por Mino Carta
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publicado CARTA CAPITAL
Sem hipocrisia e golpes baixos, vale escolher a realidade em lugar da ficção
Evaristo Sa/AFP
Só com a aposta no crescimento a presidente reverte a situação criada por uma crise antes política que econômica
E, a propósito de Lula,
acreditam na sua tentativa de conferenciar com Fernando Henrique em
busca de um entendimento suprapartidário, frustrada prontamente pela
negativa do príncipe dos sociólogos. O episódio é menor, mas exemplar.
Abandonada a ficção, caiamos na real. Dois amigos procuram Lula no
começo de julho, são amigos também de FHC, e trazem a proposta de uma
conversa sobre os problemas contingentes. O procurado sabe que o
proponente gosta de aparecer e, portanto, de passar a prestativos
jornalistas informações que haveriam de permanecer secretas. Daí a
contraproposta: tudo bem, se o encontro se der na casa de um dos amigos
comuns, com a garantia de testemunhas confiáveis. FHC manda responder
que concorda, mas será preciso esperar pelo retorno dele de uma viagem
ao exterior. Dias atrás, Lula é informado pela mídia que o viajante
voltou e espalha a versão ficcional: ele não quis a conversa proposta
pelo petista.
Entregue à veia romanesca, a mídia borda a
respeito dias a fio. Recordo ter assistido a um encontro entre Lula e
Fernando Henrique em um bar na periferia de São Bernardo, naquele começo
do outono de 1980 marcado pela greve dos metalúrgicos de São Bernardo e
Diadema, encerrada com a prisão do presidente do sindicato, enquadrado
na Lei de Segurança Nacional da ditadura. Antes da chegada do então
suplente de senador, eu quis me retirar. Lula disse “fica, fica, vai
valer a pena”. Não fosse clara a diferença entre as duas figuras,
qualquer dúvida cairia. Diferença na fé e na coerência. FHC recomendava
cautela. Contemporização. Pensei que ele já enxergasse no interlocutor
do bar do arrabalde um adversário carismático, perigosamente atilado.
Talvez, um inimigo, de sorte a sugerir a conveniência de conter-lhe os
ímpetos.
Trinta e cinco anos após, FHC ainda está na ribalta,
empenhado em desempenhar o papel de oráculo do PSDB, de mentor-mor, a
orientar o movimento desencadeado contra o governo e o PT, sem conseguir
encobrir o alvo mais graúdo, ou seja, o próprio metalúrgico com quem
conversou à vista de ovos duros, sardinhas fritas e garrafas de cachaça.
E a realidade de hoje diz que a oposição engatilha mais uma cartada no
jogo do impeachment, com o apoio maciço da mídia, conforme um projeto de iniludível natureza golpista.
Desde antes da posse, os vencidos tentam solapar o governo
e brandem a ameaça do impedimento. O “petrolão” lhes ofereceu munição
farta, com a contribuição das posições cada vez mais dúbias do PMDB,
da desorganização e inoperância do PT e do descumprimento das promessas
feitas por Dilma Rousseff aos seus eleitores. Não faltaram tentativas
de envolver a presidenta no escândalo da Petrobras. Todas malograram.
Sobram para o cardápio do momento as expectativas em relação às decisões
de TCU e TSE sobre contas e pedaladas.
CartaCapital lembra que a história recente e nem
tanto registra a eleição de outros candidatos em circunstâncias
análogas, se não idênticas, coroadas pela posse sem riscos, percalços,
objeções. CartaCapital entende que, acima de tudo, deve vingar
obrigatoriamente o respeito à Constituição, sem hipocrisias e golpes
baixos. Nem por isso, não há como disfarçar o açodamento oposicionista,
mais ainda, a irresponsabilidade. A despeito dos ficcionistas
midiáticos, a saída não está em uma mudança da guarda no Planalto. E a
se considerarem as consequências da queda deste governo, é fácil
compreender que o Brasil com Dilma legalmente reeleita é a solução
indispensável, a bem da nossa incipiente democracia.
Estamos a nos aproximar de jornadas de muita tensão, ao
que tudo indica. Sabemos, contudo, que mesmo superado o terremoto, a
oposição e sua mídia não desistirão do combate, pois a Lava Jato
prossegue sem esmorecimentos, sob o olhar impassível do STF, indiferente
diante de um acúmulo insuportável de irregularidades, enquanto a crise
econômica fermenta, com a alta de desemprego e inflação e crescimento
abaixo de zero.
A partir do pós-reeleição, CartaCapital insiste na
necessidade da retomada imediata do crescimento, quem sabe a começar
pela conclusão das obras inacabadas do PAC, cujo atraso oscila entre 20%
e 30%. Falávamos no exemplo de Roosevelt depois do craque da Bolsa de
Nova York. Com o aproveitamento de recursos públicos, Dilma poderia
lançar o seu new deal, modesto, mas eficaz. Óbvia a
incompatibilidade entre essa ideia e o ministro da Fazenda, Joaquim
Levy, empenhado em elevar juros e aplicar a cartilha de Chicago.
Seria preciso inverter a rota, ao perceber finalmente o
óbvio: antes que econômica, a crise é política. E agora me pego a
descambar para o onírico. Em lugar da ficção da mídia, o sonho de um
jornalista ancião. Começa com o pesadelo chamado impeachment.
Resultado: assume Michel Temer, o qual, entre parênteses, mantém desde a
posse um comportamento correto. O PMDB alia-se ao PSDB e Levy continua
na Fazenda. De cambulhada, privatiza-se a Petrobras e entrega-se o
pré-sal a um consórcio das sete irmãs do petróleo mundial. Dissolvência.
Saio do pesadelo, sonho, simplesmente. Hora das eleições de 2018, Lula vence. É um passeio.
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