A descoberta de água no satélite da Terra pode acelerar a exploração espacial. Tornará menos complexa a instalação de uma base fixa para servir como parada técnica a caminho de Marte. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:
Quando
alguém aponta para a Lua, o idiota olha para o dedo. É o que diz o
velho ditado. Muitos dedos estão neste momento sendo apontados para
nosso brilhante satélite prateado. A Lua é a musa de grandes
transformações.
Em
primeiro lugar, tem a água. Quando os primeiros astronautas pisaram na
Lua, em 1969, a areia (conhecida como “regolito”) que ficou presa a suas
botas chocou pela secura. A Lua parecia ser um deserto morto. Dois anos
depois, astronautas da Apollo 14 colheram amostras de vapor de água.
Em
1976, a nave soviética Luna 24 trouxe amostras do solo lunar para a
Terra. Os cientistas perceberam que havia 1% de água nessas amostras. A
Lua já não era mais considerada um deserto absoluto. Pesquisas mais
avançadas revelaram em 2010 a presença de água gelada ao redor dos
polos. Calculou-se que as regiões polares poderiam conter 600 milhões de
toneladas métricas de gelo. Mas só em locais que a luz do Sol não
alcançava.
A
água lunar se tornou uma possibilidade real. Ela poderia ser usada para
o consumo humano e transformada em combustível para as naves (em forma
de hidrogênio líquido). Por causa da água, planos para novas
alunissagens passaram a focar as proximidades do polo sul.
No
dia 26 de outubro, a Nasa anunciou (na revista Nature Astronomy) os
surpreendentes resultados da pesquisa realizada com o Sofia. O Sofia
(uma sigla mais sexy para Observatório Estratosférico Astronômico
Infravermelho) é um telescópio montado a bordo de um Boeing 747SP voando
a 13 mil metros, bem acima das nuvens.
O
Sofia estudou especificamente a segunda maior cratera do lado visível
da Lua, a Clavius, localizada no sul do satélite. A Clavius tem 231
quilômetros de diâmetro, um buraco pouco menor que a distância entre
Curitiba e Florianópolis. Ficou famosa na ficção como cenário do filme
2001: Uma Odisseia no Espaço. Graças ao Sofia, agora soubemos que
Clavius, mesmo exposta à luz solar, tem traços de água. Essa descoberta
mudou um paradigma. Os astronautas futuros poderão se estabelecer
teoricamente em qualquer ponto da Lua, e não apenas nas regiões polares.
Como
essa água se formou na Lua? Existem duas possibilidades. Uma, a de que
foi levada por meteoritos que se chocaram com o satélite. A outra
possiblidade é que o hidrogênio carregado pelos ventos solares reagiu ao
contato com o rarefeito oxigênio da Lua. (Não sabemos exatamente nem
como a água surgiu na Terra.)
A
quantidade de água encontrada pelos sensores infravermelhos do Sofia é
muito pequena. O solo da Lua é cem vezes mais seco do que o Deserto do
Saara. Nos polos, a extração da água será mais difícil — e mais farta. A
perspectiva é que não exista um grande lago subterrâneo. Mas a soma de
microdepósitos de gelo pode chegar a 40 mil quilômetros quadrados de
água — pouco menos que a área do Estado do Rio de Janeiro ou da
Dinamarca.
Essa
água não existe ainda (ao que se sabe) em forma líquida. São moléculas
de hidrogênio e oxigênio muito esparsas. Mas estão prontas para ser
manipuladas pelo equipamento apropriado para virar H2O.
Humanos
poderão beber essa água lunar? Shuai Li, da Universidade do Havaí,
assinala que ela vai estar misturada com o regolito e materiais
remanescentes dos meteoritos. Pode conter também traços de anortosito,
uma pedra clara e rica em cálcio. Basalto e sal podem estar também
presentes. Ou seja: seu sabor não deve ser muito agradável. Nada que uma
boa filtragem não resolva.
Em
2021, o foguete Artemis I levará os veículos Lunar Flashlight e Lunar
IceCube, destinados a analisar o solo em detalhes inéditos. No ano
seguinte será lançado o Lunar Trailblazer, que vai produzir um mapa em
alta resolução de localização de água no satélite.
Em
2023, a Nasa (em parceria com a empresa Astrobotic) mandará para a Lua
um veículo do tamanho de um carrinho de golfe chamado Viper (Volatiles
Investigating Polar Exploration Rover). Em cem dias de pesquisa, o Viper
(capaz de cavar até 1 metro sob a superfície) deverá criar um mapa
regional indicando onde está a água no polo. Esse mapa poderá determinar
onde vai ser instalada a futura primeira base fixa. Em 2024, se tudo
der certo, dois astronautas (incluindo uma mulher) deverão voltar à
superfície do satélite.
A
exploração de água na Lua vai inaugurar uma nova fase da história da
humanidade — a criação da primeira economia espacial. Essa água precisa
ser localizada, explorada, beneficiada, armazenada. O consórcio United
Launch Alliance calcula que a mineração de água na Lua pode virar um
negócio de US$ 2,4 bilhões.
“A
ideia de minerar a Lua e os asteroides não é mais ficção científica”,
resumiu o professor Dan Britt, da Universidade da Flórida Central, que
colabora no projeto. “Existem equipes ao redor do mundo procurando
maneiras de fazer isso se tornar realidade, e nosso trabalho é ajudar a
concretizar essa ideia.”
Pouco
antes de a Nasa anunciar a descoberta de água na Lua, foram assinados
(em 13 de outubro) os Acordos Artemis. Eles estabelecem princípios
práticos para a exploração da Lua, de Marte, de asteroides e outros
corpos celestes. O acordo foi proposto pelos Estados Unidos e assinado
(em negociações bilaterais) por oito países: Austrália, Canadá, Emirados
Árabes Unidos, EUA, Itália, Japão, Luxemburgo e Reino Unido. (O Brasil
foi convidado, mas ainda não respondeu.)
A
China nem foi convidada para os Acordos Artemis por causa de uma emenda
legal (chamada Wolf) que dificulta a cooperação bilateral com o país.
Mas a Emenda Wolf, segundo o especialista em segurança espacial Todd
Harrison, “não está retardando a China. Ao contrário, está incentivando o
país a se tornar uma potência espacial”.
A
China já avisou que montará uma estação espacial de órbita baixa. E
deixou claro que sua estação vai ser “chinesa” e não internacional, como
a ISS, que está a caminho da aposentadoria. Os chineses pretendem
também estabelecer sua própria base próximo do polo sul lunar. E querem
ser os primeiros. Ao mesmo tempo, o país está disposto a acertar acordos
com os EUA em áreas vitais como o tráfego de espaçonaves. O espaço é
hostil demais para aceitar bravatas internacionais.
Alemanha,
França e Índia, que também desenvolvem programas espaciais, ainda não
aderiram. A Rússia não assinou os Artemis por considerar o programa
muito “centralizado nos EUA”. Segundo o governo Vladimir Putin, os
Estados Unidos estão se impondo sobre o desejo de nações mais fracas
para lucrar com a exploração do espaço. O programa espacial russo, que
já foi glorioso, está perdendo importância. Talvez a Rússia resolva que
vale a pena para seus interesses negociar a participação nos Acordos
Artemis. Ou talvez prefira aliar-se à China e assumir-se como simples
coadjuvante.
Os
Acordos Artemis podem ser resumidos em dez pontos: 1) exploração
pacífica do espaço; 2) transparência nas atividades; 3) os signatários
devem usar sistemas compatíveis de equipamento para garantir segurança e
sustentabilidade; 4) os países-membros se comprometem a ajudar uns aos
outros em caso de perigo de qualquer tripulação; 5) as informações
científicas devem ser compartilhadas com o resto do mundo; 6) a herança
do espaço será garantida por todos e para todos; 7) a exploração dos
recursos naturais deve ser conduzida de acordo com o Tratado do Espaço
Exterior, criado em 1967 e assinado até agora por 110 países; 8) as
atividades espaciais devem ser isentas de interferência dos países para
que conflitos sejam evitados; 9) os signatários se comprometem a
planejar o descarte seguro de dejetos espaciais; 10) todos os membros se
comprometem a criar um inventário comum dos objetos lançados ao espaço.
“Artemis
será o mais amplo e diversificado programa de exploração do espaço da
História”, declarou o administrador da Nasa, Jim Bridenstine, no momento
da assinatura dos Acordos. “Estamos nos unindo aos nossos parceiros
para explorar a Lua e estabelecendo os princípios vitais que criarão um
futuro seguro, pacífico e próspero no espaço para que toda a humanidade
desfrute.”
Essa
nova fase da aventura humana ainda tem muitas zonas cinzentas, com
potencial para futuros conflitos. A empresa Starkink (que pertence à
SpaceX) diz nos termos de serviço para seus clientes: “As partes
reconhecem Marte como um planeta livre e nenhum governo baseado na Terra
tem autoridade ou soberania sobre as atividades marcianas”.
Já
a empresa Lunar Land está oferecendo terrenos na Lua, próximo do Mar da
Tranquilidade. Os pacotes começam com US$ 30 e chegam a US$ 250 (“81
mil metros quadrados, documentos de posse, nome no certificado de
propriedade, mapa da Lua”). A empresa oferece também terrenos em Marte,
Mercúrio, Vênus e em uma das luas de Júpiter. Isso é legal?
Provavelmente não. Mas ninguém sabe ao certo.
E
existe o caso do asteroide 16 Psyche, com 225 quilômetros de diâmetro,
que circula entre Marte e Júpiter. É um bloco esburacado em formato de
batata, composto basicamente de ferro e níquel. Resolveram calcular
quanto valeria esse depósito de metais flutuando no espaço, com os
preços de mercado atuais. O valor teórico do 16 Psyche chegou a US$ 10
quintilhões. Transformaria o PIB somado do mundo inteiro (US$ 87
trilhões em 2019, segundo o Banco Mundial) num troquinho.
Não
existem — ainda — planos de minerar o 16 Psyche. De qualquer jeito, até
pelo valor científico do asteroide, a Nasa já programou um voo não
tripulado do SpaceX para lá em 2022. Deverá chegar em janeiro de 2026. E
se as pesquisas indicarem valer a pena explorá-lo? A quem pertence esse
asteroide?
Segundo
o artigo 2 do OST (Tratado do Espaço Exterior), assinado em 1967, “o
espaço exterior, incluindo a Lua e outros corpos celestes, não está
sujeito a apropriação nacional por declaração de soberania, no sentido
de uso ou ocupação, ou por quaisquer outros meios”. Mas, como destaca
artigo do New Indian Express, “o mundo de 2020 é diferente do mundo de
1967”. O mundo não está mais na Guerra Fria dos anos 1960. Nem no século
17, quando reinos disputavam nacos de território nas Américas com
canhonaços mútuos. A iniciativa privada faz a maior diferença nesse
sentido.
Em
2040 nossos descendentes pensarão em migrar para a Lua, como seus
tataravós migraram para o Brasil? Viajarão em naves montadas com metais
extraídos de 16 Psyche? Farão visitas guiadas ao memorial da primeira
base lunar? Tomarão água geladinha extraída da cratera Clavius?
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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