Aquele que o Guardian considerou em 2014 o maior músico vivo no planeta está recluso no seu próprio corpo, privado de um hábito e de um talento que lhe esculpiram a vida. Sebastião Bugalho, via Observador:
Entre
novas emergências e reviravoltas eleitorais, não nos despedimos somente
da normalidade, do magnata de Brooklyn e das demais reportadas
ocorrências. Deu-se, além de tudo isso, um momento solene, familiar mas
público, cuja narração merece escrita e cuja redação aqui fica.
Somos,
para parafrasear o poeta, cinco à mesa. Três sozinhos e um acompanhado
pelo outro. É uma reunião mensal que nunca calha à mesma semana. Comemos
e sentamo-nos como se nos tivéssemos visto no dia anterior, apesar de
não termos. Somos cinco à mesa porque uns partiram e outros, agora,
deixaram de poder estar. Somos cinco à mesa, não por o termos escolhido,
mas porque nos aconteceu sermos cinco e continuarmos a estar cinco,
este ano de cadeiras mais afastadas e com cada um a levar o seu prato, à
vez, de volta à cozinha. Somos cinco à mesa, com uma das cabeceiras
vazias e menos iluminada pelo candeeiro de pé alto, de presença
inocentemente substituída pelo cesto de fruta e pelo jarro de água de
que ninguém bebe.
Os
cinco, depois da sopa e da conversa, em turnos diferentes de ingestão,
chegaram desta vez ao café numa harmonia despropositada. Fez-se um
silêncio, como que reconhecendo a invulgaridade do minuto em que haviam
coincidido além do jantar. “Viram que o Keith Jarrett já não pode tocar
piano?”. E claro que viram. Saiu no New York Times a notícia de que o
pianista norte-americano sofreu dois enfartes, estando paralisado do
lado esquerdo do corpo, mão incluída. Aquele que o Guardian considerou
em 2014 o maior músico vivo no planeta está recluso no seu próprio
corpo, privado de um hábito e de um talento que lhe esculpiram a vida.
O
obituário de um génio deve ser feito aquando da sua partida, mas é o
próprio Jarrett que diz já não se sentir “um pianista”; como se o
artista desaparecesse, a obra permanecesse e a existência jazesse presa
num limbo, sem saber bem que condolências receber de si mesma. O leitor
deve conhecê-lo pelo seu concerto em Colónia, em 1975, ainda hoje o
álbum de piano a solo mais vendido na história da música – tocado
inteiramente em improvisação e de intensa fúria contra o instrumento,
que era de modelo menor do que o encomendado.
De
Colónia, ouvem-se os pontapés na madeira do piano, a marcar o tempo, e
os grunhidos de um homem que está ali mas não só ali. Os meus avôs
escutavam-no em casa, como os meus pais escutavam The Melody At Night
With You, uma obra-prima de tributo à sua mulher, que nunca faltou a um
espetáculo seu até se separarem. Não estou certo do que os meus filhos
vão preferir dele, mas a obra é vasta. Vai de Miles a Mozart, da música
popular americana ao seu mítico trio com Gary Peacock e Jack DeJohnette.
Quando
Peacock faleceu, no início deste setembro, aos 85 anos, lembro-me de
nos telefonarmos todos uns aos outros, como se acabássemos de perder um
ente querido e não um longínquo contrabaixista. “Morreu o Gary Peacock,
sabias? Que tristeza”, e a praia lá ao fundo.
Agora
que se sabe que Jarrett não tornará a criar nem tão-pouco a atuar,
sobram os discos, um deles editado há dias, com uma atuação de 2018 em
Bucareste. Mas naquela mesa, com uma coluna sem fios ao centro, a igual
distância dos cinco, lá nos despedimos dele, que sempre cá esteve e nos
ligou, como se a partir de agora nos tivessem roubado de fuso horário ou
enviado para um país onde não se conseguisse ler a sinalética. Ficámos
ali, estranhos na nossa familiaridade, num silêncio breve apenas
quebrado pela música do pianista, esperando que o presuma na solidão a
que o acaso o deixou, sabendo que não sendo isso suficiente para o
devolver a si mesmo, que, pelo menos, fique connosco depois de ir
embora.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário