao poder um grupo cada vez mais radicalizado à esquerda e que
tende a minar liberdades básicas garantidas ao cidadão norte-americano
em nome de políticas identitárias. Em ambos os casos, e
independentemente do desfecho do pleito, com ou sem judicialização,
aprofunda-se a divisão entre compatriotas, o “nós contra eles” tão
conhecido no Brasil, mudando apenas as linhas sobre as quais se dá essa
divisão.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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