MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Empresa faz patente de método para escolher da cor dos olhos ao risco de doenças no bebê


 
RAFAEL GARCIA
FOLHA DE SÃO PAULO
Uma empresa americana registrou há uma semana a patente para um teste de DNA que permite a usuários de óvulos e esperma doados tentarem escolher características do bebê a ser concebido. O patenteamento foi feito pela 23andMe, da Califórnia, fundada com capital de U$ 3,9 milhões do Google e investimentos de outras empresas.
O método de seleção de gametas registrado já está sendo criticado por geneticistas independentes e envolve o rastreamento de genes relacionados tanto a características mais triviais como outras menos. No texto da patente, a empresa sugere que poderia oferecer a receptores de óvulos ou esperma a identificação dos doadores mais propensos a transmitir traços como cor dos olhos e estatura, mas também expectativa de vida e porte atlético.
Caso venha a ser utilizado, o método registrado usa um algoritmo (série de comandos matemáticos) para cruzar dados de doador e receptor dos gametas de forma a maximizar a chance de a criança nascida ganhar as características desejadas. O pedido de patente exibe um esquema de menu de computador no qual o usuário escolhe as características desejadas e clica um botão para fazer a busca do doador. O método lista como característica passível de escolha até mesmo o sexo do bebê, algo que a maioria dos países proíbe na regulamentação para tratamentos de fertilidade.
A 23andMe, que tem como uma das fundadoras Anne Wojcicki --ex-mulher de Sergey Brin, co-fundador do Google-- diz que a patente se aplica a um produto que a empresa já oferece. É uma "calculadora de hereditariedade de traços familiares", que serve para "você e seu cônjuge saberem que tipos de características seus filhos devem herdar".
A empresa afirma, na época em que havia submetido o pedido da patente, há mais de cinco anos, ainda considerava a possibilidade de aplicar o a tecnologia da "calculadora" em métodos de escolha de gametas em clínicas de fertilização, mas desistiu de fazê-lo depois.
Ainda assim, em comentário na revista científica "Genetics and Medicine", um grupo de eticistas questiona a concessão do "invento". "Em nenhum estágio durante a análise do pedido de patente, o examinador questionou se técnicas que facilitam 'projetar' futuros bebês humanos seriam objeto apropriado para patentes" afirma o grupo, liderado por Sigrid Sterckx, da Universidade de Ghent, na Bélgica. "Não é a primeira vez que a 23andMe se envolve em controvérsia. Após a empresa ter anunciado em seu blog em maio de 2012 que havia conseguido a patente para um teste de propensão ao desenvolvimento do mal de Parkinson, o blog foi inundado de reações de clientes insatisfeitos, aqueles que haviam fornecido os dados genéticos e fenotípicos do biobanco da 23andMe."
Sterckx questiona se as mesmas pessoas teriam autorizado a empresa a usar o biobanco para desenvolver o método de seleção de gametas patenteado agora. A empresa nega uso indevido de informação privativa. "Estamos comprometidos com nosso princípio fundamental de dar às pessoas acesso a seus próprios dados genéticos."
CARACTERÍSTICAS FÚTEIS
Alguns geneticistas não se opõem à prática da seleção de gametas caso ela seja aplicada apenas para evitar que a criança adquira novas doenças, mas acreditam que a escolha de genes deve ser limitada.
"Acho totalmente antiético selecionar características 'fúteis'; filhos não são brinquedos", diz Mayana Zatz, geneticista da USP. "No momento em que você escolhe uma característica importante para você, como o talento esportivo, você coloca uma enorme expectativa em torno disso, e seu filho pode se revoltar dizendo que ele queria ser compositor, ou cientista..."
Zatz também afirma que implementar tal teste seria complicado do ponto de vista do consumidor, pois a complexidade da genética humana torna difícil que as características prometidas pela empresa sejam de fato todas "entregues" quando o bebê nasce.
"Seria teoricamente possível selecionar características com herança mendeliana, que dependem de um único gene --por exemplo, a cor de olhos", diz Zatz. "Outras com herança complexa --como personalidade, talento para esporte, longevidade etc.-- dependem da interação entre genes e ambiente, e fica impossível."
Mesmo para os eticistas que criticam a empresa mais duramente, porém, ainda há chance para redenção.
"A 23andMe pode demonstrar que é séria ao agir com responsabilidade nesse assunto, caso anuncie que vai usar sua patente para impedir terceiros de tentarem adotar essa tecnologia", diz Marcy Darnoovsky, diretor-executivo do Centro para Genética e Sociedade, ONG de atuação no setor de genética e reprodução. "Essa patente pode encorajar a ideia perigosa de que a ciência deveria ser usada para criar pessoas 'melhores', reavivando o espectro da eugenia."

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