Os mais beligerantes que me perdoem, mas toda guerra, seja ela ignorantona ou cultural, é também imoral. A crônica de Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:
Aí
alguém cunhou o termo “guerra cultural”. Quem foi o falastrão? Gramsci?
Bill O’Reilly? Algum intelectual hippie no meio de uma viagem
psicodélica? Não. Foram os belicosos alemães do século XIX que, sob a
liderança de Otto von Bismarck, lutavam contra a influência da Igreja
Católica.
Que
seja. O fato é que o termo ganhou popularidade há mais de meio século,
com fileiras e mais fileiras de voluntários se digladiando em batalhas
simbólicas nas livrarias e bancas de revista (quando essas coisas
existiam), teatros, programas de televisão e rádio, filmes e, mais
recentemente, nas redes sociais. Acho que dá para dizer sem medo de soar
catastrofista: vivemos num estado permanente de guerra cultural desde
que acordamos ao som de um carro que passa na rua tocando um funk alto
demais até a hora de dormir, embalados pelo ruído de fundo da novela, na
qual a mocinha trans faz um emocionado discurso sobre a construção
social do gênero.
E
a gente se acostumou tanto a esse estado de guerra que não se deu conta
do quanto ele é imoral. Como todas as guerras, por sinal. Talvez por
culpa de toda uma seara de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, fomos
levados a crer que existem guerras virtuosas. E, assim no atacado, é
possível mesmo ver algumas guerras do século XX como a luta do bem
contra o mal. No varejo, contudo, isto é, quando a gente sabe o nome do
soldado ou quando mora na rua que é alvo de míssil, a guerra é puro
horror.
O
contra-argumento à ideia da guerra como algo intrinsecamente imoral são
os grandes feitos heroicos. Oscar Schindler. O homem que, com uma só
perna e munido de apenas um estilingue, derrotou todo um batalhão
inimigo. A carnificina do Dia D. Aquele corredor do filme da Angelina
Jolie. E até nossos queridos pracinhas. Mas, transpostos para a tal de
guerra cultural, como esses atos heroicos se revelariam? Na derrubada de
estátuas? Na queima de livros? No cancelamento de vozes dissonantes?
Seja
qual for a estratégia, tanto na guerra ignorante quanto na cultural o
objetivo é sempre o mesmo: a eliminação do inimigo. E não há
absolutamente nada de virtuoso nisso. Por mais que você considere
abjetas as ideias de Márcia Tiburi, sinta engulhos diante da doutrinação
de um Jonathan van Ness ou se revolte com o sentimentalismo
politicamente correto de Fabrício Carpinejar, nada justifica que se
proponha o extermínio (real ou simbólico) dessas pessoas.
Sei
que, ao longo do tempo, fomos convencidos de que essa intolerância toda
é necessária para nossa própria sobrevivência. A guerra cultural, veja
só, se apropriou da ideia de “matar ou morrer”, que internalizamos como
se fosse a realidade – nem que seja a realidade do espaço virtual. Não
é. Se o ser humano abdica da busca pelas transcendentais (verdade,
bondade e beleza) é por escolha própria, e não porque a escola ou a
sociedade ou a vida o obriga a ler, sei lá, Paulo Coelho, ou assistir ao
Especial de Natal do Porta dos Fundos.
Outra
coisa que os próprios produtos da guerra cultural expressam com esse
culto ao heroísmo violento é o vício em guerra. Vício no conflito. No
gosto do sangue do inimigo. Talvez até na expressão de agonia dele. Na
sensação de triunfo. É desse vício que padece o debate público, cujo
discurso está poluído por expressões de força bélica.
Não
há nada de virtuoso na tal guerra cultural. Nada de nobre, de elevado,
de belo, de heroico. E não, você não será louvado por decapitar
(retoricamente!) feministas, antifas, ativistas LGBT, militantes que
veem racismo em tudo, etc. Ao contrário, seu certificado de alistamento
nas fileiras bárbaras dessa guerra é, na verdade, uma confissão de
derrota dessa tal de Civilização Ocidental da qual você diz se orgulhar e
que foi a muito custo erguida sobre os pilares muito frágeis da
convivência pacífica entre as diferenças.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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