Talvez esteja na hora, diz a professorinha chata para a classe entediada, de traçarmos um limite moral nessa contenda. Paulo Polzonoff Jr., via Gazeta:
Houve
um tempo em que bobagem era coisa séria. O político ou figura pública
soltava alguma tolice de escandalizar o dono da banca de jornal e, no
dia seguinte, pedia desculpas, renunciava ao cargo e ia esfriar a cabeça
nas Bahamas.
Embora
os nomes e os cargos me fujam, tenho certeza de que, até o início do
governo de Lula I, o Turvo, vi algumas dezenas de personalidades
calçando as sandálias da humildade e “pedindo para sair” sem que
precisassem levar um tapão na cara do Capitão Nascimento. Eram
desonrados homens de honra que caíram na tentação do vil metal ou se
renderam à soberba da própria ideia falsa de grandeza.
Aí
a esquerda, na figura de vocês-sabem-quem, chegou ao poder. E tudo
mudou. Lula, alçado à condição de infalível, poderia falar o que
quisesse sem ser repreendido por isso. Sem ter de reconhecer o erro. Sem
pedir desculpas. Sem cogitar uma saída pela direita, feito o Leão da
Montanha.
A
soberba em pouco tempo contaminou os subordinados. E a bobagem, que
antes era coisa séria, coisa de “homem que honra as próprias calças”
(mesmo que ele seja mulher ou, sei lá, homem que usa saia), virou a
norma. Nos anos seguintes, coisas muito piores do que o “cachorro também
é gente” do ex-ministro do Trabalho Rogério Magri ou o “não tenho
escrúpulos” do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero viraram piada de
salão.
Percebendo
que palavras tinham perdido as consequências, a esquerda, devidamente
sentada no trono de sinecuras sem fim, fez de seus adversários gato e
sapato. O deboche virou regra para desqualificar o oponente, assim como a
despersonalização, quando não a ofensa pura e simples. E a bobagem,
antes motivo de uma vergonha que acompanhava a família por gerações e
gerações, foi alçada à condição de arma retórica.
Aí,
depois de vários tropeços na própria soberba, estupidez e ambição, eis
que a esquerda foi apeada do poder. Eu estava lá e me juntei ao grupo de
tolos que acreditava que a queda do PT & Cia significava uma
restauração da moralidade. Que acreditava que as palavras voltariam a
ter consequências e que valores abstratos como “honra” voltariam a ser
exaltados pelos indivíduos.
Não rolou.
Professorinha
E
essa é a parte do texto em que, meio sem querer, encarno uma
professorinha severa, daquelas muito magras, que usavam óculos de aro
fino e um batonzinho bem discreto, e moravam com três gatos. Daquelas
que realmente nos ensinavam coisas como análise sintática ou a fórmula
de Bhaskara. Daquelas que odiávamos.
Porque
o que aconteceu em seguida foi na contramão da minha esperança. Em vez
de restaurar a moralidade, de exaltar valores nobres, de pairar acima do
culto à bobagem, ao insulto, à tolice, à ambição e à soberba do
adversário, o que vi foi o triunfo de um discurso mequetrefe segundo o
qual “precisamos lutar com as mesmas armas sujas do inimigo”.
Sério
mesmo?! E, no entanto, não é preciso ser nenhum físico nuclear com um
improvável PhD em história para saber que ninguém jamais aprovaria que,
sei lá, os Aliados criassem campos de extermínio para os alemães na
Segunda Guerra Mundial. Armas sujas são coisa de gente suja. E isso se
aplica tanto ao napalm quanto às palavras que dirigimos àqueles que
pensam diferente de nós.
Talvez
esteja na hora, diz a professorinha chata para a classe entediada, de
traçarmos um limite moral nessa contenda. Não vale golpe abaixo da linha
da cintura. Nem dedo no olho, puxão de cabelo, mordida na orelha ou
cuspe na cara. Simplesmente não vale. É desclassificação sumária ou, no
mínimo, cinco minutos olhando para a parede e refletindo sobre seu
comportamento, mocinho.
“Ah,
mas foi ele quem começou, tia”, argumenta alguém. Não importa. Até
porque não faz sentido lutar contra o adversário/inimigo se você comunga
dos mesmos valores sórdidos dele.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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